
John Flanagan  

Rangers, Ordem dos arqueiros 02

Ponte em chamas



Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)
        (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Flanagan, John
Rangers -- Ordem dos Arqueiros: Ponte em Cha-
mas/John Flanagan; [verso brasileira da editora] -- So
Paulo, SP: Editora Fundamento Educacional, 2009.
Ttulo original: Rangers apprentice: The Burning Bridge
I. Literatura infanto-juvenil I. Ttulo.
07-8417                                  CDD-028. 5

            ndices para catlogo sistemtico:

l. Literatura infanto-juvenil 023. 5 2. Literatura juvenil
023.5
Halt e Will estavam seguindo os Wargals por trs dias.
As quatro criaturas grandes e selvagens, soldados do re-
belde comandante Morgarath tinham sido vistas passando
pelo Feudo Redmont em direo ao norte. Assim que a
informao chegou aos ouvidos do arqueiro, ele saiu para
intercept-los, acompanhado de seu jovem aprendiz.
       -- De onde ser que eles vieram, Halt? -- Will
perguntou durante uma de suas curtas paradas para des-
canso. -- O Desfiladeiro dos Trs Passos j no est bem
vigiado?
       O Desfiladeiro dos Trs Passos era o nico acesso
existente entre o reino de Araluen e as Montanhas da
Chuva e da Noite, onde Morgarath mantinha seu quar-
tel-general. Agora que o reino estava se preparando para a
guerra com Morgarath, a companhia de infantaria e os ar-
queiros tinham sido enviados para reforar a pequena
guarnio permanente na estreita passagem at que o e-
xrcito principal pudesse se reunir.
       -- Esse  o nico lugar de onde eles podem vir em
grande nmero -- Halt concordou. -- Mas um pequeno
grupo como esse poderia entrar no Reino pela barreira de
penhascos.
       O domnio de Morgarath era um inspito planalto
que se erguia nas montanhas sobre as fronteiras no sul do
reino. Do Desfiladeiro dos Trs Passos, no leste, saa uma
linha de penhascos ngremes e escarpados, em direo ao
oeste, formando a fronteira entre o planalto e Araluen. 
medida que avanavam para o sudoeste, os penhascos
mergulhavam em outro obstculo chamado fenda: uma
abertura na terra que corria para o mar e separava o terri-
trio de Morgarath do reino dos celtas.
       Foram essas fortificaes naturais que mantiveram
Araluen e sua vizinha Cltica a salvo dos exrcitos de
Morgarath nos ltimos dezesseis anos. Por outro lado, e-
las tambm protegeram o rebelde comandante das foras
de Araluen.
       -- Pensei que fosse impossvel passar por esses
penhascos -- Will comentou.
       -- Nenhum lugar  realmente impossvel de atra-
vessar -- Halt retrucou com um sorriso sombrio. --
Principalmente se voc no der importncia a quantas vi-
das vai perder tentando provar esse fato. Na minha opi-
nio, eles usaram cordas e ganchos e esperaram uma noite
sem luar e de mau tempo para conseguirem passar pelas
patrulhas da fronteira.
       Ele se levantou, mostrando que o descanso tinha
chegado ao fim. Will tambm se ergueu, e os dois foram
at os cavalos. Halt grunhiu levemente quando montou na
sela. O ferimento que tinha sofrido na batalha com os
dois Kalkaras ainda o incomodava um pouco.
       -- Minha principal preocupao no  saber de
onde eles vieram -- ele continuou. --  saber para onde
esto indo e o que pretendem.
       Halt mal tinha acabado de falar quando ele e Will
ouviram um grito vindo de algum ponto adiante deles,
seguido por uma confuso de grunhidos e, finalmente,
pelo choque de armas.
       -- E talvez a gente descubra isso bem depressa! --
concluiu.
       Ele fez Abelard galopar, controlando-o com os jo-
elhos enquanto as mos, sem esforo, escolhiam uma fle-
cha e a ajustavam  corda de seu enorme arco. Will subiu
na sela de Puxo com a ajuda das mos e galopou atrs do
mestre. Ele no conseguia imitar a habilidade de Halt para
montar sem usar as mos, pois precisava da mo direita
para segurar as rdeas enquanto segurava o arco com a
esquerda.
       Eles estavam atravessando um bosque com poucas
rvores, deixando que os espertos cavalos escolhessem o
melhor caminho. De repente, saram do meio das rvores
para uma ampla campina. Abelard, obedecendo a um co-
mando de seu cavaleiro, parou, seguido imediatamente
por Puxo. Will deixou cair as rdeas no pescoo do ani-
mal e sua mo instintivamente procurou uma flecha na
aljava e a posicionou no arco.
       Uma grande figueira crescia no meio do terreno
com pouca vegetao. Um pequeno acampamento tinha
sido montado junto do tronco. Um fio de fumaa ainda
subia da fogueira, e uma mochila e um cobertor enrolado
estavam no cho ao lado dela. Os quatro Wargals cerca-
vam um homem que estava de costas para a rvore. Sua
espada ainda os mantinha longe dele, mas os Wargals fa-
ziam leves movimentos em sua direo, tentando encon-
trar uma brecha para atac-lo. Eles estavam armados com
espadas curtas e machados, e um deles carregava uma pe-
sada lana de ferro.
       Will respirou fundo ao ver as criaturas. Depois de
seguir suas pegadas por tanto tempo, era um choque
v-los claramente to de repente. Seus corpos eram pare-
cidos com os de ursos; eles tinham focinhos longos e for-
tes e presas amarelas de cachorro, agora expostas ao ros-
narem para sua vtima. Eram cobertos por pelos desgre-
nhados e usavam armaduras pretas de couro. O homem
estava vestido de modo parecido, e sua voz tremia de
medo ao repelir as tentativas de ataque.
       -- Para trs! Estou cumprindo uma misso para
lorde Morgarath. Para trs, eu ordeno! Eu ordeno em
nome de lorde Morgarath!
       Halt fez que Abelard se virasse, de modo a ter es-
pao para puxar a flecha que j estava preparada no arco.
       -- Larguem as armas! Todos vocs! -- ele gritou.
       Cinco pares de olhos se voltaram para ele quando
os quatro Wargals e sua presa se viraram surpresos. O
Wargal que segurava a lana se recuperou primeiro. Per-
cebendo que o espadachim estava distrado, disparou para
a frente e perfurou seu corpo com a lana. Um segundo
depois, a flecha de Halt se enterrou no corao do Wargal
e ele caiu morto ao lado da presa ferida. Quando o espa-
dachim caiu de joelhos, os outros Wargals investiram con-
tra os dois arqueiros. Mesmo desajeitadas e enormes, as
trs criaturas moveram-se numa velocidade incrvel.
        O segundo tiro de Halt atingiu o Wargal da es-
querda. Will atirou em outro  direita e percebeu no
mesmo instante que tinha julgado mal a velocidade da cri-
atura abrutalhada: a flecha passou sibilando no espao
onde o Wargal tinha estado um segundo antes. Sua mo
voou para a aljava  procura de outra flecha, e ele ouviu
um gemido rouco de dor quando o terceiro tiro de Halt
atingiu o peito da criatura que estava no centro. Ento
Will soltou a segunda flecha na direo do Wargal sobre-
vivente, agora assustadoramente perto.
        Apavorado diante dos olhos selvagens e das presas
amarelas da criatura, o garoto atirou, sentindo que a flecha
iria passar longe do alvo. O Wargal estava quase sobre ele.
        Quando a criatura rosnou triunfante, Puxo veio
em ajuda de seu dono. O pequeno cavalo empinou e ata-
cou o monstro terrvel com as patas dianteiras, avanando
em seguida alguns passos em sua direo. Will, tomado de
surpresa, agarrou-se ao alto da sela.
        O Wargal ficou igualmente surpreso. Como todos
de sua espcie, ele tinha um profundo medo instintivo de
cavalos, um medo nascido na Batalha de Hackman Heath,
dezesseis anos antes, na qual o primeiro exrcito de War-
gals de Morgarath foi dizimado pela cavalaria de Araluen.
O monstro hesitou por um segundo fatal, recuando diante
dos cascos impiedosos do cavalo.
       A quarta flecha de Halt atingiu a criatura na gar-
ganta e, devido  curta distncia, a atravessou. Com um
ltimo grito agudo, o Wargal caiu morto na grama.
       Plido, Will escorregou para o cho, pois no con-
seguia se manter em p. Teve que se segurar em Puxo
para se levantar. Halt saltou da sela depressa, foi at o ga-
roto e o abraou.
       -- Est tudo bem, Will -- a voz grave atravessou o
medo que enchia a mente do rapaz. -- J passou.
       Mas Will sacudiu a cabea negativamente horrori-
zado com a rpida srie de acontecimentos.
       -- Halt, eu errei... duas vezes! Entrei em pnico e
errei!
       Ele foi tomado por uma profunda sensao de
vergonha por ter causado tamanha decepo ao seu mes-
tre. O brao de Halt apertou ainda mais o ombro do ga-
roto, que olhou para o rosto barbado e os olhos escuros e
profundos do mestre.
       -- H uma grande diferena entre atirar num alvo e
num Wargal que est pronto para atacar. Geralmente o
alvo no quer matar voc.
        Halt acrescentou as ltimas palavras num tom mais
suave. Ele percebeu que Will estava em choque. "E no 
para menos", ele pensou sombriamente.
        -- Mas... eu errei...
        -- E aprendeu uma lio. Da prxima vez, no vai
errar. Agora voc sabe que  melhor atirar uma flecha
com ateno do que duas com pressa -- Halt disse com
firmeza.
        Ento, pegou o brao de Will e fez o garoto se virar
para o local do acampamento debaixo da figueira.
        -- Vamos ver o que achamos ali -- ele sugeriu
pondo um fim na conversa.
        O homem vestido de preto e o Wargal estavam
mortos, cados lado a lado. Halt se ajoelhou ao lado do
homem e o virou, assobiando surpreso.
        --  Dirk Reacher -- ele informou meio para si
mesmo. -- Ele  a ltima pessoa que eu esperaria ver a-
qui.
        -- Voc conhece ele? -- Will perguntou.
        Sua insacivel curiosidade j o estava ajudando a
esquecer os terrveis minutos anteriores, como Halt sabia
que iria acontecer.
        -- Eu persegui ele at que sasse do reino, h uns
cinco ou seis anos -- o arqueiro contou. -- Era um co-
varde e assassino. Desertou do exrcito e encontrou seu
lugar, junto de Morgarath -- ele fez uma pausa. -- Parece
que Morgarath est se especializando em recrutar pessoas
como ele. Mas o que esse homem estava fazendo aqui...?
        -- Ele disse que estava numa misso para Morga-
rath.
       -- Duvido. Os Wargals estavam caando ele e so-
mente Morgarath poderia ter dado essa ordem. Dificil-
mente os Wargals perseguiriam algum que estivesse tra-
balhando para o chefe deles. Acho que estava desertando
outra vez. Ele fugiu de Morgarath, e os Wargals foram
mandados atrs dele.
       -- Por qu? -- Will perguntou. -- Por que deser-
tar?
       -- A guerra est para comear -- Halt disse dando
de ombros. -- Pessoas como Dirk tentam evitar esse tipo
de aborrecimento.
       Ele pegou a mochila que estava perto da fogueira
do acampamento e comeou a remexer dentro dela.
       -- Voc est procurando alguma coisa em especial?
-- Will perguntou.
       Halt franziu a testa e, cansado de olhar dentro da
mochila, derramou o contedo no cho.
       -- Bom, me ocorreu que, se ele tivesse desertado e
quisesse voltar para Araluen, teria que levar alguma coisa
para trocar por sua liberdade. Assim...
       Sua voz desapareceu aos poucos quando ele apa-
nhou um pedao de pergaminho cuidadosamente dobrado
entre as poucas roupas e utenslios de cozinha. Ele o exa-
minou rapidamente e ergueu uma das sobrancelhas leve-
mente. Depois de quase um ano convivendo com o ar-
queiro grisalho, Will sabia que aquilo era o equivalente a
um grito de espanto. Ele tambm sabia que, se interrom-
pesse Halt antes que terminasse de ler, seu mentor sim-
plesmente o ignoraria. Will esperou at que Halt dobrasse
o papel, levantasse devagar e olhasse para o aprendiz, en-
xergando a pergunta no olhar do garoto.
       --  importante?
       -- Ah, acho que posso dizer que sim -- Halt res-
pondeu. -- Parece que tropeamos nos planos de batalha
de Morgarath para a prxima guerra. Acho melhor vol-
tarmos para Redmont.
       Ele assobiou baixinho, e Abelard e Puxo trotaram
para junto de seus donos.
       Das rvores, a vrias centenas de metros de distn-
cia, cuidadosamente a favor do vento para que os cavalos
dos arqueiros no sentissem o cheiro do intruso, olhos
inamistosos os observavam. Seu dono observou os dois
arqueiros se afastarem da cena da pequena batalha e ento
se virou para o sul, na direo dos penhascos. Era hora de
informar Morgarath que seu plano tinha dado certo.
J   era quase meia-noite quando um cavaleiro solitrio
freou o cavalo em frente  pequena cabana construda en-
tre as rvores abaixo do Castelo Redmont. O pnei carre-
gado que caminhava atrs do cavalo selado parou tam-
bm. O cavaleiro, um homem alto que se movia com a
graa fcil da juventude, escorregou da sela e entrou na
varanda estreita, agachando-se para no bater no beiral
baixo. Do estbulo coberto ao lado da casa, vinha o som
do suave relinchar de cavalos, e o animal que acabara de
chegar levantou a cabea como se respondesse a um
cumprimento.
       O cavaleiro tinha levantado o punho para bater na
porta quando viu uma luz se acender atrs da cortina da
janela. Ele hesitou. A luz atravessou a sala e, cerca de um
segundo depois, a porta se abriu.
       -- Gilan -- Halt disse sem qualquer sinal de sur-
presa na voz. -- O que est fazendo aqui?
       O jovem arqueiro riu ao encarar o antigo professor.
       -- Como voc faz isso, Halt? -- ele perguntou. --
Como voc podia saber que era eu quem estava chegando
no meio da noite, antes mesmo de abrir a porta?
       Halt deu de ombros, fazendo sinal para que Gilan
entrasse na casa. Ele fechou a porta, foi at a pequena co-
zinha bem arrumada, abriu o fogo e reavivou as chamas
do carvo em seu interior. Jogou alguns gravetos no fogo
e colocou uma chaleira de cobre na chapa quente sobre o
fogo, sacudindo-a primeiro para se certificar de que tinha
bastante gua.
       -- Escutei um cavalo h alguns minutos -- ele
contou. -- Ento, quando ouvi Abelard cumprimentar,
soube que tinha que ser o cavalo de um arqueiro.
       Ele deu de ombros outra vez. "Simples, depois da
explicao", dizia o gesto. Gilan riu em resposta.
       -- Bem, isso reduziu as possibilidades para 50 pes-
soas, no  mesmo?
       Halt inclinou a cabea para o lado com um olhar de
pena.
       -- Gilan, acho que ouvi voc tropeando naquele
degrau da frente umas mil vezes quando era meu aluno.
Admita que eu no podia deixar de reconhecer esse som
mais uma vez.
       O arqueiro mais jovem estendeu as mos num ges-
to de derrota. Ele tirou a capa e a pendurou em uma ca-
deira, aproximando-se mais um pouco do fogo. A noite
estava fria, e ele ficou olhando com certa ansiedade Halt
preparar o caf. A porta do quarto dos fundos se abriu, e
Will entrou na pequena sala com as roupas vestidas s
pressas sobre o pijama e os cabelos ainda desgrenhados.
       -- Boa-noite, Gilan -- ele cumprimentou calma-
mente. -- O que trouxe voc aqui?
       Gilan olhou de um para outro um tanto desespe-
rado.
       -- Ningum fica surpreso quando apareo no meio
da noite? -- ele perguntou.
       Halt, ocupado no fogo, se virou para esconder um
sorriso. Alguns minutos antes, ele tinha ouvido Will se
mover apressado e ir at a janela quando o cavalo se apro-
ximou da cabana. Era evidente que o aprendiz tinha ou-
vido a sua conversa com Gilan e estava fazendo o melhor
que podia para tentar criar o seu jeito informal de tratar a
chegada inesperada. Entretanto, conhecendo Will como
conhecia, Halt tinha certeza de que o garoto estava ar-
dendo de curiosidade quanto ao motivo da visita inespe-
rada, por isso resolveu fazer uma brincadeira.
       --  tarde, Will. Acho bom voc voltar para a ca-
ma. Temos um dia cheio amanh.
       No mesmo instante, a expresso indiferente de Will
foi substituda por um olhar infeliz. A sugesto do mestre
equivalia a uma ordem. Todas as intenes de parecer ca-
sual desapareceram de repente.
       -- Ah, por favor, Halt! -- o garoto exclamou. --
Quero saber o que est acontecendo!
       Halt e Gilan trocaram um sorriso rpido. Will es-
perava ansiosamente que Halt mudasse de ideia quanto a
mand-lo para a cama. O arqueiro grisalho continuou s-
rio ao colocar trs canecas fumegantes de caf na mesa da
cozinha.
        -- Por que voc acha que preparei trs xcaras? --
ele disse, e Will percebeu que tinha sido feito de bobo.
        Ele deu de ombros sorrindo e se sentou com seus
superiores.
        -- Muito bem, Gilan, antes que meu aprendiz aca-
be explodindo de curiosidade, qual  a razo para essa vi-
sita inesperada?
        -- Bom, tem a ver com os planos de batalha que
voc descobriu na semana passada. Agora que conhece-
mos as intenes de Morgarath, o rei quer o exrcito
pronto nas Plancies de Uthal antes da prxima Lua cres-
cente.  nesse dia que Morgarath planeja atravessar o
Desfiladeiro dos Trs Passos.
        O documento encontrado tinha muitas informa-
es. O plano de Morgarath falava de 500 mercenrios
escandinavos que iriam atravessar os pntanos e atacar a
guarnio no Desfiladeiro dos Trs Passos. Com o desfi-
ladeiro desprotegido, o exrcito principal de Wargals po-
deria invadir e espalhar suas tropas na plancie.
        -- Ento Duncan planeja atacar primeiro -- Halt
disse assentindo devagar. -- Boa ideia. Desse jeito, vamos
controlar o campo de batalha.
        -- E vamos manter o exrcito de Morgarath preso
numa armadilha no desfiladeiro -- Will disse em tom i-
gualmente srio, tambm concordando com a cabea.
       Gilan se virou ligeiramente para esconder um sor-
riso. Ele se perguntou se tinha tentado imitar os trejeitos
de Halt quando era seu aprendiz e chegou  concluso de
que provavelmente tinha, sim.
       -- Ao contrrio -- ele disse. -- Quando o exrcito
chegar, Duncan planeja se retirar, voltar para posies
preparadas com antecedncia e deixar Morgarath sair das
plancies.
       -- Deixar ele sair? -- Will indagou surpreso e com
voz aguda. -- O rei est louco? Por que...
       Ele percebeu que os dois arqueiros o observavam.
Halt com uma sobrancelha levantada e Gilan com um sor-
riso zombeteiro danando nos cantos da boca.
       -- Quero dizer... -- hesitou, sem saber ao certo se
questionar a sanidade do rei poderia ser considerado trai-
o. -- Sem querer ofender ou qualquer coisa parecida. 
que...
       -- Ah, tenho certeza de que o rei no vai ficar o-
fendido se souber que um mero aprendiz de arqueiro
pensa que ele est doido -- Halt retrucou. -- Os reis ge-
ralmente adoram ouvir esse tipo de coisa.
       -- Mas Halt... deixar que ele saia, depois de todos
esses anos? Parece... -- ele ia dizer "loucura", mas pensou
melhor.
       De repente, o rapaz se lembrou do recente encon-
tro com os Wargals. A ideia de milhares daquelas criaturas
horrveis se espalhando livremente para fora do desfila-
deiro fez seu sangue congelar.
       -- Essa  exatamente a questo, Will -- Halt foi o
primeiro a responder. -- "Depois de todos esses anos."
Ns passamos dezesseis anos olhando para Morgarath e
nos perguntando quais as intenes dele. Anos atrs, nos-
sas foras estavam ocupadas patrulhando a base dos pe-
nhascos e vigiando Trs Passos. E ele teve a liberdade de
nos atacar no momento em que quis. Os Kalkaras foram
o exemplo mais recente, como voc sabe muito bem.
       Gilan olhou para o antigo mestre com admirao.
Halt tinha entendido imediatamente o raciocnio que es-
tava por trs do plano do rei. No era a primeira vez que
percebia por que Halt era um dos conselheiros mais res-
peitados do monarca.
       -- Halt est certo, Will. E h outro motivo. Depois
de dezesseis anos de relativa paz, as pessoas esto ficando
complacentes. No os arqueiros,  claro, mas o povo das
vilas que fornecem homens ao nosso exrcito. E at al-
guns dos bares e mestres de guerra em feudos longn-
quos ao norte.
       -- Voc mesmo viu como algumas pessoas hesitam
em deixar as fazendas e ir para a guerra -- Halt argumen-
tou.
       Will assentiu. Ele e Halt tinham passado a ltima
semana viajando para os vilarejos vizinhos do Feudo
Redmont para alistar homens e formar o exrcito. Em
mais de uma ocasio, foram recebidos com total hostili-
dade. Uma hostilidade que desapareceu quando Halt usou
toda a fora de sua personalidade e reputao.
       -- No que se refere ao rei Duncan, agora  o mo-
mento de acertar isso -- Gilan continuou. -- Ns esta-
mos to fortes quanto sempre fomos, e qualquer atraso s
vai nos enfraquecer. Esta  a melhor oportunidade que
temos para nos livrar de Morgarath de uma vez por todas.
       -- E tudo isso nos leva de volta  minha primeira
pergunta -- Halt replicou. -- O que traz voc aqui no
meio da noite?
       -- Ordens de Crowley -- Gilan disse animado.
       Ele colocou sobre a mesa uma mensagem escrita, e
Halt, depois de um olhar interrogador para Gilan, a de-
senrolou e leu. Will sabia que Crowley era o comandante
dos arqueiros, a maior autoridade entre os 50 arqueiros da
Corporao. Halt leu e tornou a enrolar as ordens.
       -- Ento voc est levando mensagens para o rei
Swyddned, dos celtas. Suponho que est invocando o tra-
tado mtuo de defesa que Duncan assinou com ele h al-
guns anos.
       Gilan assentiu, tomando um gole do caf cheiroso
com satisfao.
       -- O rei acha que vamos precisar de todas as tro-
pas que pudermos reunir.
       -- No posso criticar ele por pensar assim -- Halt
disse em voz baixa concordando pensativo. -- Mas...?
       Ele estendeu as mos num gesto de interrogao. O
gesto parecia dizer que, se Gilan estava levando mensa-
gens para Cltica, quanto mais rpido ele comeasse, me-
lhor.
        -- Bom -- disse Gilan --,  uma misso oficial
para Cltica.
        Ele deu nfase  ultima palavra e, de repente, Halt
acenou com a cabea compreendendo o que o outro ar-
queiro queria dizer.
        -- Claro -- ele disse. -- A velha tradio celta.
        --  mais uma superstio -- Gilan comentou. --
Na minha opinio,  uma perda de tempo ridcula.
        -- Claro que  -- Halt respondeu --, mas os celtas
insistem nela. Ento, o que se pode fazer?
        Will olhou de Halt para Gilan e para seu mentor
novamente. Os dois arqueiros pareciam entender do que
estavam falando. Para Will, eles pareciam falar uma lngua
estrangeira.
        -- No h problemas em tempos normais -- Gilan
disse. -- Mas, com todos esses preparativos para a guerra,
estamos com dificuldades em todas as reas. Simplesmen-
te no dispomos de pessoal. Ento Crowley pensou...
        -- Acho que j estou adiante de voc -- Halt disse
e, finalmente, Will no conseguiu mais aguentar.
        -- Bom, acho que estou bem atrs de voc! -- ele
explodiu. -- O que raios vocs esto dizendo? Esto fa-
lando a nossa lngua ou algum estranho idioma estrangeiro
que se parece com ela, mas no faz nenhum sentido?
Surpreso    diante da exploso repentina, Halt se virou
lentamente para encarar seu jovem e impulsivo aprendiz.
       -- Sinto muito, Halt -- Will murmurou se acal-
mando.
       -- Acho que deve mesmo -- o arqueiro mais velho
comentou. --  mais do que evidente que Gilan est
perguntando se vou liberar voc para acompanhar ele a
Cltica.
       Gilan fez um gesto de confirmao e Will franziu a
testa atordoado com a repentina virada nos acontecimen-
tos.
       -- Eu? -- ele perguntou sem acreditar. -- Por que
eu? O que posso fazer em Cltica?
       Assim que proferiu as palavras, Will se arrependeu.
Ele j deveria ter aprendido a nunca dar esse tipo de a-
bertura para Halt. Seu mestre franziu os lbios e pensou
na pergunta.
       -- No muito, provavelmente. A pergunta impor-
tante  se voc pode ser liberado de suas tarefas aqui. E a
resposta  "com certeza".
       -- Ento por que...
       Will desistiu. Eles poderiam explicar o que estava
acontecendo ou no. E, por mais que perguntasse, Halt s
daria explicaes quando achasse que tinha chegado o
momento. Na verdade, ele estava comeando a pensar
que, quanto mais perguntas fazia, mais Halt gostava de
deix-lo s escuras. Foi Gilan que sentiu pena do garoto,
talvez por se lembrar de como Halt podia ser fechado
quando queria.
       -- Preciso de voc para completar o grupo, Will --
informou. -- Por tradio, os celtas insistem em que uma
misso oficial seja composta por trs pessoas. E, para ser
honesto, Halt est certo. Voc  uma das pessoas que po-
dem ser liberadas das funes aqui em Araluen -- ele riu
um tanto tristemente. -- Se isto o faz se sentir melhor,
recebi a misso porque sou o integrante mais novo dos
arqueiros da Corporao.
       -- Mas por que trs pessoas? -- Will quis saber,
vendo que pelo menos Gilan estava disposto a responder
perguntas. -- Uma pessoa s no pode entregar a mensa-
gem?
       -- Como estvamos dizendo,  uma superstio
dos celtas -- Gilan contou suspirando. -- Ela remonta
aos dias do Conselho Celta, quando eles, os scottis e os
hibernianos eram aliados governados por um triunvirato.
       -- A questo  -- Halt interrompeu -- que Gilan
pode levar a mensagem sozinho. Mas, se assim for, eles
vo fazer ele esperar e enganar ele com artifcios durante
dias, ou at semanas, enquanto se preocupam com etique-
ta e protocolos. E no temos esse tempo a perder. H um
velho ditado celta que fala sobre isso: Um homem pode
ser enganado. Dois, pode ser conspirao. Trs  o n-
mero em que confio.
       -- Ento vocs esto me mandando porque no h
outro jeito?
       Will perguntou um tanto insultado com a ideia.
       Halt decidiu que era o momento de massagear o
jovem ego um pouco; mas s um pouco.
       -- Bem, na verdade, h, sim. Mas no se pode
mandar qualquer um para uma misso dessas. Os trs
membros precisam ter algum tipo de status. Por exemplo,
eles no podem ser simples soldados.
       -- E voc, Will -- Gilan acrescentou --,  um
membro do Corpo dos Arqueiros. Isso vai pesar bastante
para os celtas.
       -- Sou s um aprendiz -- Will retrucou e ficou
surpreso quando os dois homens balanaram a cabea
discordando.
       -- Voc usa a Folha de Carvalho -- Halt disse com
firmeza. -- No importa se  de bronze ou prata. Voc 
um dos nossos.
       Will ficou visivelmente animado com a declarao
do mestre.
       -- Bom, se vocs acham isso, vou ficar muito feliz
em acompanhar Gilan -- Will respondeu.
        Halt olhou para ele com frieza. Certamente era
tempo de parar com as carcias no ego. Deliberadamente,
ele se virou para Gilan.
        -- Ento, voc sabe de mais algum que seja to-
talmente desnecessrio para ser o terceiro membro? -- ele
perguntou.
        Gilan deu de ombros, sorrindo quando viu Will se
acalmar.
        -- Esse  o outro motivo pelo qual Crowley me
mandou para c -- ele contou. -- Como Redmont  um
dos maiores feudos, ele pensou que vocs poderiam dis-
pensar outra pessoa daqui. Alguma sugesto?
        -- Acho que talvez tenhamos exatamente a pessoa
de quem voc precisa -- Halt disse esfregando o queixo
enquanto uma ideia se formava em sua cabea. -- Talvez
seja melhor voc ir para a cama -- ele disse virando-se
para Will -- Vou ajudar Gilan com os cavalos e depois
vou at o castelo.
        Will concordou. Agora que Halt tinha mencionado
a cama, o rapaz sentiu uma vontade irresistvel de bocejar.
Ele se levantou e foi para o seu pequeno quarto.
        -- At amanh, Gilan.
        -- Bem cedo -- Gilan respondeu sorrindo, e Will
revirou os olhos fingindo estar apavorado.
        -- Eu sabia que voc ia dizer isso.
        Halt e Gilan atravessaram os campos e foram at o
Castelo Redmont num silncio agradvel. Gilan, atento
aos modos do antigo mestre, percebeu que Halt queria
discutir um assunto. No demorou muito para que o ar-
queiro mais velho quebrasse o silncio.
       -- Essa misso para Cltica pode ser exatamente o
que Will precisa. Estou um pouco preocupado com ele.
       Gilan franziu a testa. Ele gostava do jovem e irre-
frevel aprendiz.
       -- Qual  o problema?
       -- Ele passou por maus momentos quando encon-
tramos aqueles Wargals na semana passada -- Halt con-
tou. -- Acha que perdeu a coragem.
       -- E perdeu?
       -- Claro que no -- Halt disse e sacudiu a cabea
com determinao. -- Ele tem mais coragem do que
muitos homens adultos. Mas, quando os Wargals nos ata-
caram, ele se apressou em atirar e errou.
       -- Isso no  nenhuma vergonha, ? -- Gilan re-
trucou. -- Afinal, ele nem tem 16 anos ainda. Suponho
que no tenha fugido.
       -- No, de jeito nenhum. Ele se manteve firme.
At conseguiu atirar outra flecha. Ento Puxo fez o
Wargal recuar para que eu desse cabo dele. Bom cavalo
aquele.
       -- Ele tem um bom dono -- Gilan replicou, e Halt
concordou.
       -- Isso  verdade. Mesmo assim, acho que vai ser
bom para o garoto passar algumas semanas longe de todos
esses preparativos de guerra. Ele vai esquecer os proble-
mas se ficar algum tempo com voc e Horace.
      -- Horace? -- Gilan perguntou.
      -- Ele  o terceiro membro que estou sugerindo.
Um dos aprendizes da Escola de Guerra e amigo de Will.
-- Halt pensou alguns minutos e ento disse para si
mesmo. -- Sim. Algumas semanas com pessoas da mesma
idade vo fazer bem a ele. Afinal, dizem que fico um
pouco carrancudo de vez em quando.
      -- Voc, Halt? Carrancudo? Quem diria uma coisa
dessas? -- Gilan brincou.
      Halt olhou para ele desconfiado. Era evidente que
o rapaz estava tendo dificuldades em ficar srio.
      -- Voc sabe, Gilan -- Halt comentou --, que o
sarcasmo  a pior forma de fazer graa. Alis, nem graa
tem.




       Apesar de j passar da meia-noite, as luzes ainda
estavam acesas no escritrio do baro Arald quando Halt
e Gilan chegaram ao castelo.
       O baro e sir Rodney, o mestre de guerra de Red-
mont, tinham muitos planos a fazer, preparando-se para a
marcha at as Plancies de Uthal, onde iriam se juntar ao
resto do exrcito do Reino. Quando Halt explicou do que
Gilan precisava, sir Rodney logo percebeu aonde o ar-
queiro queria chegar.
       -- Horace? -- ele perguntou, e o pequeno arqueiro
de barba concordou de modo quase imperceptvel. --
Sim, no  mesmo uma m ideia -- o mestre de guerra
continuou, andando pela sala enquanto pensava no as-
sunto. -- Ele tem o status de que voc precisa para a ta-
refa:  um membro da Escola de Guerra, mesmo sendo
apenas um aluno. Podemos dispensar ele da fora a partir
deste fim de semana e... -- ele fez uma pausa e lanou um
olhar significativo para Gilan. -- E voc at pode acabar
descobrindo que ele  uma pessoa til.
        O arqueiro mais jovem olhou para ele com curiosi-
dade, e sir Rodney continuou.
        -- Ele  um dos meus melhores aprendizes e  um
espadachim nato. J  melhor do que a maioria dos mem-
bros da Escola de Guerra, mas costuma encarar a vida de
um jeito um tanto formal e inflexvel. Talvez uma misso
com dois arqueiros indisciplinados possa ensinar ele a re-
laxar um pouco.
        Ele sorriu brevemente, para mostrar que no pre-
tendia ofender ningum com a brincadeira, e ento olhou
para a espada que Gilan usava na cintura. Era uma arma
incomum para um arqueiro.
        -- Foi voc quem estudou com MacNeil, no 
verdade?
        -- O mestre espadachim. Sim, fui eu -- Gilan as-
sentiu.
        -- Hum -- sir Rodney murmurou olhando o jo-
vem e alto arqueiro com novo interesse. -- Bem, voc
pode ficar  vontade para dar algumas dicas para Horace
enquanto estiverem na estrada. Encare isso como um fa-
vor para mim e voc vai descobrir que ele aprende rpido.
       -- Com todo o prazer -- Gilan respondeu, j com
vontade de conhecer aquele guerreiro aprendiz.
       Durante o perodo em que tinha sido aprendiz de
Halt, ele notara que sir Rodney no costumava elogiar a-
bertamente nenhum aluno da Escola de Guerra.
       -- Bem, ento est combinado -- o baro Arald
concluiu ansioso para voltar para o planejamento de cen-
tenas de detalhes da marcha at Uthal. -- A que horas
voc pretende partir, Gilan?
       -- Logo depois que o sol nascer, se possvel, se-
nhor -- Gilan respondeu.
       -- Vou mandar Horace se apresentar a voc antes
do amanhecer -- Rodney lhe disse.
       Gilan assentiu percebendo que a reunio tinha ter-
minado, o que foi confirmado pelas palavras seguintes do
baro.
       -- Agora, se vocs nos derem licena, vamos voltar
ao assunto relativamente simples que  planejar uma
guerra.
O    cu estava pesado, com nuvens de chuva sombrias.
Em algum lugar, o sol devia estar nascendo, mas ali no
havia sinal dele, apenas uma luz cinzenta e sem brilho que
atravessava as nuvens e, aos poucos, hesitante, enchia o
cu.
       Quando o pequeno grupo subiu a ltima colina,
deixando o contorno macio do Castelo Redmont para
trs, o novo dia finalmente cedeu s nuvens e comeou a
cair uma fria chuva de primavera. Ela era leve, mas persis-
tente, e cobria tudo de nvoa. No incio, escorria pelas
capas de l dos cavaleiros, mas por fim comeou a en-
charcar o tecido. Depois de cerca de vinte minutos, os trs
estavam encolhidos nas selas e tentavam aquecer o corpo
da melhor forma possvel.
       Gilan se virou para os dois companheiros enquanto
avanavam com dificuldade de olhos baixos e encolhidos
sobre os pescoos dos cavalos. Ele sorriu para si mesmo e
ento se dirigiu a Horace, que estava ficando ligeiramente
para trs ao lado do pnei de carga conduzido por Gilan.
       -- E a, Horace, estamos proporcionando bastante
aventura para voc at agora?
       Horace enxugou o rosto molhado de chuva que
no o deixava enxergar bem e sorriu tristemente.
       -- Menos do que eu esperava, senhor. Mas ainda 
melhor do que os exerccios.
       Gilan assentiu e sorriu para ele.
       -- Imagino que seja mesmo. Voc sabe que no
precisa andar a atrs -- ele acrescentou com gentileza. --
Ns, arqueiros, no somos muito de cerimnia. Venha e
fique com a gente.
       Ele cutucou Blaze com o joelho, e o cavalo baio se
afastou para abrir espao. Ansioso, Horace fez seu cavalo
avanar para cavalgar ao lado dos dois arqueiros.
       -- Obrigado, senhor -- ele disse. Gilan fez um
gesto para Will.
       -- Educado, no? -- ele perguntou divertido. --
Pelo jeito, eles sabem como ensinar boas maneiras na Es-
cola de Guerra atualmente.  bom ser chamado de "se-
nhor" o tempo todo.
       Will sorriu com a brincadeira. Mas o sorriso desa-
pareceu de seu rosto quando Gilan, pensativo, continuou:
       -- No  nada ruim quando mostram um pouco de
respeito. Talvez voc tambm deva me chamar de senhor
-- ele disse e virou o rosto para observar a fileira de r-
vores do lado da estrada, para que Will no pudesse ver o
leve sorriso que insistia em aparecer.
       Aborrecido, Will tentou engolir a resposta. Ele no
acreditava no que estava ouvindo.
       -- Senhor? -- ele disse finalmente. -- Voc quer
mesmo que eu o chame de senhor, Gilan?
       Ento, quando Gilan olhou para ele com a testa le-
vemente franzida, ele ajuntou rapidamente muito confuso:
       -- Quero dizer, senhor! Voc quer que o chame de
senhor... senhor?
       -- No -- Gilan respondeu. -- Acho que se-
nhor-senhor no  adequado. Nem mesmo "senhor Gi-
lan". Acho que s "senhor" ficaria muito bem, voc no
concorda?
       Will no conseguia pensar numa forma educada de
dizer o que estava pensando e fez um gesto com as mos,
sem saber o que fazer. Gilan continuou.
       -- Afinal, vai ser bom para que a gente se lembre
de quem manda neste grupo, no  mesmo?
       Finalmente, Will conseguiu falar.
       -- Bom, acho que sim, Gil... quer dizer, senhor.
       Will balanou a cabea surpreso com essa sbita
exigncia de formalidade por parte do amigo. Cavalgou
em silncio por alguns minutos e ento ouviu um espirro
explosivo ao seu lado quando Horace tentou, sem suces-
so, conter o riso. Will olhou para ele e depois, desconfia-
do, se virou para Gilan.
       O jovem arqueiro estava sorrindo abertamente, o-
lhando para o aprendiz e sacudindo a cabea num falso
arrependimento.
      -- Brincadeira, Will. Brincadeira.
      Will percebeu que tinham lhe pregado uma pea
novamente e, desta vez, com o total conhecimento de
Horace.
      -- Eu... sa-bia -- ele disse constrangido e falando
devagar para mostrar indiferena.
      Horace riu alto e, desta vez, Gilan o acompanhou.




       Eles viajaram o dia todo para o sul e finalmente
acamparam ao p da primeira fileira de montanhas na es-
trada para Cltica. Perto do meio-dia, a chuva tinha len-
tamente comeado a diminuir, mas o cho ao redor deles
ainda estava encharcado.
       Os trs procuraram lenha seca debaixo das rvores
de folhagem mais espessa e aos poucos reuniram o sufici-
ente para uma pequena fogueira. Todos comeram tro-
cando experincias num clima de amizade.
       Horace, contudo, ainda mostrava um pouco de te-
mor respeitoso pelo jovem e alto arqueiro. Will acabou
por perceber que, quando Gilan o provocava, estava ten-
tando deixar Horace  vontade, certificando-se de que ele
no se sentisse deixado de lado. Will se deu conta de que
se apegava ainda mais do que antes ao antigo aprendiz de
Halt. Pensativo, chegou  concluso de que ainda tinha
muito a aprender sobre como lidar com as pessoas.
       Will sabia que ainda enfrentaria pelo menos outros
quatro anos de treinamento antes de terminar seu apren-
dizado. Depois, certamente iria cumprir misses secretas,
obter informaes sobre os inimigos do reino e, talvez,
guiar membros do exrcito. Assim como Halt tinha feito.
O pensamento de que um dia teria de contar com a pr-
pria capacidade e inteligncia ainda era assustador. Will se
sentia seguro na companhia de arqueiros experientes co-
mo Halt e Gilan. Uma tranquilizadora aura de conheci-
mento e capacidade os cercava, e o garoto se perguntou se
algum dia seria capaz de assumir seu lugar ao lado deles.
Naquele exato momento, ele duvidava disso.
       Will suspirou. s vezes parecia que a vida fazia
questo de ser confusa. Menos de um ano antes, ele era
um rfo desconhecido e sem nome protegido do Castelo
Redmont. Desde ento, comeara a aprender as tcnicas
usadas pelos arqueiros e tinha conquistado a admirao e
os elogios de todo o Feudo Redmont quando ajudou o
baro, sir Rodney e Halt a derrotar as terrveis bestas co-
nhecidas como Kalkaras.
       Ele olhou para Horace, o inimigo de infncia que
tinha se tornado um amigo, e se perguntou se ele vivia o
mesmo conflito desconcertante de emoes. A recordao
dos dias que passaram juntos no castelo o fez se lembrar
dos outros amigos, George, Jenny e Alyss, agora aprendi-
zes de outros chefes de ofcio. Ele gostaria de ter tido
tempo de se despedir dos amigos antes de partir para Cl-
tica. Especialmente de Alyss. Ele se mexeu inquieto
quando pensou nela. Alyss o tinha beijado naquela noite,
na pousada, e ele ainda se lembrava do suave toque dos
seus lbios.
       "Sim", ele pensou, "especialmente Alyss."
       Do outro lado da fogueira do acampamento, Gilan
observou Will com olhos semicerrados. Ele sabia que no
era fcil ser aprendiz de Halt. O arqueiro era uma figura
quase lendria que colocava uma carga pesada em todos
os seus alunos. Havia muitas expectativas a concretizar.
Ele decidiu que Will precisava se distrair um pouco.
       -- Certo! -- ele disse e se levantou de um pulo. --
Lies!
       Will e Horace olharam um para o outro.
       -- Lies? -- Will repetiu num tom de voz supli-
cante.
       Depois de um dia na sela, ele s queria saber de
dormir.
       -- Isso mesmo -- Gilan disse satisfeito. -- Apesar
de estarmos numa misso, cabe a mim ensinar vocs dois.
       -- Ensinar o qu? -- Horace perguntou confuso.
-- Por que eu deveria aprender tcnicas usadas pelos ar-
queiros?
       Gilan pegou a espada e a bainha presas  sela e ti-
rou a lmina fina e brilhante do estojo de couro. A espada
sibilou e pareceu danar na trmula luz do fogo.
       -- Tcnicas de arqueiros, no, garoto. Tcnicas de
combate. Deus sabe que precisamos de espadas bem afia-
das o mais depressa possvel. Voc sabe que uma guerra
est para comear.
       Com um olhar crtico, ele observou o garoto cor-
pulento sentado  sua frente.
       -- Agora, vamos ver o que voc sabe fazer com
esse palito de dente que est usando.
       -- Ah, est bem! -- Horace concordou parecendo
um pouco mais satisfeito com o rumo dos acontecimen-
tos.
       Ele nunca se importou em praticar um pouco de
esgrima e sabia que no era uma tcnica aprendida pelos
arqueiros. Puxou a espada com confiana e se posicionou
na frente de Gilan, com a ponta da arma educadamente
virada para o cho. Gilan enfiou a ponta da prpria espada
na terra macia e estendeu a mo para Horace.
       -- Posso ver isso, senhor? -- ele pediu.
       Horace concordou e entregou a arma com o punho
voltado para Gilan.
       -- Est vendo, Will?  isso o que se procura numa
espada.
       Will olhou desinteressado para o objeto. Para ele,
parecia uma espada comum. A lmina era simples e reta, o
punho era de ao revestido de couro e a cruzeta era um
pedao grosso de bronze. Ele deu de ombros.
       -- No parece especial -- ele disse num tom de
desculpas, sem querer ferir os sentimentos de Horace.
       -- No  a aparncia delas que importa -- Gilan
retrucou. --  a sensao que passam. Esta aqui, por e-
xemplo. Ela  bem equilibrada, e voc pode agitar ela o
dia todo sem ficar cansado demais; e a lmina  leve, mas
forte. J vi lminas duas vezes mais grossas cortadas ao
meio por um bom golpe de porrete. As sofisticadas, com
gravaes, incrustaes e joias, tambm -- ele acrescentou
com um sorriso.
       -- Sir Rodney diz que joias no punho de uma es-
pada so apenas peso desnecessrio -- Horace respondeu,
e Gilan concordou com um gesto de cabea.
       -- E mais, elas costumam encorajar as pessoas a
atacar voc para roubar as joias -- contou.
       Ento, com atitude professoral outra vez, devolveu
a espada de Horace e pegou a dele.
       -- Muito bem, Horace, vimos que a espada  de
boa qualidade. Vamos ver o dono.
       Horace hesitou sem saber ao certo o que Gilan
pretendia.
       -- Senhor? -- ele disse sem jeito.
       Gilan fez um gesto na direo de si mesmo com a
mo esquerda.
       -- Me ataque -- ele disse alegre. -- D um golpe,
invista contra mim. Arranque minha cabea.
       Sem saber o que fazer, Horace continuou parado. A
espada de Gilan no estava em posio de guarda. Ele a
segurava negligentemente na mo direita com a ponta
voltada para baixo. Horace fez um gesto desamparado.
       -- Vamos, Horace -- Gilan chamou. -- No va-
mos esperar a noite toda. Mostre o que sabe fazer.
        Horace virou a ponta da prpria espada para o
cho.
       -- Mas, senhor, eu sou um guerreiro treinado --
ele disse. Gilan pensou nisso e assentiu.
       --  verdade. Mas voc vem treinando h menos
de um ano. Acho que no vai arrancar muitos pedaos de
mim.
       Horace olhou para Will em busca de apoio. O a-
migo apenas deu de ombros. Ele sups que Gilan sabia o
que estava fazendo, mas no o conhecia h muito tempo e
nunca o tinha visto empunhar a espada, muito menos u-
s-la. Gilan balanou a cabea fingindo desespero.
       -- Vamos l, Horace! -- ele repetiu.
       Relutante, Horace deu um golpe desanimado em
Gilan. Naturalmente, ele estava preocupado com o fato de
no ser suficientemente experiente para controlar o golpe
e acabar ferindo o arqueiro, caso conseguisse derrubar a
defesa do rapaz. Gilan nem mesmo levantou a espada para
se proteger. Em vez disso, oscilou tranquilamente para o
lado, e a lmina de Horace passou longe dele sem feri-lo.
       -- Vamos! -- ele disse. -- Ataque com vontade!
       Horace respirou fundo e desferiu um golpe vigo-
roso em Gilan.
       Para Will, que via a cena, aquilo foi como poesia.
Era parecido com uma dana ou com o movimento da
gua correndo sobre pedras lisas. A espada de Gilan, apa-
rentemente impelida s por seus dedos e seu pulso, agi-
tou-se no ar num arco cintilante para interceptar o golpe
de Horace. Ouviu-se um som metlico, e Horace parou
surpreso. A defesa fez sua mo tremer at o ombro. Gilan
olhou para ele com as sobrancelhas levantadas.
        -- Assim est melhor -- ele disse. -- Tente outra
vez.
        E Horace obedeceu. Cortadas, golpes por cima, gi-
ros completos com o brao.
        A cada vez, a espada de Gilan disparava para blo-
quear o golpe com um estrpito agudo. Horace desferia
golpes cada vez mais fortes e rpidos. O suor caa em sua
testa, e sua camisa estava encharcada. Agora ele no pen-
sava em tentar no ferir Gilan. Cortava e investia livre-
mente e tentava romper a defesa impenetrvel do opo-
nente.
        Finalmente, quando a respirao de Horace ficou
entrecortada, Gilan mudou os movimentos de bloqueio,
que tinham sido to eficientes contra o ataque vigoroso do
rapaz. Sua espada se chocou contra a de Horace e ento
descreveu um pequeno movimento circular, fazendo que
sua lmina ficasse por cima. Em seguida, com um barulho
forte, Gilan deslizou a lmina ao longo da de Horace, o-
brigando a ponta da espada do aprendiz a se virar para o
cho. Quando a ponta tocou a terra mida, Gilan rapida-
mente ps o p sobre ela e a prendeu.
        -- Certo, isso  suficiente -- ele disse com calma.
        No entanto, seus olhos continuaram fixos nos de
Horace, pois o arqueiro queria ter certeza de que o garoto
percebera que a sesso de prtica tinha terminado. Gilan
sabia que, s vezes, no calor do momento, o espadachim
perdedor podia tentar dar apenas mais um golpe, enquan-
to, para o oponente, a luta j chegara ao fim.
       E ento, na maioria das vezes, chegava mesmo.
       Ele viu que Horace estava atento, recuou um pouco
e em seguida se afastou depressa para fora do alcance de
sua espada.
       -- Nada mal -- Gilan disse em tom aprovador.
       Mortificado, Horace deixou a espada cair na terra.
       -- Nada mal? -- ele exclamou. -- Foi terrvel!
Nem consegui chegar perto da... -- Horace hesitou.
       De alguma forma, no parecia educado admitir que
durante os ltimos trs ou quatro minutos ele tinha ten-
tado arrancar a cabea de Gilan.
       -- No consegui derrubar sua defesa nenhuma vez
-- ele finalmente confessou.
       -- Bem -- Gilan disse com modstia --, voc sabe
que j fiz esse tipo de coisa antes.
       -- Sim -- Horace respondeu sem flego. -- Mas
voc  um arqueiro, todos sabem que arqueiros no usam
espadas.
       -- Pelo que parece, esse usa -- Will disse sorrindo.
Horace, cansado e derrotado, devolveu o sorriso.
       -- , acho que voc tem razo -- ele se virou res-
peitosamente para Gilan. -- Posso perguntar onde voc
aprendeu a usar a espada, senhor? Nunca vi nada pareci-
do.
       -- A vem voc de novo com esse "senhor" --
Gilan retrucou zombando. -- O meu mestre foi um velho
homem. Um morador do norte chamado MacNeil.
       -- MacNeil! -- Horace sussurrou admirado. --
Voc no est falando "daquele" MacNeil, est? MacNeil,
de Bannock?
       -- Esse mesmo -- Gilan respondeu. -- Ento vo-
c ouviu falar dele?
       -- Quem no ouviu falar de MacNeil? -- Horace
replicou com respeito.
       E, nesse momento, Will, cansado de no saber o
que estava acontecendo, decidiu falar.
       -- Bom, eu nunca ouvi -- ele contou. Mas vou fa-
zer um ch se algum me contar a histria dele.
-- Ento me contem sobre esse Neil -- Will pediu
quando os trs se ajeitaram confortavelmente em volta do
fogo, com canecas fumegantes de ch de ervas aquecendo
suas mos.
       -- MacNeil -- Horace corrigiu. -- Ele  uma len-
da.
       -- Ah, ele  muito real -- Gilan disse. -- Acho que
posso dizer isso. Treinei com ele durante cinco anos. Co-
mecei quando tinha 11 e com 14, fui ser aprendiz de Halt.
Mas ele sempre me dava uma licena para continuar meu
trabalho com o mestre espadachim.
       -- Mas por que voc continuou a aprender a lutar
com a espada depois de comear o treinamento como ar-
queiro? -- Horace quis saber.
       -- Talvez as pessoas pensassem que era uma ver-
gonha desperdiar todo aquele treinamento -- Gilan res-
pondeu dando de ombros. -- Eu queria muito continuar,
e meu pai  sir David, do Feudo de Caraway, ento acho
que me deram alguma liberdade nesse sentido.
        Horace endireitou o corpo ao ouvir esse nome ser
mencionado.
        -- O chefe de guerra David? -- ele perguntou, ob-
viamente mais do que impressionado. -- O novo coman-
dante supremo?
        Gilan assentiu sorrindo diante do entusiasmo do
garoto.
        -- Ele mesmo.
        Ento, vendo que Will estava em silncio, continu-
ou a explicao.
        -- Meu pai foi nomeado comandante supremo dos
exrcitos do rei depois da morte de lorde Northolt. Ele
comandou a cavalaria na Batalha de Hackman Heath.
        -- Quando Morgarath foi derrotado e obrigado a ir
para as montanhas? -- Will indagou de olhos arregalados.
        Gilan e Horace assentiram com um gesto de cabe-
a. Horace continuou a explicao com entusiasmo.
        -- Sir Rodney diz que a forma como ele coordenou
a cavalaria com o auxlio dos arqueiros nas laterais, no es-
tgio final da batalha,  um verdadeiro clssico. Ele ainda
usa isso como exemplo de ttica perfeita. No  de sur-
preender que o seu pai tenha sido escolhido para substitu-
ir lorde Northolt.
        Will percebeu que a conversa tinha se afastado do
tema principal.
        -- Ento, o que seu pai teve a ver com esse Mac-
Neil? -- perguntou voltando ao assunto.
       -- Bom -- Gilan recomeou --, o meu pai tam-
bm foi aluno dele. Por isso, foi natural que MacNeil aca-
basse dando aulas em sua Escola de guerra, no  mesmo?
       -- Acho que sim -- Will concordou.
       -- E era mais do que natural que eu me tornasse
seu aluno assim que consegui levantar uma espada. Afinal,
eu era o filho do mestre de Guerra.
       -- Ento como voc se tornou arqueiro? -- Hora-
ce perguntou. -- Voc no foi aceito como cavaleiro?
       Os dois arqueiros olharam para ele curiosos, de
certa forma achando engraado o fato de ele supor que
uma pessoa apenas se tornava arqueiro por no conseguir
ser cavaleiro ou guerreiro. Na verdade, no fazia muito
que Will tinha se sentido do mesmo jeito, mas agora ele
ignorara o fato convenientemente. Horace percebeu a
pausa na conversa e ento notou os olhares que recebia
dos colegas. De repente, ele se deu conta da gafe que tinha
cometido e tentou reparar o erro.
       -- Quer dizer... vocs sabem. Bom, quase todos
ns queremos ser guerreiros, no ?
       Will e Gilan trocaram olhares. Gilan levantou uma
sobrancelha, e Horace continuou a tentar se explicar de
maneira bem atrapalhada.
       -- Quer dizer... no quero ofender ningum... mas
todo mundo que conheo quer ser guerreiro.
       Seu constrangimento diminuiu quando ele apontou
um dedo para Will.
       -- Voc mesmo, Will! Lembro que quando ramos
crianas voc sempre dizia que iria para a Escola de
Guerra e que seria um cavaleiro famoso!
       Agora foi a vez de Will se sentir pouco  vontade.
       -- E voc sempre zombou de mim, no ? E dizia
que eu era pequeno demais.
       -- Bom, voc era! -- Horace retrucou um tanto
exaltado.
       --  mesmo? -- Will perguntou zangado. -- Pois
bem, j lhe ocorreu que talvez Halt j tivesse falado com
sir Rodney e dito que me queria como aprendiz? E que
essa  a razo por que no fui escolhido para a Escola de
Guerra? Voc j pensou nisso?
       Gilan interveio nesse momento, interrompendo a
discusso com delicadeza antes que sasse de controle.
       -- Acho que j chega de briguinhas infantis -- ele
disse com firmeza.
       Os dois garotos, prontos para soltar mais uma alfi-
netada, cederam um tanto sem jeito.
       -- Ah... est certo -- Will resmungou. -- Sinto
muito.
       Envergonhado pela cena desagradvel que tinha
acabado de ocorrer, Horace balanou a cabea vrias ve-
zes.
       -- Eu tambm.
       Ento, curioso, acrescentou:
       -- Foi assim que aconteceu, Will? Halt pediu a sir
Rodney para no escolher voc porque queria que voc
fosse arqueiro?
       Will olhou para baixo e tirou um fio solto da cami-
sa.
       -- Bem... no exatamente -- ele admitiu. -- E vo-
c est certo. Eu sempre quis ser um cavaleiro quando
criana. Mas no mudaria agora, por nada no mundo! --
acrescentou depressa virando-se para Gilan.
       -- Comigo aconteceu o contrrio -- Gilan disse
sorrindo para os garotos. -- Lembrem-se, eu cresci na
Escola de Guerra. Posso ter comeado a treinar com
MacNeil aos 11 anos, mas comecei o treinamento bsico
com cerca de 9 anos.
       -- Deve ter sito timo! -- Horace disse com um
suspiro. Surpreendentemente, Gilan balanou a cabea
negativamente.
       -- No para mim. Vocs j ouviram falar que a
grama do vizinho  sempre mais verde?
       Os dois garotos ficaram espantados ao ouvir essa
expresso.
       -- Quer dizer que voc sempre quer o que no tem
-- Gilan continuou, e os dois assentiram mostrando que
compreendiam. -- Bem, foi assim que aconteceu. Quando
fiz 12 anos, estava cansado da disciplina, dos exerccios e
dos desfiles.
       Ele olhou de lado para Horace.
        -- Isso acontece muito na Escola de Guerra, voc
sabe muito bem.
        -- Como se eu no soubesse -- o garoto corpu-
lento concordou suspirando. -- Ainda assim, a equitao
e os treinos de combate so divertidos.
        -- Talvez -- Gilan afirmou. -- Mas eu estava mais
interessado na vida que os arqueiros levavam. Depois de
Hackman Heath, meu pai e Halt ficaram bons amigos, e
Halt costumava nos visitar. Eu sempre o via. Muito miste-
rioso. Super aventureiro. Comecei a pensar em como seria
ir e vir  vontade. Viver nas florestas. As pessoas sabem
muito pouco sobre os arqueiros e, para mim, a vida deles
parecia a coisa mais emocionante do mundo.
        -- Sempre tive um pouco de medo de Halt -- Ho-
race confessou. -- Eu achava que ele era algum tipo de
feiticeiro.
        -- Halt? Um feiticeiro? -- Will riu sem acreditar.
-- Ele no  nada disso!
        -- Mas voc achava a mesma coisa -- Horace pro-
testou magoado outra vez.
        -- Bom... acho que sim, mas eu era s uma criana
naquela poca.
        -- Eu tambm! -- Horace retrucou com uma lgi-
ca devastadora. Gilan sorriu para os dois. Eram s garo-
tos. Halt estava com a razo. Era bom para Will passar
algum tempo com algum da prpria idade.
       -- Ento voc pediu a Halt que aceitasse voc co-
mo aprendiz? -- Will perguntou para o arqueiro mais ve-
lho. -- O que ele respondeu?
       -- No pedi nada para ele -- Gilan contou. -- Eu
o segui um dia quando saiu do nosso castelo e entrou na
floresta.
       -- Voc o seguiu? Um arqueiro? Voc seguiu um
arqueiro na floresta? -- Horace indagou.
       Ele no sabia se deveria ficar impressionado com a
coragem de Gilan ou horrorizado com a imprudncia. Will
se apressou a defender Gilan.
       -- Gil  um dos melhores membros do Corpo de
Arqueiros e sabe seguir algum sem ser visto -- ele disse
depressa. -- Acho que  o melhor nisso.
       -- Naquela poca, eu no era -- Gilan disse cha-
teado. -- Veja s, eu achava que sabia alguma coisa sobre
me mover sem ser visto. Descobri como sabia pouco
quando tentei seguir Halt. Ele parou para comer ao mei-
o-dia, e a primeira coisa que vi foi sua mo me agarrando
pelo colarinho e me jogando no rio.
       Ele sorriu com a lembrana.
       -- E ento ele mandou voc para casa? Voc ficou
envergonhado? -- Horace perguntou, mas Gilan negou
com um movimento de cabea e um leve sorriso ainda
danando no rosto ao se lembrar daquele dia.
       -- Ao contrrio, ele ficou comigo durante uma se-
mana. Disse que eu no tinha me sado to mal ao me es-
gueirar pela floresta e que talvez tivesse algum talento para
andar por a sem ser visto. Comeou a me ensinar o que
era ser um arqueiro. E, no fim daquela semana, eu tinha
me tornado seu aprendiz.
        -- Como seu pai reagiu quando voc contou para
ele? -- Will indagou. -- Provavelmente queria que voc
tambm fosse um cavaleiro, no  mesmo? Acho que fi-
cou desapontado...
        -- De jeito nenhum -- Gilan respondeu. -- Foi
estranho, mas Halt tinha dito para ele que provavelmente
eu o seguiria pela floresta. O meu pai j tinha concordado
que eu poderia servir como aprendiz de Halt antes mesmo
de eu saber que queria.
        -- Como Halt poderia ter sabido disso? -- Horace
perguntou franzindo a testa.
        Gilan deu de ombros e lanou um olhar significa-
tivo para Will.
        -- Halt tem um jeito especial de saber das coisas,
no , Will? -- ele perguntou rindo.
        Will se lembrou da noite escura no escritrio do
baro e da mo que tinha disparado de dentro da escuri-
do para agarrar seu pulso. Halt estava esperando ele na-
quela noite. Do mesmo jeito que obviamente esperara que
Gilan o seguisse.
        Ele olhou para as brasas da fogueira antes de res-
ponder:
        -- Talvez, do jeito dele, ele seja algum tipo de fei-
ticeiro.
       Por alguns minutos, os trs companheiros ficaram
sentados num silncio confortvel, pensando no que ti-
nham conversado. Ento Gilan se espreguiou e bocejou.
       -- Bom, eu vou dormir -- avisou. -- Precisamos
nos manter alertas no momento, por isso vamos fazer
turnos. Will, voc  o primeiro, depois Horace e por lti-
mo eu. Boa noite para vocs.
       E, assim, ele se enrolou na capa cinza-esverdeada e
logo estava respirando profunda e regularmente.
Eles estavam     de volta  estrada antes mesmo de o sol
surgir no horizonte. As nuvens tinham desaparecido, car-
regadas para longe por um vento fresco vindo do sul, e o
ar estava limpo e frio quando a trilha que percorriam su-
biu sinuosa para o alto das colinas que levavam  fronteira
de Cltica.
        As rvores ficaram mais mirradas e tortas, a grama
era grosseira e a floresta densa tinha sido substituda por
arbustos baixos e retorcidos pelo vento.
        Aquela era uma parte do territrio onde os ventos
sopravam constantemente e a terra refletia sua incessante
ao destruidora. As poucas casas que viram ao longe com
suas paredes de pedra e telhados rsticos, estavam amon-
toadas ao lado das colinas. Aquela era uma parte fria e de-
sagradvel do reino e, conforme Gilan tinha dito a eles,
ficaria ainda pior quando entrassem em Cltica.
        Naquela noite, enquanto relaxavam em volta da
fogueira do acampamento, Gilan continuou a dar aulas de
esgrima para Horace.
        -- A coordenao  a essncia da coisa toda -- ele
disse para o suado aprendiz. -- Voc est vendo como
est se defendendo com o brao travado e rgido?
        Horace olhou para o brao direito e, realmente,
Gilan tinha razo. Ele pareceu aborrecido.
        -- Mas eu tenho que estar pronto para impedir o
seu golpe -- ele explicou.
        -- Olhe... est vendo como eu fao? -- Gilan, com
pacincia, fez uma demonstrao com a prpria espada.
-- Quando o seu golpe esta vindo, a minha mo e meu
brao esto relaxados. Ento, exatamente antes que a sua
espada alcance o ponto em que quero que pare, fao um
pequeno contragiro, viu?
        E foi o que ele fez, usando a mo e o pulso para
girar a lmina da espada, formando um pequeno arco.
        -- Seguro a espada com mais fora no ltimo mo-
mento, e a maior parte da energia do giro  absorvida pelo
movimento da minha prpria lmina.
        Horace ficou em dvida. Parecia muito fcil para
Gilan.
        -- Mas... e se eu calcular mal o tempo?
        -- Bom, nesse caso, eu provavelmente vou arran-
car sua cabea -- Gilan retrucou com um sorriso largo.
        Ele fez uma pausa, porque viu que Horace no ti-
nha ficado muito satisfeito com a resposta.
        -- A ideia  no calcular mal -- Gilan acrescentou
com delicadeza.
        -- Mas... -- o garoto comeou.
        -- E como voc consegue melhorar a coordena-
o? -- Gilan interrompeu.
        -- Eu sei. Eu sei. Prtica -- Horace respondeu
cansado.
        -- Isso mesmo. Ento, est pronto? -- Gilan in-
dagou radiante.
        -- Um, e dois, e trs, e quatro, assim est melhor, e
trs, e quatro... No! No! S um pequeno movimento do
pulso... e um, e dois...
        O tilintar das lminas ecoava pelo acampamento.
Satisfeito com o fato de que no era ele que estava suando
em bicas, Will observava com pouco interesse.
        Depois de alguns dias, Gilan percebeu que Will pa-
recia um pouco relaxado demais. Gilan estava sentado a-
fiando a lmina de sua espada depois de uma sesso de
treino com Horace quando olhou para o aprendiz de ar-
queiro com ar de zombaria.
        -- Halt j lhe mostrou a defesa da espada com faca
dupla? -- ele perguntou de repente.
        Will olhou surpreso para ele
        -- Faca dupla... o qu? -- ele perguntou hesitante.
        Gilan suspirou profundamente.
        -- A defesa da espada. Droga! Eu devia ter perce-
bido que teria mais trabalho para fazer. Bem feito para
mim! Trazer dois aprendizes...
        Ele se levantou com um suspiro exagerado e fez
sinal para que Will o acompanhasse. Atordoado, o garoto
obedeceu.
        Gilan mostrou o caminho para uma clareira circular
onde ele e Horace tinham praticado esgrima. Horace ainda
estava l, dando golpes e cortes num inimigo imaginrio
enquanto contava baixinho o tempo para si mesmo. O
suor corria livremente por seu rosto, e sua camisa estava
ensopada.
        -- Certo, Horace -- Gilan chamou. -- Faa uma
pausa de alguns minutos.
        Agradecido, Horace obedeceu. Abaixou a espada e
se deixou cair no tronco de uma rvore tombada.
        -- Acho que estou pegando o jeito da coisa -- ele
disse, e Gilan concordou.
        -- Bom para voc. Mais trs ou quatro anos e voc
poder dominar essa arte.
        Ele falou alegremente, mas a expresso de Horace
ficou desanimada diante da perspectiva dos longos anos
de treinamento cansativo que o esperavam.
        -- Olhe para o lado bom, Horace -- Gilan disse.
-- No fim desse perodo, vai haver menos que meia dzia
de espadachins no reino que podero vencer voc num
duelo.
        O rosto de Horace se animou um pouco, mas logo
tornou a ficar desconsolado quando Gilan acrescentou:
        -- O segredo est em saber quem so essas pesso-
as. Seria muito desagradvel se voc desafiasse um deles e
s depois descobrisse isso, no ?
        Ele no esperou a resposta e se voltou para o garo-
to menor.
         -- Agora, Will, vamos dar uma olhada nessas suas
facas.
         -- As duas? -- Will hesitou, e Gilan revirou os o-
lhos.
       A expresso era muito parecida com a que Halt u-
sava quando Will fazia perguntas demais.
       -- Desculpe -- Will murmurou, enquanto desem-
bainhava as duas facas e as entregava a Gilan.
       O arqueiro mais velho no as pegou, mas inspe-
cionou rapidamente o gume e verificou se estavam cober-
tas por uma fina camada de leo que as protegeria da fer-
rugem. Satisfeito, ele assentiu quando viu que tudo estava
em ordem.
       -- Certo. A faca de caa fica na mo direita porque
 a que se usa para bloquear um golpe de espada...
       -- Por que eu iria precisar bloquear um golpe de
espada?
       Gilan se inclinou para a frente e deu uma pancada
no muito delicada com os ns dos dedos no alto da ca-
bea de Will.
       -- Bom, talvez impedir que ela rache o seu crnio
seja um bom motivo -- ele sugeriu.
       -- Mas Halt disse que os arqueiros no lutam cor-
po a corpo -- Will protestou.
       -- Certamente no  nosso papel -- Gilan con-
cordou --, mas, se isso acontecer e tivermos que fazer, 
uma boa ideia saber como proceder.
        Enquanto falavam, Horace tinha levantado do
tronco cado e se aproximado para observ-los.
        -- Voc no acha que uma faca pequena como essa
vai parar uma espada, acha? -- ele interrompeu com um
certo desprezo.
        -- D uma olhada melhor nessa "faca pequena"
antes de falar com tanta segurana -- Will convidou.
        Horace estendeu a mo para a faca, e Will rapida-
mente a virou e colocou o cabo na mo do amigo.
        Will tinha que concordar com Horace. A faca era
grande. Na verdade, quase uma espada curta, mas, com-
parada a uma espada de verdade, como a de Horace ou a
de Gilan, parecia tristemente inadequada.
        Horace girou a faca para testar o equilbrio.
        --  pesada -- ele disse afinal.
        -- E dura. Muito, muito dura -- Gilan acrescen-
tou. -- Facas de arqueiros so feitas por artfices que a-
perfeioaram a arte de endurecer o ao em um grau sur-
preendente. A sua espada pode ficar cega nessa lmina e
mal deixar uma marca nela.
        -- Mesmo assim, voc tem me ensinado a noo
de movimento e equilbrio a semana toda. Uma lmina
curta como essa tem muito menos equilbrio.
        -- Isso  verdade -- Gilan concordou. -- Ento
precisamos encontrar outra fonte de equilbrio, no 
mesmo? E vamos achar isso na faca mais curta, na faca de
atirar.
        -- No entendo -- Horace retrucou com a testa
muito franzida. Will tambm no entendia, mas ficou sa-
tisfeito porque o outro garoto admitiu sua ignorncia pri-
meiro. Ento, ele adotou um olhar sabido enquanto espe-
rava a explicao de Gilan. Mas deveria ter previsto que os
olhos atentos do arqueiro no perdiam nada.
        -- Bem, talvez Will possa explicar para voc --
Gilan disse feliz. Ele inclinou a cabea na direo de Will,
que hesitou.
        -- Bem...  o... ah... hum... a defesa de duas facas
-- ele balbuciou. -- No ? -- acrescentou, em dvida,
depois de uma longa pausa em que Gilan no disse nada.
        -- Claro que ! -- Gilan respondeu. -- E que tal se
voc fizesse uma demonstrao?
        Ele nem mesmo esperou a resposta de Will, pois
continuou depois de uma breve pausa:
        -- Eu achava mesmo que no. Ento me d licen-
a, por favor. Ele pegou a faca de caa de Will e tirou a
prpria faca de atirar da bainha.
        Ento fez um gesto na direo da espada de Horace
com a faca menor.
        -- Pegue sua espada -- ele ordenou muito srio.
        Horace obedeceu hesitante. Gilan gesticulou para
que ele se dirigisse  rea de exerccios e se posicionou.
Horace fez o mesmo, com a ponta da espada virada para
cima.
        -- Agora, tente dar um golpe acima do ombro em
mim -- Gilan disse.
       -- Mas... -- Horace mostrou com ar infeliz as duas
armas menores nas mos de Gilan, que revirou os olhos
desesperado.
       -- Quando vocs dois vo aprender? -- pergun-
tou. -- Eu sei o que estou fazendo. Agora, VAMOS
CONTINUAR!
       Ele chegou a gritar as ltimas palavras. O grande
aprendiz, estimulado a agir e condicionado a obedecer
imediatamente s ordens proferidas aos gritos, depois de
meses passados no campo de treino, agitou a espada num
golpe mortal na direo da cabea de Gilan.
       Ouviu-se um tilintar forte de ao, e a lmina parou
de imediato no ar. Gilan havia cruzado as duas facas de
arqueiro na frente dela, num movimento em que a faca de
atirar dava apoio  lmina da faca de caa, e bloqueou o
golpe facilmente. Horace, surpreso, recuou um pouco.
       -- Viu? -- Gilan perguntou. -- A faca menor ofe-
rece o apoio ou o equilbrio extra para a arma maior.
       Ele dirigiu as observaes principalmente para Will,
que assistia a tudo com grande interesse.
       -- Certo. Agora um golpe por baixo, por favor --
continuou dirigindo-se para Horace.
       O aprendiz de guerreiro desferiu o golpe e, nova-
mente, Gilan uniu as duas lminas e bloqueou o movi-
mento. Ele olhou para Will, que acenou mostrando que
entendia.
       -- Agora, um golpe lateral -- Gilan ordenou.
        Novamente, Horace girou a espada. Novamente, a
arma foi parada no mesmo instante.
        -- Est entendendo? -- Gilan perguntou para Will.
        -- Sim. E quanto a um golpe direto? -- ele quis
saber, Gilan fez um aceno de aprovao.
        -- Boa pergunta. Esse  um pouco diferente. --
Ele se virou para Horace. -- Se, por acaso, algum dia voc
enfrentar um homem que esteja usando duas facas, uma
estocada direta  a forma mais segura e eficiente de ata-
que. Agora, ataque, por favor.
        Horace investiu com a ponta da espada, o p direito
abrindo caminho com fora no cho a fim de dar mais
impulso ao golpe. Desta vez Gilan usou somente a faca de
caa para desviar a lmina, fazendo que o ao passasse
deslizando por seu corpo.
        --  impossvel parar esse golpe -- ele ensinou a
Will. -- Por isso, ns simplesmente o desviamos. A nosso
favor est o fato de que uma estocada vem com menos
fora, ento podemos usar apenas a faca de caa.
        Horace, sem sentir uma verdadeira resistncia ao
seu golpe, tinha tropeado para a frente quando a lmina
foi desviada. No mesmo instante, a mo esquerda de Gi-
lan agarrou a camisa dele e o puxou para perto, at que os
ombros dos dois ficaram quase se tocando. Tudo aconte-
ceu to depressa e casualmente que Horace arregalou os
olhos surpreso.
        -- E  nesse momento que uma lmina curta 
muito til. -- Gilan ressaltou.
        Ele fingiu dar um golpe por baixo do brao no lado
do corpo de Horace que estava exposto. O garoto arrega-
lou os olhos ainda mais quando percebeu todas as impli-
caes do que tinha acabado de ver. Seu desconforto au-
mentou quando Gilan continuou a demonstrao.
        -- E,  claro, se voc no quiser matar ele, ou se ele
estiver usando uma malha de ferro, voc sempre pode u-
sar a lmina da faca para aleijar.
        Ele fez um movimento rpido em direo  parte
de trs do joelho de Horace, deixando que a lmina pesa-
da e afiada parasse a alguns centmetros da perna.
        Horace prendeu a respirao, mas a aula ainda no
tinha terminado.
        -- Ah, lembre-se -- Gilan acrescentou alegremente
--, minha mo esquerda, que est segurando o colarinho,
tambm est segurando uma lmina afiada -- ele agitou a
faca de atirar, de lmina larga e curta, chamando a ateno
para ela. -- Uma rpida estocada debaixo do maxilar e
adeus para o espadachim, concorda?
        Will balanou a cabea admirado.
        -- Isso  fantstico, Gilan! -- exclamou. -- Nunca
vi nada parecido.
        Gilan soltou o colarinho da camisa de Horace, e o
garoto recuou depressa antes que o arqueiro continuasse
se aproveitando de sua vulnerabilidade.
        -- No gostamos de fazer alarde sobre isso -- o
arqueiro admitiu. --  prefervel nos depararmos com um
espadachim que no saiba dos perigos que envolvem a
defesa com duas facas -- ele olhou para Horace com ar
arrependido. -- Naturalmente, isso  ensinado na Escola
de Guerra do Reino. Mas  matria para o 2o ano. Sir
Rodney vai mostrar isso no ano que vem.
        -- Posso tentar? -- Will perguntou ansioso, en-
trando na rea de exerccio e desembainhando a faca de
atirar.
        -- Claro -- Gilan concordou. -- Vocs tambm
podem praticar juntos,  noite, a partir de hoje. Mas no
com armas de verdade. Cortem algumas varas para treinar.
        --  mesmo, Will -- disse Horace concordando
com a ideia sensata de Gilan. -- Afinal, voc s est co-
meando a aprender essa lio, e no quero machucar vo-
c. Pelo menos no muito -- acrescentou sorrindo depois
de pensar um pouco.
        -- Realmente esse  um dos motivos -- Gilan co-
mentou, e o sorriso no rosto de Horace desapareceu. --
Mas ns tambm no temos tempo para amolar sua espa-
da todas as noites.
        Ele olhou para a lmina de Horace de um jeito sig-
nificativo. O aprendiz seguiu o olhar e soltou um leve ge-
mido. Havia duas marcas profundas no fio da lmina, ob-
viamente causadas pelos bloqueios de Gilan. Um olhar
disse a Horace que ele teria que passar pelo menos uma
hora afiando a espada para se livrar delas. Ele observou a
faca de caa e esperou ver os mesmos danos ali. Contente,
Gilan examinou a pesada lmina de perto.
       -- Nenhuma marca -- ele afirmou sorrindo. --
Lembre que eu disse que as facas dos arqueiros so fabri-
cadas de um jeito especial.
       Desanimado, Horace procurou o amolador em sua
mochila e, sentando-se no cho duro, comeou a pass-lo
ao longo do fio da espada.
       -- Gilan -- Will comeou. -- Andei pensando...
       Gilan ergueu as sobrancelhas num falso desespero.
Novamente, sua expresso fez Will se lembrar de Halt.
       -- Sempre um problema -- o arqueiro disse. -- E
o que pensou?
       -- Bom -- Will respondeu devagar --, est tudo
bem com essa histria das duas facas. Mas no seria me-
lhor simplesmente atingir o espadachim antes que ele se
aproximasse demais?
       -- Sim, Will, certamente seria -- Gilan concordou
com pacincia. -- Mas e se voc estiver pronto para fazer
isso e a corda do seu arco arrebentar?
       -- Eu poderia correr e me esconder -- ele sugeriu.
       -- E se no houver lugar para se esconder? -- Gi-
lan pressionou. -- Voc est encurralado junto da parede
de um penhasco ngreme. No tem para onde ir. A corda
do arco arrebentou e o espadachim furioso est se apro-
ximando. O que vai fazer?
       -- Acho que ento vou ter que lutar -- ele admitiu
relutante.
       -- Exatamente. Evitamos um combate direto sem-
pre que possvel. Mas, se isso tiver que acontecer quando
no tivermos outra escolha,  uma boa ideia estar prepa-
rado, certo?
       -- Acho que sim -- Will retrucou. Ento Horace
apresentou uma questo.
       -- E se for algum com um machado?
       -- Um homem com um machado? -- Gilan per-
guntou.
       -- Sim -- Horace reforou a ideia. -- E se voc
enfrentar um inimigo com uma acha? As suas facas vo
funcionar?
       -- Eu no aconselharia ningum a enfrentar uma
acha somente com duas facas -- ele disse com cuidado
depois de hesitar.
       -- Ento, o que devo fazer? -- Will retrucou.
       Gilan olhou de um para outro com a impresso de
estar sendo vtima de uma brincadeira.
       -- Atire nele -- ele disse simplesmente. Will deu
um sorriso.
       -- No posso -- ele lembrou. -- A corda do arco
arrebentou.
       -- Ento corra e se esconda -- Gilan devolveu en-
tre os dentes cerrados.
       -- Mas h o penhasco -- Horace ressaltou. --
Uma parede alta atrs dele e um homem furioso com um
machado se aproximando.
       -- O que devo fazer? -- Will repetiu.
       Gilan respirou fundo e encarou os dois, um depois
do outro.
-- Pule do penhasco. Vai fazer menos sujeira.
-- Onde raios est todo mundo?
       Gilan fez Blaze parar e olhou ao redor do posto de
fronteira deserto. Havia uma pequena guarita ao lado da
estrada onde dois ou trs homens mal conseguiriam se
proteger do vento. Mais atrs, tinha uma casa para a guar-
nio. Normalmente, num posto de fronteira pequeno e
longnquo como esse, havia uma guarnio de cerca de
meia dzia de homens que viviam na casa e faziam turnos
na guarita  beira da estrada.
       Como a maioria dos edifcios de Cltica, as duas
estruturas eram construdas com pedras calcrias cinzentas
da regio, pedras achatadas do rio que tinham sido parti-
das no sentido do comprimento e telhas do mesmo mate-
rial. Havia pouca madeira em Cltica. At as fogueiras pa-
ra aquecimento usavam carvo ou turfa sempre que pos-
svel. A madeira disponvel era usada para escorar os t-
neis e galerias das minas de carvo e ferro de Cltica.
       Will olhou em volta inquieto e espiou os arbustos
raquticos que cobriam as colinas varridas pelo vento co-
mo se esperasse que uma horda de celtas surgisse delas de
repente. Havia alguma coisa assustadora no silncio do
lugar. No se ouvia nenhum som, s o suspirar calmo do
vento entre as colinas e os arbustos.
       -- Ser que eles esto trocando de turno? -- ele
sugeriu com uma voz que pareceu extremamente alta.
       --  um posto de fronteira -- Gilan retrucou. --
Precisa estar guarnecido o tempo todo.
       Ele saltou da sela e fez sinal para Will e Horace
permanecerem montados. Puxo, sentindo a inquietao
de Will, deu alguns passos nervosos para o lado. Will o
acalmou com um afago delicado no pescoo. As orelhas
do pequeno cavalo se ergueram ao toque do dono, e o
animal balanou a cabea como se quisesse negar que es-
tivesse to inquieto.
       -- Ser que eles foram atacados e expulsos? --
Horace perguntou. Sua mente sempre o fazia pensar em
luta, o que Will imaginou ser natural num aprendiz da
Escola de Guerra.
       Gilan deu de ombros enquanto abria a porta da
guarita e espiava ali dentro.
       -- Talvez. Mas no parece haver nenhum sinal de
luta.
       Ele se recostou no batente da porta e franziu a tes-
ta. A guarita era uma construo de um aposento mobili-
ado com apenas alguns bancos e uma mesa. No havia
nada ali que mostrasse o paradeiro dos ocupantes.
       -- Este  s um posto sem importncia -- ele disse
pensativo. -- Talvez os celtas simplesmente tenham pa-
rado de usar ele. Afinal, a trgua entre Cltica e Araluen j
dura mais de trinta anos.
       Ele se afastou do batente e fez um sinal em direo
 casa da guarnio com o polegar.
       -- Talvez a gente encontre alguma coisa l.
       Os dois garotos desmontaram. Horace levou seu
cavalo e o pnei de carga at uma cerca perto da estrada.
Will simplesmente deixou as rdeas de Puxo carem no
cho. O cavalo do aprendiz estava treinado para no se
afastar. Ele tirou o arco do estojo de couro atrs da sela e
o pendurou atravessado nos ombros. Naturalmente, j es-
tava preparado com a corda. Arqueiros sempre viajavam
com os arcos prontos para uso. Horace, percebendo o
gesto, afrouxou levemente a espada dentro do estojo, e os
dois se puseram a acompanhar Gilan at a casa da guarni-
o.
       O pequeno prdio de pedra era bem organizado e
estava limpo e deserto. Mas ali havia sinais de que seus
ocupantes tinham partido apressados. Havia alguns pratos
na mesa com restos secos de comida, e as portas de vrios
armrios estavam abertas. E peas de roupa estavam es-
palhadas no cho do dormitrio, como se seus donos ti-
vessem enfiado alguns pertences nas mochilas apressada-
mente antes de sair. Muitos catres estavam sem lenol.
       Gilan correu o dedo indicador ao longo da mesa da
sala de refeies, deixando uma linha ondulada na camada
de poeira que se tinha juntado ali. Ele inspecionou a ponta
do dedo e franziu os lbios
        -- J faz tempo que eles partiram -- constatou.
        Horace, que estava espiando a pequena despensa
debaixo das escadas, assustou-se com a voz do arqueiro e
bateu a cabea na soleira baixa da porta.
        -- Como voc pode ter certeza? -- ele perguntou,
mais para ocultar o constrangimento do que por verda-
deira curiosidade.
        Gilan mostrou o aposento com um gesto do brao.
        -- Os celtas so pessoas organizadas. Essa poeira
deve ter se acumulado desde que eles foram embora. O
meu palpite  que o lugar est vazio h pelo menos um
ms.
        -- Talvez isso seja verdade -- Will respondeu,
descendo as escadas, vindo da sala de comando. -- Talvez
eles tenham decidido que no precisavam mais manter
homens neste posto.
        Gilan acenou vrias vezes com a cabea, mas sua
expresso mostrou que ele no estava convencido.
        -- Isso no iria explicar por que saram apressados
-- retrucou -- Olhem tudo isto: a comida na mesa, os
armrios abertos, as roupas espalhadas no cho. Quando
se fecha um posto como este, as pessoas fazem uma lim-
peza e levam os pertences com elas. Principalmente os
celtas. Como eu disse, eles so muito caprichosos.
        E, como se esperasse encontrar algum indcio que
revelasse aquele enigma, ele saiu da casa e olhou a paisa-
gem deserta que os rodeava. Mas no havia nada visvel
alm dos cavalos que pastavam preguiosamente no capim
curto que crescia junto da guarita.
       -- O mapa mostra que a vila mais prxima  Por-
dellath -- ele informou. -- Fica um pouco fora do cami-
nho, mas l talvez a gente possa descobrir o que est a-
contecendo aqui.




       Pordellath ficava somente a 5 quilmetros de dis-
tncia. Por causa do terreno ngreme, o caminho dava
voltas e ziguezagueava para o alto das colinas. Conse-
quentemente, eles quase tinham chegado  vila quando a
viram. J era fim de tarde, e Will e Horace sentiam ponta-
das de fome. Eles no tinham parado para a habitual re-
feio do meio-dia, inicialmente porque queriam chegar
logo ao posto da fronteira e depois porque tinham se a-
pressado para chegar a Pordellath. Com certeza, haveria
uma pousada na vila, e os garotos estavam pensando ale-
gremente numa refeio quente e em bebidas frias. Por
causa disso, ficaram surpresos quando Gilan puxou as r-
deas do cavalo assim que a vila ficou visvel, depois da
curva de uma colina a cerca de 200 metros de distncia.
       -- Que diabos est acontecendo aqui? -- ele per-
guntou. -- Olhem s aquilo!
       Will e Horace olharam. Sinceramente, Will no en-
xergava o que poderia incomodar o jovem arqueiro.
        -- No estou vendo nada -- ele admitiu. Gilan se
virou para ele.
        -- Exatamente! -- ele concordou. -- Nada! --
No h fumaa nas chamins nem pessoas nas ruas. A vila
parece to vazia quanto o posto da fronteira!
        Ele cutucou Blaze com os joelhos, e o cavalo baio
saiu num meio-galope na estrada pedregosa. Will o seguiu,
enquanto o cavalo de Horace reagiu um pouco mais de-
vagar. Formando uma fila, eles cavalgaram para a vila, fi-
nalmente freando na pequena praa do mercado.
        No havia muita coisa em Pordellath. Apenas a
pequena rua principal por onde eles entraram, cercada de
casas e lojas dos dois lados e se abrindo para a pequena
praa no final. Esta era dominada pelo maior edifcio da
vila, que era, segundo o costume dos celtas, a moradia do
riadhah. O riadhah era o chefe da vila por tradio here-
ditria, uma combinao de chefe do cl, prefeito e dele-
gado. A sua autoridade era absoluta, e ele governava in-
contestado os demais moradores.
        Quando havia moradores para serem governados.
Naquele dia, no havia riadhah nem moradores, apenas os
ecos leves e agonizantes dos cascos dos cavalos na super-
fcie coberta de pedriscos da praa.
        -- Ol! -- Gilan gritou, e sua voz ecoou pela rua
principal, batendo nas pedras dos edifcios e depois se es-
palhando para as colinas prximas.
        -- O... l... l... l... -- o eco repetiu desaparecendo
lentamente at silenciar.
       Os cavalos se mexeram nervosos outra vez. Will
estava relutante em chamar a ateno do arqueiro, mas fi-
cara inquieto pela forma como ele tinha anunciado a pre-
sena deles ali.
       -- Ser que voc deveria fazer isso? -- indagou.
       Gilan olhou para ele, e um pouco de seu bom hu-
mor habitual retornou quando percebeu a razo do des-
conforto de Will.
       -- Por que est perguntando? -- ele quis saber.
       -- Bom -- Will disse olhando nervoso ao redor da
praa do mercado deserta --, se algum levou as pessoas
daqui, talvez a gente no queira que ele saiba que chega-
mos.
       -- Acho que  um pouco tarde para isso -- Gilan
retrucou dando de ombros. -- Entramos aqui a galope,
como a cavalaria do rei, e viajamos na estrada totalmente
visveis. Se algum estava vigiando, certamente j nos viu.
       -- Acho que sim -- Will concordou sem muita
certeza. Enquanto isso, Horace tinha levado seu cavalo
para perto de uma das casas e estava se preparando para
descer da sela e espiar para dentro das janelas baixas. Gi-
lan notou o movimento.
       -- Vamos dar uma olhada por a -- ele sugeriu
desmontando. Horace no estava muito ansioso para se-
guir esse exemplo.
       -- E se houve algum tipo de praga ou alguma coisa
parecida? -- ele perguntou.
       -- Uma praga? -- Gilan replicou.
       -- Sim. Quer dizer, ouvi falar que coisas como es-
sas aconteceram muitos anos atrs -- Horace respondeu
engolindo a saliva nervoso
       -- Cidades inteiras foram varridas por uma praga
que surgia e simplesmente... meio que... matava as pessoas
onde elas estavam.
       Enquanto dizia isso, ele fez o cavalo se afastar da
casa e foi para o centro da praa. Sem perceber, Will co-
meou a acompanh-lo. No momento em que Horace
sugeriu a ideia, ele formou imagens dos dois cados na
praa com o rosto negro, a lngua para fora e os olhos sal-
tados em seus momentos finais de agonia.
       -- Ento essa praga pode simplesmente aparecer
do nada? -- Gilan perguntou com calma.
       Horace assentiu vrias vezes.
       -- Na verdade, ningum sabe realmente como ela
se espalha -- ele disse. -- Ouvi dizer que  o ar da noite
que carrega as pragas. Ou, s vezes, o vento oeste. Mas
no importa como viaja, ela ataca to depressa que no h
escapatria. Simplesmente mata voc onde estiver.
       -- Todos os homens, mulheres e crianas por onde
passa? -- Gilan perguntou.
       Novamente, Horace balanou a cabea com entu-
siasmo.
       -- Todos. Mortinhos da silva!
       Will estava comeando a sentir a garganta secar
enquanto os outros dois conversavam. Ele tentou engolir,
sentiu um incomodo na garganta e teve um momento de
pnico quando se perguntou se aquele no era o primeiro
sinal da praga. Sua respirao ficou mais rpida, e ele qua-
se no ouviu a prxima pergunta de Gilan.
       -- E ento ela simplesmente... derrete os corpos e
os transforma em p? -- ele indagou com delicadeza.
       --  isso mesmo! -- Horace respondeu e s de-
pois percebeu o que o arqueiro tinha dito.
       Ele hesitou, olhou em volta da vila deserta e no
viu sinal de nenhum corpo. De repente, por coincidncia,
Will deixou de ter a sensao desconfortvel na garganta.
       -- Ah... -- Horace disse quando se deu conta da
falha em sua teoria. -- Bom, talvez seja um novo tipo de
praga. Talvez ela dissolva os corpos.
       Gilan olhou para ele com a cabea inclinada para o
lado.
       -- Ou talvez tenha havido uma ou duas pessoas
imunes, e elas enterraram todos os outros? -- Horace su-
geriu.
       -- E onde essas pessoas esto agora? -- Gilan re-
plicou.
       -- Talvez tenham ficado to tristes que no con-
seguiram continuar vivendo aqui -- ele disse, dando de
ombros, tentando manter viva sua teoria.
       -- Horace, seja l o que for que tenha expulsado as
pessoas daqui, no foi uma praga -- Gilan declarou.
       Ele olhou rapidamente para o cu que escurecia.
       -- Est ficando tarde. Vamos dar uma olhada por
a e encontrar um lugar para passar a noite.
        -- Aqui? -- Will se espantou inquieto. -- Na vila?
        -- A menos que voc queira acampar nas colinas
-- ele sugeriu. -- H poucos abrigos adequados e geral-
mente chove nesta rea  noite. Pessoalmente, prefiro
passar a noite debaixo de um teto, mesmo que esteja de-
serto.
        -- Mas... -- Will comeou, porm no encontrou
nenhum argumento racional para continuar.
        -- Tenho certeza de que seu cavalo tambm prefe-
re passar a noite debaixo de um telhado do que na chuva
-- Gilan acrescentou gentilmente devolvendo o equilbrio
a Will.
        Seu primeiro instinto foi cuidar de Puxo e no era
justo condenar o pnei a passar uma noite mida e des-
confortvel nas colinas s porque seu dono tinha medo de
algumas casas vazias. Ele assentiu com um gesto de cabe-
a e pulou da sela.
No havia respostas a serem encontradas em Pordellath.
Os trs companheiros atravessaram a vila e encontraram
os mesmos sinais de partida repentina que tinham visto no
posto da fronteira. Havia indcios de que algumas pessoas
tinham feito as malas apressadamente, mas na maioria das
casas quase todos os bens dos ocupantes ainda estavam
no lugar. Tudo indicava que a populao tinha partido s
pressas levando o que podia carregar nas costas e um
pouco mais. Ferramentas, utenslios, roupas, mveis e ou-
tros itens pessoais foram deixados para trs. Mas os trs
viajantes no conseguiram encontrar pistas do motivo pe-
lo qual o povo de Pordellath tinha desaparecido. Ou por
que tinha partido.
       Quando comeou a escurecer, Gilan finalmente ps
fim  busca. Eles voltaram  casa do riadhah, onde tiraram
as selas dos cavalos e os escovaram no abrigo de uma pe-
quena varanda em frente ao edifcio.
       Passaram uma noite intranquila na casa. Pelo me-
nos, foi o que aconteceu com Will, e este sups que Ho-
race estava to pouco  vontade quanto ele. Gilan, por sua
vez, parecia relativamente calmo, pois tinha se enrolado
em sua capa e pegado no sono no instante em que Will o
substitura, depois do primeiro turno de viglia. Mas a ati-
tude de Gilan estava mais controlada do que o normal, e
Will imaginou que o arqueiro estava mais preocupado
com o desconcertante rumo dos acontecimentos do que
deixava transparecer.
       Enquanto montava guarda, Will ficou surpreso com
os barulhos que uma casa podia provocar. As portas ran-
giam, o piso gemia, o teto parecia suspirar a cada sopro do
vento l fora. E a vila parecia cheia de objetos soltos que
tambm batiam e tiniam, o que levou Will a um estado de
ateno nervoso e assustado, sentado junto da janela sem
vidros na sala da frente da casa, onde as venezianas de
madeira estavam presas para ficarem no lugar.
       A Lua parecia ansiosa para tambm colaborar com
o clima sinistro; flutuava bem acima da vila, jogando entre
as casas longas sombras que pareciam se mover levemen-
te, quando se olhava para elas com o canto dos olhos, mas
paravam assim que se sentiam observadas.
       Mais movimento acontecia quando as nuvens pas-
savam sob a Lua, fazendo que a praa principal ficasse
iluminada e logo depois mergulhada numa repentina escu-
rido.
       Exatamente aps a meia-noite, como Gilan tinha
previsto, uma chuva constante comeou a cair, e os outros
barulhos foram acompanhados pelo gorgolejar da gua
que corria e pelo pinga-pinga das gotas descendo dos bei-
rais para as poas no cho.
       Will acordou Horace para assumir a guarda perto
das 2 horas. Ele fez uma pilha de almofadas e cobertores
no cho da sala principal, enrolou a capa ao redor do
corpo e se deitou.
       Ento ficou acordado por outra hora e meia, escu-
tando rangidos, gemidos, gorgolejos, borrifos de gua e
imaginando se Horace tinha cado no sono e se, mesmo
agora, algum terror invisvel, incontrolvel e sedento de
sangue estava rastejando na direo da casa. Ele ainda es-
tava preocupado com essa possibilidade quando final-
mente adormeceu.




       Eles pegaram a estrada nas primeiras horas da ma-
nh seguinte. A chuva tinha parado antes do amanhecer.
Gilan estava ansioso para chegar a Gwyntaleth, a primeira
cidade grande em sua rota, e descobrir algumas respostas
para as charadas com que tinham se deparado at o mo-
mento em Cltica. Eles fizeram uma refeio fria e rpida,
lavaram-se com gua gelada da fonte da vila, depois sela-
ram os cavalos e partiram.
       Com cuidado, os trs desceram a trilha sinuosa e
irregular que saa da vila, mas, quando chegaram  estrada
principal, fizeram os cavalos galoparem. Eles galoparam
por uns vinte minutos e ento fizeram os animais avana-
rem num passo mais lento pelos prximos vinte, man-
tendo esse ritmo alternado e constante durante toda a
manh.
        O grupo fez uma refeio rpida na metade do dia
e continuou a viagem. Eles estavam na principal rea de
minerao de Cltica e tinham passado por pelo menos
umas 12 minas de carvo ou ferro: grandes buracos ne-
gros abertos nas laterais das colinas e das montanhas e
cercados por escoras de madeira e por edifcios de pedra.
Mas em nenhum lugar eles viram sinal de vida. Era como
se os habitantes de Cltica simplesmente tivessem desa-
parecido da face da Terra.
        -- Eles podem ter desertado do posto da fronteira
e at dos vilarejos -- Gilan murmurou em determinado
momento, quase para si mesmo --, mas nunca conheci
um celta que abandonaria uma mina enquanto restasse um
grama de metal para ser extrado.
        Finalmente, no meio da tarde, eles chegaram ao pi-
co de uma montanha e ali, no vale que descia na frente
deles, viram as fileiras bem-ordenadas de telhados de pe-
dra que formavam o condado de Gwyntaleth. Uma pe-
quena torre no centro da cidade indicava um templo. Os
celtas seguiam uma religio nica e particular que venerava
os deuses do fogo e do ferro. Uma torre maior formava o
principal ponto de defesa da cidade.
        Eles estavam longe demais para perceber qualquer
movimento de pessoas nas ruas, mas, como antes, no ha-
via sinal de fumaa nas chamins e, o que era ainda mais
importante na opinio de Gilan, nenhum barulho.
       -- Barulho? -- Horace perguntou. -- Que tipo de
barulho?
       -- Batidas, marteladas, tinidos -- Gilan respondeu
brevemente. -- Lembre que os celtas extraem o minrio
de ferro e tambm forjam ele. Com a brisa soprando do
sudeste como acontece agora, deveramos ouvir as ferrari-
as em funcionamento, mesmo a esta distncia.
       -- Bom, ento vamos dar uma olhada -- Will su-
geriu e comeou a impelir Puxo para a frente.
       Gilan, contudo, o segurou.
       -- Acho que talvez eu deva ir na frente sozinho --
ele disse devagar sem que os olhos deixassem a cidade no
vale abaixo.
       Will olhou para ele espantado.
       -- Sozinho? -- perguntou, e Gilan assentiu.
       -- Ontem voc percebeu que ficamos bem visveis
quando entramos em Pordellath. Talvez seja a hora de
sermos um pouco mais cuidadosos. Alguma coisa est
acontecendo, e eu gostaria de saber o que .
       Will teve que concordar que Gilan estava tomando
uma atitude sensata ao ir sozinho. Afinal, ningum sabia
se mover sem ser visto melhor do que ele no Corpo de
Arqueiros, e os arqueiros eram os melhores do reino nessa
atividade.
       Gilan fez sinal para que se afastassem do topo da
montanha em que estavam parados e ficassem do outro
lado, num ponto em que uma pequena vala formava um
local de acampamento protegido do vento.
       -- Montem acampamento ali -- ele disse. -- Nada
de fogueiras. Vamos ter que usar raes frias at sabermos
o que est acontecendo. Devo estar de volta depois que
escurecer.
       E, dizendo isso, ele fez Blaze virar, passou trotando
pelo cume da montanha e desceu a estrada que levava a
Gwyntaleth.
       Will e Horace levaram cerca de meia hora para ar-
rumar o acampamento. Havia pouca coisa a fazer. Eles
amarraram a lona em alguns arbustos ressecados que cres-
ciam perto de uma parede de rochas da vala e prenderam
a outra ponta com pedras. Pelo menos, havia muitas delas.
A lona lhes dava uma cobertura triangular no caso de a
chuva recomear. Depois, eles prepararam um local para
acender fogo em frente ao abrigo. Gilan havia proibido
fogueiras, mas, se ele voltasse no meio da noite e mudasse
as ordens, eles j estariam preparados.
       Foi necessrio muito mais tempo para juntar lenha
para fogueira. A nica fonte real de gravetos eram os ar-
bustos raquticos que cobriam os lados das colinas. As ra-
zes e os galhos dos arbustos eram duros, mas altamente
inflamveis. Os dois garotos cortaram um suprimento ra-
zovel, Horace usando a machadinha que levava na mo-
chila, e Will, a sua faca de caa. Finalmente, depois que
todas as tarefas domsticas tinham sido realizadas, eles se
sentaram ao lado da fogueira apagada com as costas apoi-
adas nas rochas. Will gastou alguns minutos amolando a
faca numa pedra, restaurando o corte.
       -- Sem dvida, prefiro acampar em florestas --
Horace disse e mudou pela dcima vez a posio das cos-
tas apoiadas na rocha.
       Will grunhiu em resposta. Mas Horace estava ente-
diado e continuou falando, mais para ter alguma coisa para
fazer do que por realmente querer conversar.
       -- Afinal, numa floresta a gente encontra muita
lenha bem  mo. Ela praticamente cai das rvores em ci-
ma de voc.
       -- No enquanto voc espera -- Will discordou.
       Ele tambm estava falando mais para passar o
tempo do que por qualquer outra coisa.
       -- No. No enquanto voc espera. Normalmente,
ela j est l antes de voc chegar -- Horace continuou.
-- Alm disso, numa floresta voc acha agulhas de pi-
nheiro ou folhas no cho que servem para fazer uma cama
macia. E tm troncos de rvores para se sentar e se recos-
tar. E elas tm muito menos pontas afiadas do que as pe-
dras.
       Novamente, ele mexeu as costas para um ponto
temporariamente mais confortvel. Olhou para Will, es-
perando que o aprendiz de arqueiro discordasse dele para
ento poderem discutir e passar o tempo. Will, contudo,
apenas grunhiu novamente. Inspecionou o fio da faca e a
aguardou na bainha. Desconfortvel, endireitou o corpo,
tirou o cinturo que carregava a faca e o dobrou sobre a
mochila junto com o arco e a aljava. Ento se deitou com
a cabea pousada numa pedra achatada e fechou os olhos,
pois a noite maldormida o tinha deixado esgotado e desa-
nimado.
        Horace suspirou, pegou a espada e comeou a afi-
-la, o que era desnecessrio, pois j estava extremamente
afiada. Mas era alguma coisa para fazer. Ele produzia um
som irritante e olhava ocasionalmente para Will a fim de
ver se o amigo estava dormindo. Por um momento, acre-
ditou que sim, mas ento o garoto menor se virou de re-
pente, sentou-se e procurou a capa. Ele a enrolou, colo-
cou-a na pedra chata que estava usando como travesseiro
e voltou a se deitar.
        -- Voc tem razo sobre as florestas -- ele disse de
mau humor. -- Nelas tm lugares muito mais confort-
veis para acampar.
        Horace no respondeu. Ele chegou  concluso de
que sua espada estava bastante afiada, guardou-a no estojo
untado com leo e apoiou a arma embainhada na parede
de rocha ao seu lado.
        Ele observou Will outra vez enquanto tentava en-
contrar uma posio confortvel. Por mais que se torcesse
e se remexesse, sempre havia uma pedra ou uma ponta de
rocha espetando suas costas. Cinco ou dez minutos se
passaram, e ento Horace finalmente disse:
        -- Quer treinar? Vai ajudar a passar o tempo.
       Will abriu os olhos e pensou na ideia. Relutante-
mente, ele admitiu para si mesmo que nunca iria conseguir
dormir naquele cho duro e pedregoso.
       -- Por que no?
       Ele procurou suas armas de exerccio na mochila e
ento se juntou a Horace na extremidade da barraca onde
este desenhava um crculo no cho arenoso. Os dois me-
ninos tomaram suas posies e, a um sinal de Horace,
comearam.
       Will estava melhorando, mas Horace definitiva-
mente era o mestre nesse exerccio. Will no pde deixar
de admirar a velocidade e o equilbrio que o colega mos-
trou enquanto brandia a espada de madeira em uma srie
de movimentos atordoantes. Alm disso, quando percebia
que tinha derrubado a defesa de Will, evitava golpe-lo no
ltimo instante. Em vez disso, apenas tocava levemente o
ponto que o golpe teria atingido.
       Ele no queria agir assim para mostrar superiorida-
de. O treinamento com armas, mesmo que fossem de
madeira, era uma parte importante da vida de Horace na-
queles dias. No era algo com que se exibir quando se era
melhor do que o oponente. Horace j tinha aprendido
muito bem no extenso treinamento na Escola de Guerra
que nunca valia a pena subestimar um oponente.
       Em vez disso, usava sua capacidade superior para
ajudar Will, mostrando como prever golpes, ensinando as
combinaes bsicas que todos os espadachins usavam e a
melhor forma de venc-las.
       E Will reconheceu aborrecido que saber como agir
era uma coisa e que fazer era outra totalmente diferente.
Ele percebeu o quanto o seu antigo inimigo tinha amadu-
recido e se perguntou se as mesmas mudanas eram vis-
veis nele. Achava que no. Ele no se sentia diferente e,
sempre que se via num espelho, tambm no enxergava
nenhuma mudana em sua imagem.
       -- A sua mo esquerda est indo muito para a
frente -- Horace destacou quando fizeram uma pausa.
       -- Eu sei -- Will retrucou. -- Fico esperando um
golpe lateral e quero estar pronto para ele.
       -- Est bem, mas, se sua mo se adianta demais,
fica fcil eu fingir que vou dar um golpe lateral e depois
transformar ele num golpe por cima do ombro, entende?
       Ele mostrou o movimento que estava descrevendo
para Will, comeando com a espada num amplo lance
circular lateral. Ento, com um poderoso movimento do
pulso, levou-a para o alto e depois para baixo num forte
golpe giratrio. Ele parou a lmina de madeira a alguns
centmetros da cabea de Will, e o aprendiz de arqueiro
notou que o seu contragolpe teria chegado muito tarde.
       -- s vezes acho que nunca vou aprender essas
coisas -- ele disse. Horace lhe deu um tapinha encoraja-
dor no ombro.
       -- Est brincando? Voc est melhor a cada dia
que passa. E alm disso eu nunca conseguiria atirar essas
facas como voc faz.
       Mesmo quando estavam na estrada, Gilan tinha in-
sistido para que Will praticasse suas habilidades de ar-
queiro sempre que possvel. Horace tinha ficado impres-
sionado, para dizer o mnimo, quando viu o quanto o ga-
roto menor tinha ficado competente. Vrias vezes, tinha
estremecido ao pensar no que poderia acontecer se tivesse
que enfrentar um arqueiro como Will. Na opinio de Ho-
race, sua preciso com o arco era incrvel. Ele sabia que
Will podia colocar flechas em todos os espaos de sua ar-
madura se quisesse. At mesmo na pequena abertura para
os olhos de um capacete que cobria todo o rosto.
       O que no lhe agradava era que a preciso de Will
estivesse apenas dentro da mdia no que se referia aos
padres dos arqueiros.
       -- Vamos treinar outra vez -- Will sugeriu cansa-
do. Mas outra voz os interrompeu.
       -- No vamos, no, garotinhos. Vamos largar essas
armas afiadas e ficar muito quietos, certo?
       Os dois aprendizes se viraram ao ouvir essas pala-
vras. Ali, na boca da pequena vala semicircular onde ti-
nham montado acampamento, estavam duas figuras de
aspecto esfarrapado. Ambas tinham barbas compridas e
descuidadas e usavam uma estranha mistura de roupas:
algumas delas rasgadas e surradas, outras novas e obvia-
mente muito caras. O mais alto usava um colete de cetim
ricamente bordado, mas coberto por uma grossa camada
de sujeira. O outro usava um chapu escarlate no qual es-
tava espetada uma pena enlameada. Ele tambm levava,
na mo envolta numa atadura suja, um basto de madeira
em cuja ponta havia um prego de ferro. Seu companheiro
carregava uma espada comprida, com as bordas denteadas
e marcadas, e a agitava na direo dos dois garotos.
       -- Vamos, meninos. Varas afiadas so perigosas
para gente como vocs -- ele disse, soltando um riso
rouco e gutural.
       A mo de Will caiu automaticamente na direo da
faca de caa, mas ele nada encontrou. Com uma sensao
de desnimo, lembrou que o cinturo, o arco e a aljava es-
tavam caprichosamente empilhados do outro lado da fo-
gueira, onde ele tinha se sentado. Os dois intrusos iriam
impedi-lo de chegar l, e ele se amaldioou por sua falta
de cuidado.
       Halt ficaria furioso. Ento, olhando para a espada e
o basto, percebeu que o aborrecimento de Halt seria a
menor de suas preocupaes.
Will sentiu a mo de Horace no ombro quando o garoto
maior comeou a pux-lo para trs, para longe dos dois
bandidos.
        -- Se afaste, Will -- Horace disse baixinho. O ho-
mem com o basto riu.
        -- Sim, Will, se afaste. Fique longe daquele peque-
no arco desagradvel que estou vendo ali. Ns no que-
remos saber de arcos, queremos, Carney?
        -- No queremos, Bart, no mesmo -- Carney
respondeu e sorriu para o companheiro.
        Ele olhou com cara feia para os dois garotos.
        -- No mandamos vocs soltarem esses pedaos
de pau? -- ele perguntou com uma voz aguda e num tom
muito desagradvel.
        Juntos, os dois homens comearam a avanar pela
clareira.
        Horace apertou Will com mais fora e o puxou pa-
ra o lado, fazendo-o se estatelar no cho. Quando caiu, ele
viu Horace se virar para as pedras atrs dele e agarrar a
espada. Ele a agitou uma vez, e o estojo escorregou pela
lmina. S a tranquilidade do movimento deveria ter mos-
trado a Bart e Carney que estavam enfrentando algum
que sabia muito bem lidar com armas. Mas nenhum deles
era especialmente inteligente. Eles simplesmente viam um
garoto de 16 anos. Um garoto grande, talvez, mas um ga-
roto. Uma criana, na verdade, com uma arma de gente
grande na mo.
       -- Ah, que coisa -- Carney gemeu. -- Ns pega-
mos a espada do papai?
       Horace o olhou, ficando muito calmo de repente.
       -- Eu vou lhe dar mais uma chance de se virar e ir
embora agora -- ele avisou.
       Bart e Carney trocaram olhares zombeteiros de
medo.
       -- Ah, meu Deus -- Carney gemeu. --  a nossa
nica chance. O que vamos fazer?
       -- Oh, Deus! -- Bart repetiu. -- Vamos fugir.
       Eles comearam a avanar na direo de Horace,
que os observou se aproximarem. Estava com o basto de
exerccio na mo esquerda e a espada na direita. Ele enri-
jeceu o corpo e se equilibrou nos calcanhares enquanto os
dois iam chegando mais perto. Carney com a espada en-
ferrujada de lmina entrecortada balanando  sua frente e
Bart com o porrete apoiado no ombro, pronto para ser
usado.
       Will se levantou com esforo e comeou a se mo-
ver na direo de suas armas. Ao perceber o movimento,
Carney se virou para impedi-lo. Ele no tinha dado nem
mesmo o primeiro passo quando Horace atacou.
       O garoto disparou para a frente, e a espada passou
como um relmpago num golpe por cima da cabea do
bandido. Espantado com a velocidade do movimento do
aprendiz de guerreiro, Carney mal teve tempo de levantar
a prpria lmina num ataque desajeitado. Perdendo o e-
quilbrio e totalmente despreparado diante da fora e au-
toridade surpreendente do golpe, ele tropeou para trs e
caiu estendido na poeira.
       No mesmo momento, Bart, ao ver o companheiro
em dificuldades, deu um passo  frente e agitou o pesado
porrete num perverso movimento circular em direo ao
desprotegido lado esquerdo de Horace. Ele imaginava que
o garoto fosse saltar para trs para evitar o ataque. Em vez
disso, o aprendiz avanou, fazendo o basto de exerccio
saltar para cima e para fora, apanhando o pesado porrete
no meio e fazendo que se afastasse do alvo pretendido. A
cabea do porrete fez um barulho surdo ao bater no cho
pedregoso, e Bart soltou um gemido de surpresa ao sentir
seu brao inteiro estremecer com a fora do impacto.
       Mas Horace ainda no tinha terminado. Continuou
a avanar e agora ele e Bart estavam ombro a ombro. O
bandido estava perto demais para que Horace pudesse u-
sar a lmina da espada. Em vez disso, girou o punho di-
reito e bateu o pesado cabo de bronze da arma no lado da
cabea de Bart.
       O olhar do bandido ficou vidrado, e ele caiu de jo-
elhos semi-inconsciente, com a cabea balanando leve-
mente de um lado para outro.
       Carney, patinando furiosamente para trs na areia,
tinha recuperado o equilbrio e observava os movimentos
de Horace. Estava espantado e zangado. No entendia
como ele e o companheiro tinham sido derrubados por
um simples garoto. "Sorte", ele pensou. "Sorte simples e
idiota!"
       Seus lbios se entreabriram num rosnado, e ele a-
garrou a espada com fora, avanando mais uma vez na
direo do menino, ameaando-o e amaldioando-o. Ho-
race se manteve firme e esperou. Algo no olhar calmo do
garoto fez Carney hesitar. Ele deveria ter seguido seus
primeiros instintos e desistido de lutar naquele momento.
Mas a raiva foi mais forte e ele recomeou a avanar.
       Naquele momento, o homem no estava prestando
ateno em Will. O aprendiz de arqueiro disparou em
volta do acampamento, agarrou o arco e a aljava e apres-
sadamente o apoiou contra o p esquerdo, segurando-o
com o direito para prender o arco a fim de amarrar a cor-
da no entalhe.
       Rapidamente, escolheu uma flecha e a ajustou 
corda. Estava prestes a pux-la quando ouviu uma voz
calma atrs dele.
       -- No atire nele. Eu prefiro ver isso.
       Perplexo, ele se virou e viu Gilan, quase invisvel
entre as dobras da capa de arqueiro, aparentando indife-
rena apoiado no seu longo arco.
       -- Gilan! -- ele exclamou, mas o arqueiro pediu
silncio.
       -- Deixe o Horace continuar -- disse baixinho. --
Ele vai ficar bem se ns no o distrairmos.
       -- Mas... -- Will falou desesperado e olhou para o
amigo que enfrentava um homem adulto muito zangado.
       Percebendo a preocupao, Gilan se apressou em
tranquiliz-lo.
       -- Horace vai dar um jeito nele -- afirmou. --
Voc sabe que ele  mesmo muito bom. Um espadachim
nato, se  que j vi um. Esse movimento com o basto de
exerccio e o golpe com o punho da espada foram verda-
deira poesia. Uma improvisao maravilhosa!
       Will balanou a cabea admirado e se virou para ver
a luta. Agora, Carney atacava, investindo com uma fria
cega e um poder aterrorizante. Aos poucos, Horace recu-
ava diante dele, agitando a espada em pequenos movi-
mentos semicirculares que bloqueavam todos os cortes,
investidas e ataques, fazendo o pulso e o cotovelo de
Carney estremecerem com a fora e a impenetrabilidade
de sua defesa. Durante todo o tempo, Gilan sussurrava
comentrios de aprovao ao lado de Will.
       -- Bom, garoto! -- ele disse. -- Voc est vendo
como ele deixa o outro dar o primeiro passo? Como ele
faz o outro acreditar que  muito habilidoso? Ou o con-
trrio. Meu Deus, a coordenao daquele movimento de
defesa est simplesmente perfeita! Olhe aquilo! E aquilo!
Fantstico!
        Agora, aparentemente Horace tinha resolvido no
recuar mais. Continuou a se desviar de todos os golpes de
Carney com evidente facilidade e se manteve firme, dei-
xando o bandido gastar suas foras como o mar quando
bate nas rochas. Os golpes de Carney ficavam cada vez
mais lentos e imperfeitos. O brao dele estava comeando
a doer por causa do esforo de empunhar a espada longa e
pesada. Na verdade, estava mais acostumado a usar a faca
nas costas de quase todos os seus oponentes e no espe-
rava que aquela luta passasse de um ou dois golpes devas-
tadores para derrubar a defesa do garoto antes de mat-lo.
Mas seus ataques mais perigosos tinham sido desviados
com evidente desprezo.
        Ele balanou outra vez e perdeu o equilbrio. Ho-
race fez sua lmina bater na do oponente, envolvendo-a
num movimento circular e prendendo-a, e depois a deixou
deslizar at que as duas cruzetas ficassem engatadas.
        Eles ficaram parados ali, olho no olho, o peito de
Carney subindo e descendo, Horace absolutamente calmo
e no controle. A primeira onda de medo se instalou no
estmago do bandido quando percebeu que tinha sido ir-
remediavelmente vencido naquela luta independentemente
do fato de seu oponente ser apenas um menino.
        E, nesse momento, Horace comeou a atacar.
        Ele empurrou o peito de Carney com o ombro, se-
parando as lminas e fazendo o bandido cambalear para
trs. Ento, com calma, avanou, agitando a espada em
combinaes desconcertantes e apavorantes. Golpes late-
rais e por cima. Lateral, lateral, cortada  esquerda, ataque.
Lateral, lateral, cortada  esquerda, cortada por cima. A-
taque. Ataque. Ataque. Cortada para a frente, para trs.
Uma combinao se transformava suavemente em outra, e
Carney lutava desesperadamente para colocar sua lmina
entre seu corpo e a espada implacvel que parecia viva e
dona de uma energia interminvel. Ele sentiu o pulso e o
brao cansados. Os golpes de Horace ficavam cada vez
mais fortes e firmes at que, finalmente, com um ltimo
tinido surdo, Horace simplesmente arrancou a espada da
mo entorpecida.
        Carney caiu de joelhos com o suor escorrendo para
dentro dos olhos, o peito se movimentando com esforo,
esperando o golpe final que poria fim a tudo.
        -- No mate ele, Horace! -- Gilan gritou. --
Quero fazer umas perguntas.
        Surpreso, Horace viu o alto arqueiro e deu de om-
bros. No era mesmo o tipo que matava um oponente a
sangue-frio. Jogou a espada para o lado, colocando-a fora
de alcance. Ento, com a bota no ombro do bandido der-
rotado, empurrou-o para o cho, fazendo-o cair de lado.
        Carney ficou deitado, soluando, incapaz de se
mover. Aterrorizado. Exausto. Fsica e mentalmente der-
rotado.
       -- De onde voc veio? -- Horace perguntou furi-
oso a Gilan. -- E por que no me ajudou?
       -- Pelo que vi, no me pareceu que voc precisasse
de ajuda -- Gilan retrucou, sorrindo e mostrando Bart,
atrs de Horace, com um gesto.
       O bandido Bart estava se levantando devagar, ba-
lanando a cabea, pois o efeito do golpe do cabo da es-
pada comeava a passar.
       -- Acho que seu outro amigo precisa de um pouco
de ateno -- ele sugeriu.
       Horace se virou e levantou a espada casualmente,
batendo a lateral da lmina no crnio de Bart. Ele deu ou-
tro leve gemido e caiu de cara no cho.
       -- Ainda acho que voc devia ter dito alguma coi-
sa.
       -- Eu teria feito isso se voc estivesse com pro-
blemas -- Gilan garantiu.
       Ento ele atravessou a clareira e se aproximou de
Carney Levantou o bandido pelo brao, obrigou-o a ficar
de p, arrastou-o pela clareira e o jogou, sem delicadeza,
contra uma rocha. Quando Carney comeou a cair para a
frente, ouviu-se um raspar de ao sobre couro, e a faca de
Gilan apareceu em sua garganta, fazendo que o bandido
ficasse com o corpo ereto.
       -- Ento esses dois apanharam vocs cochilando?
-- Gilan perguntou para Will.
       Os garotos concordaram envergonhados.
        -- Desde quando voc est aqui? -- Will pergun-
tou depois que assimilou a importncia do comentrio.
        -- Desde que eles chegaram -- Gilan contou. --
Eu no tinha ido muito longe quando vi os dois se es-
gueirando entre as rochas. Assim deixei Blaze e voltei para
c atrs deles. Era bvio que no tinham boas intenes.
        -- Por que no disse nada? -- Will perguntou in-
crdulo. Por um momento, o olhar de Gilan se endureceu.
-- Porque vocs precisavam de uma lio. Esto num ter-
ritrio perigoso, parece que a populao desapareceu mis-
teriosamente, e vocs ficam a fazendo exerccios com a
espada para que todo mundo veja e escute.
        -- Mas... -- Will balbuciou. -- Achei que deva-
mos praticar.
        -- No quando no h mais ningum para ficar de
olho no que est acontecendo -- Gilan ressaltou com
sensatez. -- Quando se comea a treinar desse jeito, fi-
ca-se totalmente concentrado nisso. Esses dois fizeram
barulho suficiente para chamar a ateno de uma vov
surda. Puxo at avisou voc duas vezes e voc no per-
cebeu.
        --  mesmo? -- Will respondeu muito desconcer-
tado.
        Gilan olhou Will nos olhos at ter certeza de que a
lio tinha sido aprendida. Ento mostrou com um gesto
que o assunto estava encerrado. Certo de que aquilo no
iria acontecer outra vez, Will tambm balanou a cabea.
       -- Agora -- Gilan disse -- vamos descobrir o que
essas duas belezinhas sabem sobre o preo do carvo.
       Ele se virou para Carney, que estava vesgo tentan-
do enxergar a faca que espetava seu pescoo.
       -- H quanto tempo vocs esto em Cltica? --
Gilan perguntou.
       Carney olhou para ele e outra vez para a faca pesa-
da.
       -- Da... de... dez ou onze dias, meu senhor -- ele
gaguejou.
       -- No me chame de "meu senhor" -- Gilan re-
trucou com um ar impaciente virando-se ento para os
dois garotos. -- Essa gente sempre tenta agradar quando
percebe que est em dificuldades -- ele olhou para Carney
-- O que esto fazendo aqui?
       Carney hesitou e evitou o olhar direto de Gilan, de
modo que o arqueiro soube que ele ia mentir mesmo antes
que o bandido falasse.
       -- S... queria conhecer a regio, meu... -- ele pa-
rou, pois se lembrou no ltimo instante da instruo de
no falar "meu senhor".
       Gilan suspirou exasperado.
       -- Olhe, eu gostaria de cortar sua cabea aqui e a-
gora. Duvido mesmo que tenha alguma coisa til para me
contar. Mas vou lhe dar uma ltima chance. Agora, DIGA
A VERDADE!
       Ele gritou as ltimas palavras zangado e com o
rosto a apenas alguns centmetros do de Carney. A repen-
tina mudana nos modos suaves e divertidos que vinha
usando assustou o bandido. Apenas por alguns segundos,
Gilan deixou que seu escudo de bondade escorregasse e
que Carney enxergasse a raiva intensa imediatamente de-
baixo da superfcie. No mesmo instante, ele sentiu medo.
Como a maioria das pessoas, ficava nervoso perto de um
arqueiro. No era nada bom deixar um arqueiro zangado.
E esse parecia muito, muito zangado.
        -- Ouvimos dizer que havia coisa boa por aqui! --
ele respondeu imediatamente.
        -- Coisa boa? -- Gilan repetiu, e Carney assentiu
com um gesto de cabea obediente, soltando totalmente a
lngua.
        -- Todas as vilas e cidades desertas. Ningum para
vigiar nada, e todos os bens jogados pelos cantos para pe-
garmos  vontade. Mas no prejudicamos ningum -- ele
concluiu na defensiva.
        -- Ah, no, no prejudicam. Vocs s entraram
quando as pessoas no estavam e roubaram tudo o que
elas possuam de valor -- Gilan completou. -- Acho que
ficaram at agradecidas pela sua contribuio.
        -- Foi ideia de Bart, no minha -- Carney tentou
justificar, e Gilan balanou a cabea com tristeza.
        -- Gilan? -- Will chamou, e o arqueiro se virou
para olhar para ele. -- Como eles ficaram sabendo que as
cidades estavam desertas? Ns no ouvimos nada.
        --  a rede de informaes dos ladres -- Gilan
informou para os garotos. --  desse jeito que os urubus
se renem sempre que um animal esta morrendo. A rede
de inteligncia entre ladres, bandidos e salteadores  in-
crivelmente grande. Assim que um lugar enfrenta dificul-
dades, a notcia se espalha como um rastilho de plvora e
eles surgem de todos os lados. Tenho a impresso de que
h muitos mais nestas colinas.
        Ele se virou para Carney, apertando a faca com
mais fora na carne de seu pescoo, s cuidando para no
tirar sangue.
        -- No  mesmo? -- ele indagou. Carney ia assen-
tir com a cabea, mas percebeu o que aconteceria se me-
xesse o pescoo e engoliu em seco.
        -- Sim, senhor -- ele sussurrou.
        -- E devo imaginar que voc tem uma caverna em
algum lugar, ou algum tnel de mina deserta, onde escon-
deu o que roubou at agora?
        Gilan aliviou a presso da faca e desta vez Carney
pde responder com um gesto da cabea. Os dedos do
bandido foram at a bolsa que carregava no cinto, mas
pararam quando percebeu o que estava fazendo. Entre-
tanto, Gilan tinha visto o movimento e, com a mo livre,
abriu a bolsa com irritao e remexeu em seu interior at
que finalmente tirou uma folha de papel suja dobrada em
quatro. Ele a passou para Will.
        -- D uma olhada -- ele pediu, e Will desdobrou o
papel revelando um mapa mal desenhado que mostrava
pontos de referncia, instrues e distncias.
        -- Pelo que parece, eles enterraram o produto do
roubo -- o garoto disse, e Gilan assentiu com um leve
sorriso.
        -- timo. Ento, sem o mapa, no vo poder en-
contrar ele de novo -- retrucou, e Carney arregalou os
olhos em sinal de protesto.
        -- Mas esse  o nosso... -- ele comeou e parou
quando viu o brilho perigoso no olhar de Gilan.
        -- Foi roubado -- o arqueiro afirmou em voz
muito baixa. -- Vocs se esgueiraram como chacais e
roubaram de pessoas que esto em grandes dificuldades,
isso  evidente. No  de vocs.  delas. Ou de suas fam-
lias, se ainda estiverem vivas.
        -- Elas ainda esto vivas -- disse uma nova voz
atrs deles. -- Elas fugiram de Morgarath... As que ele a-
inda no capturou.
Se ela no tivesse falado, eles a teriam tomado por um
garoto. Foi a voz suave que revelou quem era. Estava pa-
rada na beira do acampamento, um vulto magro com ca-
belos loiros curtos, como os de um menino, vestindo uma
tnica esfarrapada, calas e botas de couro macio amarra-
das at os joelhos. Um colete de pele de carneiro man-
chado e rasgado parecia ser sua nica proteo contra as
noites frias da montanha, pois ela no tinha nenhum ca-
saco e no levava cobertores. Apenas uma pequena ban-
dana amarrada como uma trouxa que, possivelmente, con-
tinha todos os seus pertences.
       -- De onde diabos voc apareceu? -- Gilan per-
guntou virando-se para observ-la.
       Ele guardou a faca e permitiu que Carney casse de
joelhos, exausto e agradecido.
       A garota, que Will agora via ter aproximadamente a
sua idade e que debaixo de uma grossa camada de sujeira
tambm era extremamente bonita, fez um gesto vago.
       -- Ah... -- ela fez uma pausa hesitante, tentando
raciocinar, e Will percebeu que estava muito cansada. --
Estou escondida nas colinas h vrias semanas -- disse
finalmente.
       Will teve que admitir que a aparncia dela mostrava
que estava dizendo a verdade.
       -- Como voc se chama? -- Gilan perguntou com
certa suavidade.
       Ele tambm viu que a garota estava exausta.
       Ela hesitou parecendo no saber se deveria revelar
o nome.
       -- Evanlyn Wheeler, do Feudo Greenfield -- ela
contou. Greenfield era um pequeno feudo da costa de A-
raluen. -- Estvamos aqui visitando amigos... -- ela parou
e desviou o olhar de Gilan.
       A garota pareceu pensar por um instante antes de
corrigir a frase.
       -- Na verdade, minha patroa estava visitando ami-
gos quando os Wargals atacaram.
       -- Wargals? -- Will repetiu inquieto, o que fez a
moa colocar nele seu par de brilhantes olhos verdes.
       Ao encar-los, Will percebeu que a moa era mais
que bonita. Ela era maravilhosa. Os lindos cabelos loiros e
olhos verdes eram completados por um nariz pequeno e
reto e uma boca carnuda que Will achou que ficaria deli-
ciosa se ela estivesse sorrindo. Mas naquele exato mo-
mento sorrir no estava nos planos da menina. Ela levan-
tou os ombros tristemente quando respondeu.
       -- Aonde voc acha que todas as pessoas foram?
-- ela perguntou. -- Os Wargals tm atacado cidades e
vilas em toda esta regio de Cltica, h semanas. Os celtas
no conseguiram enfrent-los. Foram expulsos de suas
casas. A maioria fugiu para a pennsula do sudoeste, mas
alguns foram capturados. No sei o que aconteceu com
eles.
       Gilan e os dois garotos se entreolharam. Bem l no
fundo, vinham esperando ouvir alguma coisa parecida.
Agora, era um fato.
       -- Achei que a mo de Morgarath estava atrs dis-
so tudo -- Gilan disse devagar, e a garota concordou com
lgrimas nos olhos.
       Uma delas escorreu pela face marcando seu trajeto
na sujeira que a cobria. Ela ps uma das mos nos olhos, e
seus ombros comearam a sacudir. Rapidamente, Gilan se
aproximou e a segurou exatamente antes que ela casse.
Ele a abaixou delicadamente at o cho e a recostou em
uma das pedras que os garotos tinham arrumado em volta
da fogueira. Sua voz era suave e piedosa.
       -- Est tudo bem -- ele a consolou. -- Agora vo-
c est em segurana. Descanse um pouco, vamos dar al-
guma coisa para voc comer e beber.
       Ele olhou rapidamente para Horace.
       -- Acenda uma fogueira bem pequena. Estamos
mais ou menos protegidos aqui e acho que podemos cor-
rer esse risco. E, Will -- ele acrescentou, erguendo a voz
para ser ouvido com clareza --, se esse bandido fizer ou-
tro movimento para fugir, voc d uma flechada na perna
dele?
        Carney, que tinha aproveitado a oportunidade da
repentina chegada de Evanlyn para comear a rastejar em
silncio na direo das pedras, ficou paralisado onde esta-
va. Gilan o olhou furioso e ento reviu as ordens.
        -- Pensando melhor, voc acende o fogo, Will.
Horace, amarre esses dois.
        Os dois garotos se moveram rapidamente para rea-
lizar as tarefas recebidas. Satisfeito por ver tudo sob con-
trole, Gilan tirou a capa e a colocou em volta da menina.
Ela tinha coberto o rosto com as duas mos e seus om-
bros ainda tremiam, embora ela no fizesse nenhum rudo.
Ele a abraou e, murmurando com suavidade, garantiu
mais uma vez que ela estava em segurana.
        Aos poucos, os soluos silenciosos e atormentados
diminuram e a respirao da menina ficou mais tranquila.
Will, ocupado em aquecer uma panela de gua para uma
bebida quente, olhou para ela um tanto surpreso quando
percebeu que tinha adormecido.
        --  bvio que ela tem passado por maus bocados
-- Gilan disse em voz baixa depois de pedir silncio. -- 
melhor deixar ela dormir. Voc pode preparar um daque-
les timos cozidos que Halt lhe ensinou a fazer.
        Em sua mochila, Will levava vrios ingredientes de-
sidratados que, quando colocados na gua e fervidos, re-
sultavam em cozidos deliciosos. Eles podiam ser aumen-
tados com qualquer tipo de carne fresca e legumes que os
viajantes apanhavam ao longo do caminho, mas, mesmo
sem eles, formavam uma refeio muito mais saborosa do
que as raes frias que os trs tinham comido naquele dia.
        Ele colocou uma grande vasilha de gua no fogo e
logo havia um delicioso cozido de carne fervendo e en-
chendo o ar frio da noite com seu aroma. Ao mesmo
tempo, procurou a reduzida poro de caf que levavam e
colocou uma panela esmaltada cheia de gua sobre as bra-
sas quentes ao lado do fogo maior. Quando a gua bor-
bulhou e sibilou no ponto de fervura, ele levantou a tampa
com uma vara bifurcada e jogou um punhado de gros no
interior. Logo, o aroma perfumado de caf fresco se mis-
turou com o do cozido, e todos ficaram com gua na bo-
ca. Mais ou menos ao mesmo tempo, os deliciosos cheiros
devem ter penetrado na conscincia de Evanlyn. O nariz
dela se retorceu delicadamente e os fantsticos olhos ver-
des se abriram. Por um ou dois segundos, eles se mostra-
ram assustados, enquanto ela tentava lembrar onde estava.
Ao ver o rosto tranquilizador de Gilan, ela relaxou um
pouco.
        -- Tem alguma coisa cheirando muito bem -- ela
disse, e Gilan sorriu.
        -- Por que voc no experimenta uma tigela do
nosso cozido e depois nos conta o que tem acontecido
nesta regio?
        Ele fez sinal para que Will enchesse a tigela esmal-
tada com um pouco de cozido. Era a tigela de Will, pois
eles no tinham utenslios de reserva. O estmago dele
roncou quando percebeu que teria que esperar at que
Evanlyn terminasse para poder comer. Horace e Gilan
simplesmente se serviram.
        Evanlyn engoliu a saborosa refeio com um entu-
siasmo que mostrava que ela no comia h dias. Gilan e
Horace tambm se puseram a comer com satisfao. Uma
voz chorosa veio da parede rochosa na outra extremidade,
onde Horace tinha amarrado os dois bandidos sentados
de costas um para o outro.
        -- Podemos comer alguma coisa, senhor? -- Car-
ney perguntou. Gilan mal parou entre uma colherada e
outra e olhou para eles com desdm.
        --  claro que no -- respondeu voltando a des-
frutar o jantar. Evanlyn percebeu que, fora os bandidos,
somente Will no estava comendo. Ela olhou para o prato
e a colher que estava segurando, olhou para os objetos
semelhantes usados por Gilan e Horace e se deu conta do
que tinha acontecido.
        -- Ah -- ela disse olhando com ar de arrependi-
mento para Will --, voc gostaria de...? -- ela ofereceu o
prato esmaltado para ele.
        Will ficou tentado em dividi-lo, mas percebeu que
ela devia estar praticamente morrendo de fome. Apesar da
oferta, sentiu que a moa esperava que recusasse. Will
concluiu que havia uma diferena entre estar com fome, o
que era o caso dele, e morrendo de fome, que era o caso
dela, e balanou a cabea sorrindo.
        -- Pode comer  vontade -- ele disse. -- Vou co-
mer depois que voc terminar.
        Ele ficou um pouco desapontado quando ela no
insistiu e voltou a engolir grandes colheradas do cozido,
parando de vez em quando para um grande gole do caf
recm-coado. Enquanto ela comia, parecia que um pouco
de cor voltava s suas faces. Ela limpou o prato e olhou
ansiosamente para a panela que ainda pendia sobre o fogo.
Will entendeu a deixa e serviu outra poro generosa de
cozido para ela, e Evanlyn recomeou a comer, mal pa-
rando para respirar. Desta vez, quando o prato ficou vazi-
o, ela sorriu timidamente e o devolveu para Will.
        -- Obrigada -- ela disse simplesmente, e ele incli-
nou a cabea sem jeito.
        -- Tudo bem -- ele murmurou enchendo o prato
outra vez para si mesmo. -- Voc devia estar com muita
fome.
        -- Estava, sim -- ela concordou. -- Acho que no
comia direito h uma semana.
        Gilan se ajeitou numa posio mais confortvel
junto da pequena fogueira.
        -- Por que no? -- ele perguntou. -- Acho que
ficou muita comida nas casas. Voc no podia pegar al-
guma coisa?
        Ela balanou a cabea negativamente, e seus olhos
mostraram o medo que a tinha dominado nas semanas
anteriores.
        -- Eu no quis arriscar -- contou. -- No sabia se
havia outras patrulhas de Morgarath na regio, ento no
tive coragem de entrar nas cidades. Encontrei alguns le-
gumes e um pedao de queijo numa das fazendas, mas
muito pouca coisa alm disso.
       -- Acho que agora voc pode nos contar o que sa-
be sobre o que aconteceu aqui -- Gilan pediu, e ela con-
cordou com um gesto de cabea.
       -- No que eu saiba muita coisa. Como eu disse,
estava aqui com... minha patroa, visitando... amigos.
       Novamente, houve uma ligeira hesitao em suas
palavras.
       Percebendo o fato, Gilan franziu um pouco a testa.
       -- Suponho que a sua patroa faa parte da nobreza.
A mulher de um cavaleiro ou talvez de um lorde?
       -- Ela  filha de... lorde e lady Caramon, do Feudo
Greenfield -- ela disse depressa.
       Mas outra vez houve uma leve hesitao. Gilan a-
pertou os lbios pensativo.
       -- J ouvi esses nomes -- ele disse. -- Mas acho
que no os conheo.
       -- Seja como for, ela estava aqui visitando uma
senhora da corte do rei Swyddned, uma velha amiga,
quando as foras de Morgarath atacaram.
       -- Como eles conseguiram isso? -- ele perguntou
franzindo a testa mais uma vez. --  impossvel atraves-
sar os penhascos e a fenda. No se pode fazer que um e-
xrcito desa os rochedos, muito menos que passe sozi-
nho pelo desfiladeiro.
       Os penhascos se erguiam do lado extremo da fen-
da, formando a fronteira entre Cltica e as Montanhas da
Chuva e da Noite. Eles eram feitos de puro granito e ti-
nham vrios metros de altura. No havia passagens, no
havia como subir ou descer, certamente no para um
grande nmero de soldados.
       -- Halt diz que no existe lugar impossvel de atra-
vessar -- Will argumentou. -- Especialmente se voc no
se importa em perder vidas na tentativa.
       -- Encontramos um pequeno grupo de celtas que
fugiam para o sul -- a menina contou. -- Eles nos disse-
ram que os Wargals conseguiram. Eles usaram cordas e
escadas para escalada e desceram os penhascos  noite, em
pequenos grupos. Encontraram salincias estreitas, ento
usaram as escadas para atravessar a fenda. Eles escolhe-
ram o ponto mais distante que puderam encontrar e assim
passaram sem ser vistos. Durante o dia, os que j tinham
atravessado a fenda se esconderam entre as rochas e vales
at que toda a tropa estivesse reunida. No precisavam de
muitos soldados, pois o rei Swyddned no mantinha um
grande exrcito na corte.
       Gilan soltou um gemido de desaprovao e olhou
para Will.
       -- Pois deveria manter. O tratado obriga ele a fazer
isso. Voc se lembra do que falamos sobre as pessoas fi-
carem mais tolerantes? Os celtas preferem cavar seu solo a
defender ele.
       Ele fez um gesto para que a garota continuasse.
        -- Os Wargals invadiram o interior e se concentra-
ram nas minas em especial. Por algum motivo, queriam os
mineiros vivos. Todos os outros foram mortos.
        -- Pordellath e Gwyntaleth esto totalmente de-
sertas -- ele contou. Voc tem ideia do lugar para onde as
pessoas possam ter ido?
        -- Muitas pessoas das cidades fugiram -- ela res-
pondeu. -- Todas foram para o sul. Parece que os War-
gals fizeram que fossem nessa direo.
        -- Acho que faz sentido -- Gilan comentou. --
Manter elas agrupadas no sul evita que a notcia se espalhe
por Araluen.
        -- Foi o que o capito de nosso grupo disse --
Evanlyn concordou. -- O rei Swyddned e a maior parte
dos sobreviventes de seu exrcito recuaram para a costa
sudoeste para formar uma linha de defesa. Os celtas que
conseguissem fugir dos Wargals se encontrariam com ele
l.
        -- E voc? -- Gilan indagou.
        -- Estvamos tentando escapar para a fronteira
quando fomos bloqueados por um grupo de combate --
ela explicou. -- Nossos homens os mantiveram afastados
enquanto minha senhora e eu escapamos. Estvamos
quase livres quando o cavalo dela tropeou, e eles a apa-
nharam. Eu quis voltar para ajud-la, mas ela gritou para
que eu fugisse. No pude... eu quis ajud-la, mas... eu s...
        Lgrimas comearam a escorrer outra vez. Ela pa-
recia no notar e no tentou sec-las. Ficou apenas o-
lhando em silncio para o fogo enquanto o horror dos
acontecimentos voltava  sua lembrana. Quando falou de
novo, sua voz era quase inaudvel.
        -- Consegui fugir e voltei para olhar. Eles esta-
vam... eles estavam... vi quando eles... -- a voz dela sumiu.
        Gilan se inclinou e apanhou a mo dela.
        -- No pense nisso -- ele disse com delicadeza, e
ela olhou para ele com gratido. -- Acho que depois...
disso... voc fugiu para as colinas?
        Ela fez que sim vrias vezes. As lembranas das
cenas terrveis ainda estavam bastante vivas. Will e Horace
estavam sentados em silncio. Will se virou para o amigo,
e os dois trocaram um olhar de compreenso. Evanlyn ti-
nha tido sorte em escapar.
        -- Estou me escondendo desde ento -- ela con-
tou em voz baixa. -- Meu cavalo comeou a mancar h
dez dias e eu o soltei. Por isso, tenho andado na direo
do norte durante a noite e me escondido de dia.
        Ela apontou para Bart e Carney, amarrados como
dois frangos cativos do outro lado da clareira.
        -- Vi esses dois algumas vezes e outros como eles.
Mas no deixei que me vissem. Achei que no podia con-
fiar neles.
        Carney mostrou uma expresso magoada. Bart ain-
da estava tonto demais por causa da pancada que Horace
tinha lhe dado com a lateral da espada, por isso no se in-
teressou no que estava acontecendo.
       -- Ento vi vocs trs hoje cedo do outro lado do
vale e reconheci voc como um dos arqueiros do rei...
Bem, na verdade, dois de vocs -- ela corrigiu. -- E no
pude fazer outra coisa seno agradecer a Deus.
       Gilan olhou preocupado para ela quando disse isso.
Ela no percebeu a reao e continuou a falar.
       -- Levei quase o dia todo para alcanar vocs. No
era assim to longe, mas no havia um caminho para a-
travessar o vale. Tive que dar uma volta enorme, subir e
descer as colinas e me apavorei ao pensar que vocs talvez
no estivessem mais aqui quando eu chegasse. Mas, feliz-
mente, vocs estavam -- ela acrescentou sem necessidade.
       Will estava inclinado para a frente, o cotovelo no
joelho e a mo sustentando o queixo, tentando assimilar
tudo o que ela tinha contado.
       -- Por que Morgarath ia querer mineiros? -- ele
perguntou a quem quisesse responder. -- Ele no tem
minas, portanto isso no faz sentido.
       -- Ser que encontrou alguma? -- Horace sugeriu.
-- Talvez tenha encontrado ouro nas Montanhas da
Chuva e da Noite e precise de escravos para explorar elas.
       Gilan mordiscava a unha do polegar pensando no
que Horace tinha dito.
       -- Pode ser -- ele falou finalmente. -- Vai precisar
de ouro para pagar os escandinavos. Talvez esteja extra-
indo o prprio ouro.
       Evanlyn se sentou com o corpo ereto ao ouvir falar
dos lobos do mar.
        -- Escandinavos? -- ela perguntou. -- Agora eles
so aliados de Morgarath?
        -- Eles esto preparando alguma coisa -- Gilan a-
firmou. -- Todo o reino est alerta. Ns estvamos tra-
zendo mensagens de Duncan para o rei Swyddned.
        -- Vocs vo ter que ir para o sudoeste para en-
contr-lo -- Evanlyn declarou.
        Will percebeu que ela se assustou um pouco ao ou-
vir o nome do rei Duncan.
        -- Mas duvido que ele deixe suas posies de de-
fesa ali.
        -- Acho que isso  mais importante do que levar
mensagens para Swyddned -- Gilan disse. -- Afinal, o
principal motivo delas era avisar o rei que Morgarath tinha
entrado em ao. Acho que ele j sabe disso agora.
        Ele se levantou, enquanto se espreguiava e boce-
java. J estava totalmente escuro.
        -- Sugiro que tenhamos uma boa noite de sono e
comecemos a viagem para o norte pela manh. Vou mon-
tar guarda primeiro, ento voc pode ficar com minha ca-
pa, Evanlyn. Vou usar a de Will quando ele me substituir.
        -- Obrigada -- a moa disse simplesmente, e to-
dos os trs entenderam que ela se no se referia apenas ao
uso da capa.
        Will e Horace foram cochilar junto do fogo en-
quanto Gilan apanhava o arco e ia at um monte de ro-
chas que lhe dava uma boa viso da trilha que levava ao
acampamento.
       Enquanto Will ajudava Evanlyn a arrumar um lugar
para dormir, ele ouviu a voz chorosa de Carney mais uma
vez.
       -- Senhor, por favor, poderia afrouxar um pouco
as cordas para passarmos a noite? Elas esto muito aper-
tadas.
       -- Claro que no -- Gilan retrucou indiferente. E
ento ele subiu nas rochas para assumir o primeiro turno
da viglia.
Na manh seguinte, eles se viram diante de um proble-
ma: o que fazer com Bart e Carney.
        Amarrados de costas um para o outro e obrigados a
ficar sentados eretos no cho pedregoso, os dois bandidos
tinham passado uma noite extremamente desconfortvel.
A cada troca de turno, Gilan afrouxava as cordas por al-
guns minutos para que seus msculos pudessem relaxar
um pouco e at cedeu e lhes deu um pouco de gua e co-
mida. Mas mesmo assim a experincia foi muito desagra-
dvel e ficou ainda pior porque no tinham ideia do que
Gilan planejava fazer com eles pela manh.
        E, verdade seja dita, Gilan tambm no. Ele no
tinha vontade de lev-los como prisioneiros. Eles s ti-
nham quatro cavalos, se contassem o animal que vinha
carregando seus equipamentos para acampar e que agora
teria que levar tambm Evanlyn. Ele era da opinio de que
a notcia sobre a invaso atordoante de Morgarath em
Cltica deveria ser levada de volta para o rei Duncan o
mais rpido possvel e arrastar dois prisioneiros com eles a
p iria atras-los muito. Alm disso, j estava pensando
em partir a toda a velocidade e deixar que os outros trs o
seguissem em seu prprio ritmo. Ele sabia que o desajei-
tado pnei de carga nunca conseguiria acompanhar o ve-
loz Blaze.
       Assim, diante desses dois problemas, ficou srio
enquanto se alimentava pela manh, permitindo-se o luxo
de uma segunda xcara de caf de seu reduzido estoque.
Ele ponderou que, se fosse na frente, seria o ultimo caf
que tomaria por alguns dias. Depois de algum tempo, le-
vantou a cabea, encontrou o olhar de Will e chamou o
garoto para perto de si.
       -- Estou pensando em ir na frente -- ele disse em
voz baixa. No mesmo momento, ele viu o olhar assustado
de Will.
       -- Voc quer dizer sozinho? -- Will perguntou, e
Gilan assentiu.
       -- Essas notcias so vitais, Will, e preciso levar e-
las para o rei Duncan o mais depressa possvel. E, alm do
mais, isso significa que no vai haver reforos vindos de
Cltica. Ele precisa saber disso.
       -- Mas... -- Will hesitou.
       Ele olhou ao redor do pequeno acampamento co-
mo se procurasse algum argumento para rebater a ideia de
Gilan. A presena do alto arqueiro era reconfortante.
Como Halt, ele sempre parecia saber qual a coisa certa a
fazer. A ideia de que estava planejando deix-los criava
uma sensao prxima do pnico na mente de Will. Gilan
reconheceu a insegurana que tomava conta do garoto.
Ele se levantou e colocou a mo em seu ombro.
       -- Vamos andar um pouco -- ele convidou e co-
meou a se afastar do local do acampamento.
       Blaze e Puxo olharam para eles curiosos quando
os dois passaram e, ao perceber que no eram necessrios,
voltaram a pastar a vegetao rara.
       -- Sei que voc est preocupado com o que acon-
teceu com aqueles quatro Wargals -- Gilan disse.
       Will parou de andar e olhou para ele.
       -- Halt contou para voc? -- ele indagou um tanto
constrangido. Ele se perguntou o que Halt teria dito sobre
seu comportamento.
       Gilan assentiu srio.
       -- Claro que ele me contou. Will, voc no tem
nada do que se envergonhar, acredite.
       -- Mas, Gil, eu entrei em pnico. Esqueci todo o
meu treinamento e...
       Gilan levantou a mo para interromper a torrente
de autorrecriminao que sentiu que ia comear.
       -- Halt disse que voc se manteve firme -- Gilan
afirmou com determinao.
       Will se mexeu inquieto.
       -- Bom... acho que sim. Mas...
       -- Voc sentiu medo, mas no fugiu, e isso no 
covardia.  coragem. Essa  a maior forma de coragem
que existe. Voc no sentiu medo quando matou o Kal-
kara?
       -- Claro -- Will admitiu. -- Mas aquilo foi dife-
rente. Ele estava a 40 metros de distncia e estava atacan-
do sir Rodney.
       -- E o Wargal estava a 10 metros, correndo dire-
tamente na sua direo. Grande diferena -- Gilan ter-
minou para ele.
       -- Foi Puxo que me salvou -- Will falou ainda
no convencido. Gilan se permitiu dar um sorriso.
       -- Talvez ele tenha pensado que valia a pena salvar
voc.  um cavalo esperto. E, embora Halt e eu no te-
nhamos a metade da esperteza de Puxo, achamos que
voc tem muito valor.
       -- Bom, tenho duvidado disso -- Will retrucou.
       Mas, pela primeira vez em algumas semanas, ele
sentiu sua confiana aumentar um pouco.
       -- Pois no faa isso! -- Gilan disse com vigor. --
Insegurana  uma doena. E se ela foge ao controle toma
conta de voc. Aprenda com o que aconteceu com aque-
les Wargals. Use a experincia para ficar mais forte.
       Will pensou nas palavras de Gilan por alguns se-
gundos. Em seguida, respirou fundo e endireitou os om-
bros.
       -- Est certo -- ele disse. -- O que quer que eu
faa?
       Gilan o observou por um momento. Havia uma
nova determinao na atitude do garoto.
       -- Vou deixar voc no comando -- ele disse. --
No h mais motivo para continuar com a misso, ento
voc deve me seguir at Araluen o mais depressa que pu-
der.
       -- At Redmont? -- Will perguntou, e Gilan as-
sentiu com um gesto.
       -- Nesse momento, o exrcito deve estar a cami-
nho das Plancies de Uthal.  para l que eu vou e  l que
Halt vai estar. Vamos dar uma olhada no mapa antes de
eu partir e planejar o melhor caminho para voc.
       -- E a garota? -- Will perguntou. -- Ela vai co-
nosco ou devo deixar ela em algum lugar seguro depois
que voltarmos para Araluen?
       -- Leve ela com voc -- Gilan sugeriu depois de
pensar um pouco. -- Talvez o rei e os conselheiros quei-
ram interrogar ela um pouco mais. Ela vai estar no meio
do exrcito de Araluen, portanto to segura quanto em
qualquer outro lugar.
       Ele hesitou e ento decidiu contar suas dvidas pa-
ra Will.
       -- Tem alguma coisa estranha sobre ela, Will -- ele
comeou.
       -- Voc acha que a histria dela no est certa? --
Will interrompeu.
       -- Ela hesita e para como se tivesse medo de con-
tar alguma coisa para ns -- outro pensamento lhe veio 
mente, e ele baixou a voz instintivamente, apesar de no
poderem ser ouvidos do acampamento.
       -- Voc no acha que ela  uma espi, acha?
       -- Nada to dramtico -- Gilan respondeu. --
Mas voc lembra quando ela disse que nos viu e pensou
que graas a Deus ns ramos arqueiros? Pessoas comuns
no pensam desse jeito sobre ns. Somente os nobres fi-
cam  vontade perto de arqueiros.
       -- Ento voc acha... -- Will indagou srio.
       Ele hesitou, pois no sabia o que Gilan pensava.
       -- Acho que ela pode ser a dama e ter assumido a
identidade da criada.
       -- Ento, por um lado, ela fica satisfeita ao encon-
trar arqueiros, mas no confia o bastante em ns para nos
dizer a verdade? Isso no faz sentido, Gil! -- Will argu-
mentou.
       -- Talvez no seja falta de confiana em ns --
Gilan tornou dando de ombros. -- Talvez ela tenha ou-
tros motivos para no contar quem realmente . No acho
que isso seja um problema para voc, apenas fique atento.
       Eles se viraram e comearam a voltar para o acam-
pamento.
       -- No gosto de deixar voc em apuros -- Gilan
disse. -- Mas voc no est exatamente desarmado. Tem
seu arco e as facas e, claro, Horace est com voc.
       Will olhou para o musculoso aprendiz, que estava
contando uma piada para Evanlyn. Quando ela atirou a
cabea para trs e riu, ele sentiu uma pontada de cime.
Mas ento se deu conta de que devia estar satisfeito por
ter Horace em sua companhia.
       -- Ele no se saiu nada mal com aquela espada,
no  mesmo? -- Will comentou.
       Gilan balanou a cabea admirado.
       -- Eu nunca contaria isso para ele, pois no faz
bem para um espadachim ter uma opinio exagerada so-
bre si mesmo, mas ele  muito melhor do que isso.
       Ele olhou para Will.
       -- Isso no quer dizer que vocs devam procurar
problemas. Ainda pode haver Wargals daqui at a frontei-
ra, portanto viajem  noite e se escondam nas pedras du-
rante o dia.
       -- Gil -- Will chamou quando um pensamento es-
tranho lhe veio  mente --, o que vamos fazer com esses
dois?
       Ele ergueu o polegar na direo dos dois bandidos,
ainda amarrados juntos de costas, ainda tentando cochilar
e ainda sacudindo um ao outro sempre que um deles pe-
gava no sono.
       -- Essa  a questo, no ? -- disse o arqueiro. --
Acho que eu poderia enforcar eles. Tenho autoridade para
isso. Afinal, tentaram interferir no trabalho de oficiais do
rei. E esto roubando em tempo de guerra. So dois cri-
mes capitais.
       Ele deu uma olhada nas colinas pedregosas que os
cercavam.
       -- A questo  se realmente posso fazer isso aqui
-- murmurou.
        -- Voc quer dizer -- Will disse sem gostar do que
o amigo estava pensando -- que talvez no tenha autori-
dade para enforcar eles porque no estamos no nosso
reino?
        -- No tinha pensado nisso -- Gilan respondeu e
riu. -- Eu estava mesmo pensando que seria um pouco
difcil fazer isso num lugar onde no h rvores com mais
de 1 metro de altura num raio de 100 quilmetros.
        Will soltou um pequeno suspiro interior de alvio
quando percebeu que Gilan no falava srio.
        -- Mas eu sei que no queremos que eles sigam
voc outra vez -- Gilan disse em tom de aviso, j sem
sorrir. -- Portanto, no mencione meus planos at que a
gente se livre deles, est bem?




       No fim, a soluo foi simples. Primeiro, Gilan fez
que Horace quebrasse a lmina da espada de Carney tor-
cendo-a entre duas rochas. Depois, jogou o porrete de
Bart no barranco ao lado da estrada. Eles ouviram quando
ele caiu, batendo e pulando no declive rochoso por vrios
segundos.
       Feito isso, Gilan obrigou os dois homens a ficarem
somente com as roupas de baixo.
       -- Voc no precisa ver isso -- ele tinha dito a
Evanlyn. -- No vai ser um espetculo bonito.
        Sorrindo para si mesma, a garota entrou na barraca
enquanto os dois homens se despiam. Os bandidos fica-
ram apenas com as cuecas rasgadas, tremendo no ar frio
da montanha.
        -- As botas tambm -- Gilan ordenou, e os dois
homens se sentaram desajeitados no cho pedregoso para
tir-las.
        Gilan cutucou a pilha de roupas com o p.
        -- Agora, formem uma trouxa e a amarrem com
seus cintos -- ele mandou, e Bart e Carney obedeceram.
        Quando estava tudo pronto, ele chamou Horace e
apontou com o polegar duas trouxas de roupas e as botas.
        -- Jogue onde ns jogamos o porrete, Horace --
ele ordenou.
        Horace sorriu quando comeou a entender o que
Gilan tinha planejado. Bart e Carney tambm entenderam
e comearam um coro de protestos que parou no mo-
mento em que o arqueiro lhes lanou um olhar gelado.
        -- Vocs esto com sorte -- ele disse com frieza.
-- Como falei para Will mais cedo, eu podia enforcar vo-
cs se quisesse.
        Bart e Carney se calaram no mesmo instante, e en-
to Gilan fez um gesto para que Horace os amarrasse ou-
tra vez. Docemente, eles se submeteram  ao do apren-
diz e em poucos minutos estavam de costas um para o
outro novamente, tremendo no vento frio que circulava e
mergulhava ao redor das colinas. Gilan olhou para eles
por alguns instantes.
        -- Jogue um cobertor em cima deles -- disse com
relutncia. -- Um cobertor dos cavalos.
        Will obedeceu sorrindo. Ele cuidou para no usar o
cobertor de Puxo e pegou um que pertencia ao forte p-
nei de carga.
        Gilan comeou a selar Blaze enquanto falava com
os companheiros.
        -- Eu vou investigar a regio em volta de Gwynta-
leth. Talvez haja algum l que possa esclarecer melhor o
que Morgarath pretende fazer.
        Ele olhou significativamente para Will. O aprendiz
percebeu que o arqueiro estava dizendo isso para despistar
os dois bandidos e assentiu de leve.
        -- Devo estar de volta no fim da tarde -- Gilan
continuou em voz alta. -- E gostaria de comer alguma
coisa quente quando chegar.
        Ele saltou na sela e fez sinal para que Will se apro-
ximasse.
        -- Deixe esses dois amarrados e parta quando o sol
se puser. Eles vo acabar se soltando, mas ento vo ter
que procurar as botas e as roupas. No vo a lugar ne-
nhum sem elas. Isso vai lhe dar um dia de dianteira, e voc
vai se livrar deles -- sussurrou.
        -- Entendi. Faa uma boa viagem, Gilan -- Will
desejou.
        O arqueiro assentiu com a cabea. Ele pareceu he-
sitar um instante e ento tomou uma deciso.
       -- Will, estamos em tempos incertos e nenhum de
ns sabe o que nos espera no futuro. Pode ser uma boa
ideia contar a Horace a senha para montar Puxo.
       Will franziu a testa. A senha era um segredo cuida-
dosamente guardado, e ele relutava em pass-la para outra
pessoa, mesmo um camarada confivel como Horace.
       -- Nunca se sabe o que pode acontecer -- Gilan
continuou ao perceber a hesitao do garoto. -- Voc
pode se ferir ou ficar incapacitado e, sem a senha, Puxo
no vai obedecer Horace.  s uma precauo -- ele a-
crescentou.
       Will compreendeu que a ideia era sensata e con-
cordou.
       -- Vou dizer a ele hoje  noite. Se cuide, Gilan.
       O arqueiro alto se inclinou e deu um forte aperto
de mo em Will.
       -- Outra coisa. Voc est no comando, e os outros
vo ter que fazer o que determinar. No mostre nenhum
sinal de que est inseguro. Acredite em si mesmo e eles
tambm vo acreditar em voc.
       Ele cutucou Blaze com o joelho, e o cavalo baio se
virou na direo da estrada. Gilan levantou a mo num
gesto de despedida para Horace e Evanlyn e se afastou a
galope. A poeira levantada por sua passagem foi logo dis-
persada pelo vento forte.
       E ento Will se sentiu muito pequeno. E muito s.
O    grupo cavalgou tudo o que pde naquela noite, de
certa forma retardado pelo passo do pnei de carga, que
no conseguia andar mais rpido.
       A chuva voltou durante a noite para tornar tudo
mais difcil. Mas ento, uma hora antes do amanhecer, ela
parou, e os primeiros raios de luz vindos do leste pintaram
o cu com uma fraca cor de prola. Will comeou a pro-
curar um lugar para acampar.
       Horace percebeu o amigo olhando ao redor.
       -- Por que no continuamos por mais algumas ho-
ras? -- ele sugeriu. -- Os cavalos ainda no esto cansa-
dos.
       Will hesitou. No tinham visto sinal de nenhum ser
humano durante a noite e certamente nenhum indcio de
Wargals na regio. Mas ele no gostava de contrariar os
conselhos de Gilan. No passado, descobrira que valia a
pena seguir conselhos dados por arqueiros mais experien-
tes. Finalmente, a deciso foi tomada quando, aps uma
curva na estrada, ele viu um amontoado de arbustos a
cerca de 30 metros de distncia. Embora no tivessem
mais que 3 metros de altura, ofereciam uma boa proteo
e abrigo do vento e de olhos inamistosos que pudessem
passar na rea.
       -- Vamos acampar aqui -- Will disse indicando os
arbustos. --  o primeiro lugar decente para acampar que
vimos em horas. Quem sabe se vamos encontrar outro?
       Horace deu de ombros. Ele estava satisfeito em
deixar Will tomar as decises. S tinha feito uma sugesto,
sem a menor inteno de tentar usurpar a autoridade do
aprendiz de arqueiro. Horace era essencialmente uma alma
simples. Reagia bem a comandos e a decises tomadas por
outras pessoas. Cavalgue agora. Pare aqui. Lute ali. Con-
tanto que confiasse na pessoa que tomava as decises, fi-
cava feliz em segui-las.
       E ele confiava no julgamento de Will. Tinha uma
leve ideia de que o treinamento dos arqueiros tornava as
pessoas mais determinadas e inteligentes. E, claro, nisso
ele tinha razo, at certo ponto.
       Quando desmontaram e conduziram os cavalos
pelos arbustos espessos para uma clareira adiante, Will
soltou um pequeno suspiro de alvio. Depois de uma noite
inteira na sela com apenas alguns momentos rpidos de
descanso, seu corpo estava mais rgido do que tinha se
dado conta. Algumas boas horas de sono pareciam a coisa
mais importante naquele momento. Will ajudou Evanlyn a
descer do pnei de carga. Cavalgando na sela de carga
como tinha feito, ela teve um pouco de dificuldade para
desmontar. Em seguida, o jovem arqueiro comeou a sol-
tar as mochilas com os suprimentos de comida e a lona
enrolada que usavam como proteo contra a chuva e o
vento.
       Evanlyn, quase sem falar com Will, esticou o corpo,
afastou-se alguns passos e se sentou numa pedra achatada.
       Will, com a testa franzida, jogou uma das mochilas
de comida aos ps dela.
       -- Voc pode comear a preparar a refeio -- ele
disse mais asperamente do que pretendia.
       Ele estava aborrecido por ver a garota se sentar e
deixar o trabalho para ele e Horace. Ela olhou para o pa-
cote e corou zangada.
       -- Eu no estou com muita fome -- retrucou.
Horace parou de tirar a sela do cavalo e comeou a se a-
proximar.
       -- Eu fao isso -- ele disse ansioso para evitar
qualquer conflito entre os outros dois.
       Mas Will levantou a mo para impedi-lo.
       -- No -- ele disse. -- Eu gostaria que voc es-
tendesse a lona. Evanlyn pode preparar a comida.
       O olhar dos dois se encontrou. Ambos estavam
zangados, mas ela percebeu que estava errada, ento deu
de ombros e pegou a mochila.
       -- Se isso significa tanto para voc...! -- ela mur-
murou. -- Horace pode acender o fogo para mim? --
perguntou. -- Ele faz isso mais depressa do que eu.
       Will considerou a ideia com uma expresso pensa-
tiva. Ele estava relutante em acender fogo enquanto ainda
estavam em Cltica. No parecia lgico viajar de noite pa-
ra evitar serem vistos e depois acender uma fogueira cuja
fumaa podia ser visvel durante o dia. Alm disso, havia
outro ponto que Gilan tinha observado no dia anterior.
       -- Nada de fogo -- Will disse com determinao e,
de mau humor, Evanlyn jogou a mochila de comida no
cho.
       -- No quero comida fria outra vez! -- ela dispa-
rou. Will olhou para a garota com calma.
       -- H pouco tempo, voc teria ficado satisfeita em
comer qualquer coisa, fria ou quente, contanto que fosse
comida -- ele lembrou, e ela desviou o olhar do dele. --
Olhe -- ele acrescentou num tom de voz mais amistoso
--, Gilan sabe mais sobre essas coisas do que qualquer
um de ns e ele nos pediu para fazermos de tudo para no
sermos vistos, est bem?
       Evanlyn resmungou alguma coisa. Horace estava
observando os dois. Aquele conflito o preocupava. Ele
resolveu faz-los chegar a um meio-termo.
       -- Eu poderia fazer um pequeno fogo para cozi-
nhar -- sugeriu. -- Se a gente o fizer debaixo desses ar-
bustos, vai ser muito difcil ver a fumaa depois que ela
passar pelos galhos.
       -- No  s isso -- Will explicou, jogando os can-
tis sobre o ombro e pegando o arco no estojo da sela. --
Gil diz que os Wargals tm um excelente faro. Se ns a-
cendermos fogo, o cheiro da fumaa vai ficar no ar du-
rante horas depois que o apagarmos.
        Horace assentiu, entendendo a explicao. Antes
que algum pudesse levantar mais objees, Will foi at as
rochas atrs do local do acampamento.
        -- Vou dar uma olhada no local -- ele avisou --,
ver se encontro gua por aqui. E me certificar de que es-
tamos sozinhos.
        Ignorando o comentrio "como se no estivsse-
mos" que a garota resmungou alto o suficiente para que
ele escutasse, Will comeou a subir pelas rochas. Fez um
exame cuidadoso da rea, ficando abaixado e fora de vista,
movendo-se de um arbusto para outro com o mximo de
cuidado possvel. "Sempre que estiver explorando algum
lugar", Halt tinha dito certa vez, "mova-se como se al-
gum o pudesse ver. Nunca suponha que est sozinho".
        Ele no viu nenhum sinal de Wargals ou celtas, mas
encontrou um riacho pequeno e lmpido onde a gua
fresca corria sobre um leito de pedras. Ela parecia boa pa-
ra beber, pois corria rpido. Ele a experimentou e, satis-
feito por no estar poluda, encheu os cantis at a borda.
A gua fresca tinha um gosto especialmente bom depois
do suprimento com gosto de couro que vinham tomando.
Depois de ficar nos cantis por algumas horas, a gua co-
meava a ter um gosto estranho.
        Quando voltou ao acampamento, Will encontrou
Horace e Evanlyn  sua espera. Evanlyn tinha preparado
um prato de carne seca e de biscoitos duros que vinham
comendo no lugar de po fazia algum tempo. Ele ficou
satisfeito por ela tambm ter posto um pouco de picles na
carne. Qualquer melhoria naquela refeio sem sabor era
bem-vinda, mas ele percebeu que no prato dela no havia
nenhum.
       -- Voc no gosta de picles? -- ele perguntou en-
tre uma poro e outra de carne e biscoito.
       Ela balanou a cabea negativamente e evitou o o-
lhar dele.
       -- No muito.
       Mas Horace continuou o assunto.
       -- Ela lhe deu o ltimo -- ele contou para Will.
       Por um momento, Will hesitou constrangido. Ele
tinha acabado de engolir o ltimo bocado do picante pi-
cles amarelo sobre um pedao de biscoito e no havia
como dividir o pedao com ela.
       -- Oh! -- ele murmurou percebendo que aquele
era o jeito de ela fazer as pazes. -- Ah... bem, obrigado,
Evanlyn.
       Ela jogou a cabea para trs. Com os cabelos muito
curtos, o efeito se perdeu e ocorreu a Will que ela prova-
velmente tinha o hbito de fazer esse gesto com longos
cachos dourados que acentuariam o movimento.
       -- Eu j disse -- ela replicou. -- No gosto de pi-
cles.
       Mas agora havia um leve sorriso em sua voz, e o
mau humor anterior tinha desaparecido. Ele olhou para
ela e devolveu o sorriso.
       -- Vou montar guarda primeiro.
       Aquele parecia um bom jeito de mostrar a ela que
no guardava ressentimento.
       -- Se voc tambm ficar com o segundo turno,
pode ficar com os meus picles -- Horace ofereceu, e to-
dos riram.
       O clima no pequeno acampamento ficou muito
mais leve quando Horace e Evanlyn se ocuparam em sa-
cudir os cobertores e as capas e cortar alguns dos galhos
mais cheios de folhas dos arbustos para formar as camas.
       Will, por sua vez, pegou um dos cantis e sua capa e
subiu numa das rochas mais altas que cercavam o acam-
pamento. Ele se ajeitou com o mximo de conforto pos-
svel num lugar de onde podia ver claramente, de um lado,
as colinas rochosas e, de outro, a estrada. Sempre se lem-
brando das lies de Halt, ele se acomodou entre uma pi-
lha de rochas que formavam um ninho quase natural de
onde podia espiar para todos os lados sem levantar a ca-
bea acima do nvel do horizonte.
       Ele se mexeu por alguns minutos, desejando que
no houvesse tantas pedras pontudas para cutuc-lo. En-
to deu de ombros e decidiu que pelo menos elas o impe-
diriam de cochilar durante seu turno.
       Ele vestiu a capa e levantou o capuz. Sentado ali
sem se mexer entre as pedras cinzentas, parecia se mistu-
rar ao fundo, pois ficara quase invisvel.
       Foi o barulho que chamou sua ateno em primeiro
lugar. Ele ia e vinha levemente com a brisa. Quando o
vento ficou mais forte, o som tambm se intensificou.
Ento, quando a brisa diminuiu, Will no escutou mais
nada e pensou estar imaginando coisas.
       Da, o barulho se repetiu. Era um som grave e rit-
mado. Vozes, talvez, mas no parecidas com nenhuma
que j tivesse ouvido. Talvez fosse um canto. Quando a
brisa soprou um pouco mais forte, ele o ouviu de novo.
No era uma cano. No havia nenhuma melodia, apenas
um ritmo. Um ritmo constante e invarivel.
       A brisa morreu outra vez, e o som parou com ela.
Will sentiu os pelos da nuca se arrepiarem. Havia alguma
coisa sinistra naquele som. Algo perigoso. Ele pressentia
isso com todos os nervos de seu corpo.
       E l estava de novo! E, desta vez, ele descobriu o
que era. Cnticos. Vozes graves entoando cnticos como
se fossem uma s voz. Um cntico sem melodia que
transmitia uma inconfundvel ameaa.
       A brisa vinha do sudoeste, de modo que o som vi-
nha da estrada por onde tinha viajado. Ele se levantou
devagar e espiou na direo da brisa. De onde estava, via
vrias curvas e voltas da estrada, embora algumas desapa-
recessem atrs das rochas e das colinas. Calculou que po-
dia ver trechos da estrada por talvez 1 quilmetro, e no
havia sinal de movimento.
       Rapidamente, ele desceu das pedras e correu para
acordar os outros.
        O canto montono estava mais perto agora. Ele
no desaparecia mais com as idas e vindas da brisa e ficava
cada vez mais alto e definido. Will, Horace e Evanlyn se
agacharam entre os arbustos, ouvindo as vozes que se a-
proximavam.
        -- Talvez vocs dois devessem ir um pouco para
trs -- Will sugeriu.
        Ele sabia que, enrolado na capa de arqueiro e com
o rosto escondido debaixo do capuz, seria praticamente
invisvel, mas no tinha tanta certeza quanto aos outros.
Sem nenhuma relutncia, eles recuaram para dentro do
esconderijo oferecido pelos arbustos espessos. A reao
de Horace foi uma mistura de curiosidade e nervosismo.
Will percebeu que Evanlyn estava plida de medo.
        O lder do trio tinha desmontado o acampamento e
feito desaparecer quaisquer traos que pudessem ter dei-
xado, no caso de os cantores terem espies espalhados
pela regio. Ele levou os cavalos para o meio dos roche-
dos, a cerca de 100 metros de distncia, e os prendeu ali,
deixando o equipamento com eles. Ento, com Horace e
Evanlyn, procurou a proteo da vegetao, esconden-
do-se no fundo dos arbustos, mas tendo ainda uma viso
relativamente boa da estrada.
        -- Quem so eles? -- Horace sussurrou quando o
canto ficou ainda mais forte.
        Will calculou que o som vinha de algum lugar na
curva mais prxima, a cerca de 100 metros de distncia.
      -- Voc no sabe? -- Evanlyn perguntou com a
voz tensa de terror. -- So os Wargals.
Will e Horace se viraram depressa para olhar para ela.
       -- Wargals? Como voc sabe? -- Will perguntou.
       -- Eu j os ouvi antes -- ela explicou em voz baixa
e mordendo o lbio. -- Eles fazem essa cantoria enquanto
marcham.
       Will ficou srio. Os quatro Wargals que ele e Halt
haviam seguido no tinham cantado. Mas ento ele se deu
conta de que os Wargals estavam seguindo uma vtima
naquele dia. Com o canto do olho, Will viu um movi-
mento na curva da estrada.
       -- Se abaixem! -- ele sussurrou depressa. -- Fi-
quem com os rostos escondidos!
       Tanto Horace quanto Evanlyn baixaram os rostos
para o cho. Will estendeu a mo, cobriu ainda mais a
prpria cabea com o capuz e ento puxou as dobras da
capa para cobrir tudo, menos os olhos.
       Ele percebia agora que a cantoria era uma forma de
cadncia destinada a manter os Wargals se movimentando
no mesmo ritmo; da mesma forma que um sargento faz a
tropa de infantaria manter o passo. Ele contou cerca de 30
elementos no grupo. Vultos grandes e fortes, vestidos
com jaquetas escuras cobertas de botes de metal e calas
de um tecido grosso. Eles corriam num ritmo constante,
cantando a cadncia gutural e sem palavras que nada mais
era do que uma srie de grunhidos.
       Todos estavam armados com uma variedade de
lanas, clavas e achas, prontas para o uso
       Mas ele ainda no conseguia distinguir as feies.
Eles corriam com movimentos trpegos em duas filas.
Ento Will notou que estavam conduzindo outro grupo
entre as duas fileiras: prisioneiros.
       Agora que o grupo estava mais prximo, ele viu
que os prisioneiros, cerca de uma dzia, estavam se arras-
tando pela estrada, tentando desesperadamente manter o
passo dos Wargals cantantes. Reconheceu neles os celtas:
mineiros, a julgar pelos aventais e gorros de couro que
usavam. Eles estavam exaustos, e os Wargals usavam pe-
quenos chicotes para faz-los andar depressa.
       A cantoria ficou mais forte.
       -- O que est acontecendo? -- Horace sussurrou,
e Will sentiu vontade de estrangul-lo.
       -- Cale a boca! -- ele disparou. -- Nem mais uma
palavra!
       Agora os Wargals estavam mais perto, e ele conse-
guiu ver seus rostos. Sentiu os pelos da nuca se arrepiarem
quando viu as queixadas fortes e grossas e os narizes que
tinham se encompridado e alargado a ponto de ficarem
parecidos com focinhos. Os olhos eram pequenos e sel-
vagens e pareciam brilhar com um dio intenso quando os
Wargals surravam os celtas com seus chicotes. Em certo
momento, quando um deles rosnou para um prisioneiro
que tinha tropeado, Will viu rapidamente suas presas
amarelas. Ficou tentado a se encolher ainda mais, mas sa-
bia que qualquer movimento poderia arriscar a sua segu-
rana. Tinha que confiar na proteo de sua capa. Queria
fechar os olhos para aqueles rostos de animal, mas, por
algum motivo, no conseguia. Ele olhava com um terror
fascinado para os terrveis Wargals, criaturas sadas de um
pesadelo que cantavam incessantemente e passavam cor-
rendo.
       O mineiro celta no poderia ter perdido o passo em
lugar pior.
       Surrado por um dos Wargals, ele tropeou, camba-
leou e ento caiu na estrada, derrubando os prisioneiros
que estavam ao seu lado. Agora Will podia ver que eles
estavam amarrados, unidos por uma grossa guia de couro.
       Quando a coluna parou confusa, a cantoria foi in-
terrompida e se transformou numa serie de rosnados e
grunhidos. Os dois prisioneiros que foram derrubados lu-
tavam para se levantar debaixo de uma chuva de chicota-
das. O mineiro que tinha causado a queda estava deitado
quieto apesar da violenta surra que levava de um dos
Wargals.
       Finalmente, outro monstro se juntou ao primeiro e
comeou a bater na figura imvel com a haste de sua pe-
sada lana de ao. O mineiro no reagiu. Horrorizado,
Will percebeu que o homem estava morto. Por fim, os
Wargals tambm chegaram  mesma concluso. Ao co-
mando de um elemento que devia ser o encarregado, os
dois pararam de bater no homem morto e cortaram as
cordas que o ligavam  guia principal. Em seguida, apa-
nharam o corpo flcido e o jogaram na direo da vala
onde Will e os outros estavam escondidos.
       O corpo bateu nos arbustos perto da estrada, e Will
ouviu Evanlyn soltar um pequeno grito de medo. Com o
rosto para baixo, sem saber o que estava acontecendo, o
repentino baque nos arbustos evidentemente foi demais
para ela.
       O grito foi breve, mas o lder dos Wargals parecia
ter ouvido alguma coisa. Ele se virou e olhou com ateno
para o ponto em que o corpo estava deitado, perguntan-
do-se se o barulho tinha vindo do mineiro. Obviamente,
ele estava desconfiado de que o homem morto estivesse
apenas fingindo, numa tentativa de escapar. A criatura
apontou e gritou uma ordem, e o Wargal com a lana se
aproximou e a atravessou casualmente pelo corpo sem vi-
da.
       Mas o comandante ainda no estava satisfeito. Por
um longo momento, ele olhou para os arbustos e direta-
mente para o ponto em que Will estava deitado, enrolado
na camuflagem protetora de sua capa de arqueiro. O a-
prendiz se viu encarando fixamente os zangados olhos
vermelhos da coisa selvagem na estrada. Ele queria desviar
o olhar, pois estava convencido de que a criatura podia
v-lo. Mas todo o treinamento de Halt no ano anterior lhe
dissera que qualquer movimento naquele instante seria fa-
tal, e ele sabia que mover os olhos podia causar um mi-
nsculo movimento involuntrio de sua cabea. O verda-
deiro valor das capas camufladas no estava na magia em
que tantas pessoas acreditavam, mas na capacidade de
quem as usava de permanecer imvel debaixo de um e-
xame minucioso.
        Will continuou imvel, olhando para o Wargal. Sua
boca estava seca, seu corao saltava, batendo duas vezes
mais rpido do que o normal. Ele podia ouvir a respirao
pesada e ruidosa da figura parecida com um urso, ver as
narinas se torcendo ligeiramente enquanto farejava a brisa
leve, procurando odores desconhecidos.
        Finalmente, o Wargal se virou. Ento, de repente,
ele se virou novamente para olhar mais uma vez. Feliz-
mente, o treinamento de Will tambm o tinha preparado
para esse truque. O garoto no fez nenhum movimento.
Desta vez, o Wargal grunhiu e ento gritou uma ordem
para o grupo.
        Cantando de novo, eles recomearam a marchar,
deixando o homem morto na beira da estrada.
        Quando o som se afastou e eles desapareceram na
prxima curva, Will sentiu Horace se movendo atrs dele.
        -- Fique quieto! -- ele sussurrou irritado.
        Era possvel que um dos Wargals os observasse de
longe, um elemento que pudesse capturar fugitivos des-
cuidados que pensavam que o perigo tinha passado.
       Ele se obrigou a contar at cem antes de permitir
que os outros se mexessem, sassem rastejando de baixo
dos arbustos e esticassem o corpo rgido e dolorido.
       Fazendo um sinal para Horace levar Evanlyn de
volta ao local do acampamento, Will foi para a estrada
com cuidado para examinar o celta. Como tinha suspeita-
do, o homem estava morto. Era bvio que ele tinha sido
surrado muitas vezes nos ltimos dias. Seu rosto estava
machucado e cortado pelas chicotadas dos Wargals.
       No havia nada a fazer pelo homem, ento ele o
deixou onde estava e foi se reunir aos outros.
       Evanlyn estava sentada chorando. Quando ele se
aproximou, ela olhou para ele com a face marcada pelas
lgrimas. Seus ombros sacudiam com os fortes soluos
que a faziam estremecer. Horace estava ao lado dela com
uma expresso de impotncia no rosto, fazendo pequenos
movimentos inteis com as mos.
       -- Sinto muito -- Evanlyn finalmente conseguiu
falar. --  que.... a cantoria... aquelas vozes... eu me lem-
brei de tudo quando eles...
       -- Est tudo bem -- Will disse a ela baixinho. --
Meu Deus, eles so criaturas horrveis!
       Horace no tinha visto os Wargals, pois tinha fica-
do deitado o tempo todo, com o rosto colado no cho
arenoso. De certa forma, isso devia ter sido igualmente
apavorante.
       -- Como eles so? -- Horace perguntou em voz
baixa. Will hesitou. Era quase impossvel de descrev-los.
        -- Como bestas -- ele respondeu. -- Como ur-
sos... ou um cruzamento entre um urso e um cachorro.
Mas andam retos como homens.
        -- Eles so horrveis! -- Evanlyn exclamou estre-
mecendo. -- Criaturas horrveis, medonhas! Oh, meu
Deus. Nunca mais quero v-los!
        Will se aproximou dela e, desajeitado, deu-lhe tapi-
nhas no ombro.
        -- Eles j se foram -- ele disse devagar como se
estivesse acalmando uma criana pequena. -- Eles foram
embora e no vo machucar voc.
        Ela fez um esforo enorme, reuniu coragem e o-
lhou para Will com um sorriso assustado no rosto. Ela
pegou a mo de Will, consolando-se com esse simples
contato.
        Ele deixou que a moa segurasse sua mo por um
momento e se perguntou como iria contar para eles o que
tinha decidido fazer.
-- Seguir eles? Voc ficou louco?
       Horace, incapaz de acreditar no que estava ouvin-
do, olhou para a figura pequena e determinada do colega.
Will no disse nada, e Horace tentou de novo.
       -- Will, ns acabamos de passar meia hora escon-
didos atrs de um arbusto esperando que aquelas coisas
no nos vissem. Agora voc quer seguir elas e dar outra
chance a elas?
       Will olhou ao redor para se certificar de que Evan-
lyn ainda no podia escut-los. Ele no queria assustar a
garota desnecessariamente.
       -- Fale baixo -- ele avisou Horace, e o amigo falou
com mais suavidade, mas no com menos veemncia.
       -- Por qu? -- ele quis saber. -- O que podemos
ganhar seguindo os Wargals?
       Inquieto, Will apoiou o peso do corpo primeiro
num p e depois no outro. Francamente, a ideia de seguir
os Wargals j o estava assustando. Ele podia sentir o co-
rao batendo mais forte do que o normal. Eles eram cri-
aturas apavorantes e, evidentemente, destitudas de senti-
mentos de compaixo ou pena, como o destino do prisi-
oneiro tinha mostrado. Mesmo assim, ele achava que a-
quela era uma oportunidade que no podia ser perdida.
       -- Olhe -- ele disse devagar. -- Halt sempre me
disse que saber por que seu inimigo est fazendo uma
coisa  to importante quanto saber o que ele est fazen-
do. Na verdade, s vezes  at mais importante.
       Horace balanou a cabea teimoso.
       -- No entendo -- ele replicou.
       Para ele, a ideia de Will era um impulso louco, ir-
responsvel e assustadoramente perigoso.
       Para falar a verdade, Will no tinha certeza absoluta
de que estava com a razo. Mas as palavras de Gilan sobre
no mostrar insegurana soaram em seus ouvidos, e seus
instintos, aguados pelo treinamento recebido de Halt, lhe
diziam que no devia perder essa oportunidade.
       -- Sabemos que os Wargals esto capturando mi-
neiros celtas e levando eles embora. E sabemos que Mor-
garath no faz nada sem motivo. Esta pode ser a chance
de descobrir o que ele pretende.
       -- Ele quer escravos -- Horace retrucou dando de
ombros.
       -- Mas por qu? E por que apenas mineiros? E-
vanlyn disse que eles s estavam interessados nos minei-
ros. Por qu? Voc no percebe? Isso pode ser importan-
te. Halt diz que guerras muitas vezes sofrem uma virada
por causa de uma pequena informao.
        Horace apertou os lbios pensando no que Will ti-
nha dito.
        -- Est certo -- ele concordou finalmente. --
Talvez voc esteja certo.
        Horace no pensava depressa nem tinha ideias ori-
ginais, mas era metdico e,  sua maneira, lgico. Will ti-
nha visto instintivamente a necessidade de seguir os War-
gals. Horace teve que refletir a respeito. Agora, depois de
ter pensado, ele conseguia ver que Will no estava apenas
seguindo um impulso descontrolado e arriscado. Ele con-
fiava na linha de raciocnio do aprendiz de arqueiro.
        -- Bom, se vamos seguir eles,  melhor ns irmos
andando -- ele acrescentou, e Will o olhou surpreso.
        -- Ns? -- ele repetiu. -- Quem falou em ns?
Pretendo seguir eles sozinho. Sua funo  levar Evanlyn
de volta em segurana.
        -- Quem disse? -- o garoto maior perguntou um
tanto agressivo -- Eu tenho ordens, dadas por Gilan, de
ficar com voc e manter voc longe de problemas.
        -- Bem, eu estou mudando suas ordens -- Will re-
trucou, mas desta vez Horace riu.
        -- Ento, quem morreu e ps voc no lugar do
chefe? -- ele zombou.
        -- Voc no pode mudar minhas ordens. Gilan 
seu superior.
        -- E a garota? -- Will desafiou.
        Por um momento, Horace no soube o que res-
ponder.
       -- Vamos dar o cavalo de carga, comida e supri-
mentos para ela -- ele sugeriu. -- Ela pode voltar sozi-
nha.
       -- Isso  muito nobre de sua parte -- Will retrucou
sarcstico.
       -- Foi voc quem disse que  tremendamente im-
portante seguir os Wargals. -- Horace argumentou. --
Bom, acho que voc tem razo. Portanto, Evanlyn sim-
plesmente vai ter que assumir esse risco, assim como ns.
De qualquer jeito, agora estamos mais perto da fronteira e
mais uma noite de cavalgada vai ser suficiente para tirar
ela de Cltica.
       Na verdade, Horace no gostava da ideia de deixar
Evanlyn  prpria sorte. Ele tinha comeado a gostar
muito da garota. Ela era inteligente, divertida e boa com-
panhia. Mas o tempo passado na Escola de Guerra tinha
lhe dado um forte senso de dever, e sentimentos pessoais
vinham em segundo lugar.
       -- Posso viajar muito mais depressa sem voc --
ele ressaltou, mas Horace o interrompeu no mesmo ins-
tante.
       -- E da? No precisamos de velocidade para se-
guir os Wargals. Ns temos cavalos. No vamos ter pro-
blemas para alcanar eles, principalmente porque eles tm
de arrastar aqueles prisioneiros.
       Horace concluiu que estava gostando da experin-
cia de discutir com Will e ganhar alguns pontos. Talvez
passar algum tempo com os arqueiros tivesse feito mais
bem a ele do que tinha imaginado.
       -- Tm mais coisas: e se descobrirmos alguma coi-
sa realmente importante? E se voc quiser continuar se-
guindo eles e precisar enviar uma mensagem para o baro?
Se formos dois, poderemos nos separar. Posso levar a
mensagem enquanto voc continua a seguir os Wargals.
       Will pensou na ideia e teve que admitir que Horace
tinha razo. Fazia sentido ter algum em sua companhia.
       -- Tudo bem -- ele concordou finalmente. -- Mas
ns vamos ter que contar a Evanlyn.
       -- Contar o qu? -- a garota perguntou.
       Sem ser vista por nenhum dos rapazes, ela tinha se
aproximado at poucos metros de onde os garotos esta-
vam discutindo em voz baixa Os dois meninos se entreo-
lharam com ar de culpa.
       -- Hum... Will teve uma ideia, entende... -- Horace
comeou e parou, olhando para Will para ver se o amigo
iria continuar.
       Mas, como se viu a seguir, no houve necessidade.
       -- Vocs esto planejando seguir os Wargals -- a
menina disse secamente, e os dois aprendizes trocaram
olhares antes de Will responder.
       -- Voc estava escutando a nossa conversa? -- ele
acusou. Ela balanou a cabea.
       -- No.  a coisa bvia a fazer, no ? Esta  nossa
chance de descobrir o que eles pretendem fazer e por que
esto raptando mineiros.
        Pela segunda vez em alguns minutos, Will ouviu o
uso do plural.
        -- Nossa chance? -- ele repetiu. -- O que exata-
mente voc quer dizer com "nossa chance"?
        --  bvio que, se vocs dois forem segui-los, eu
vou junto -- ela retrucou dando de ombros. -- Vocs
no vo me deixar aqui sozinha no meio do nada.
        -- Mas... -- Horace comeou, e ela se virou e o-
lhou para ele com calma. -- Eles so os Wargals -- ele
completou.
        -- Eu sei -- ela respondeu.
        Horace lanou um olhar desanimado para Will. O
aprendiz de arqueiro deu de ombros, e Horace tentou ou-
tra vez:
        -- Vai ser perigoso. E voc...
        Ele hesitou, pois no queria lembr-la do medo que
tinha das criaturas e dos motivos para isso. Evanlyn per-
cebeu o que ele ia dizer e sorriu levemente.
        -- Olhe, tenho medo daquelas coisas -- ela con-
fessou. -- Mas suponho que vocs queiram segui-las, no
se juntar a elas.
        -- Foi essa a ideia -- Will concordou.
        -- Bom, com aquele barulho que fazem, no pre-
cisamos chegar muito perto -- ela argumentou virando-se
para olha-lo. -- Alm disso, esta pode ser a oportunidade
de estragar os planos que possam ter. Acho que vou gos-
tar disso.
       Will a observou com novo respeito. Ela tinha todos
os motivos para ter medo dos Wargals, mais do que ele ou
Horace. No entanto, estava disposta a ignorar esse medo
para dar um golpe em Morgarath.
       -- Tem certeza? -- ele perguntou finalmente.
       -- No. No tenho certeza de nada. Estou me sen-
tindo realmente nauseada diante da possibilidade de che-
gar perto daquelas coisas outra vez. Mas tambm no
gosto da ideia de ser abandonada aqui sozinha.
       -- No amos abandonar voc... -- Horace come-
ou, e ela se virou para ele.
       -- Ento como chama o que iam fazer? -- a garota
perguntou sorrindo levemente para no soar muito agres-
siva.
       -- Abandonar voc, eu acho -- ele admitiu depois
de hesitar um pouco.
       -- Exatamente -- ela respondeu. -- Assim, diante
das opes de me defrontar com outro grupo de Wargals,
ou outros bandidos, ou seguir alguns Wargals com vocs
dois, prefiro a ltima.
       -- Estamos somente a um dia da fronteira -- Will
informou. -- Depois que voc passar ela, vai estar relati-
vamente segura.
       Mas, determinada, ela sacudiu a cabea.
       -- Eu me sinto mais segura com vocs -- disse. --
Alm disso, eu talvez seja til. Serei mais uma para montar
guarda  noite. Isso significa que vocs vo dormir mais.
       -- At agora, essa  a primeira razo sensata que
ouvi para que ela nos acompanhe -- Horace disse.
       Como Will, ele compreendeu que ela j tinha to-
mado uma deciso. E, de alguma forma, os dois garotos
sabiam que quando Evanlyn fazia isso no havia nada no
mundo que a convencesse a mudar de ideia. Ela sorriu
para ele.
       -- Bom, vamos ficar parados aqui o dia todo, jo-
gando conversa fora? -- ela perguntou. -- Os Wargals
esto se afastando cada vez mais.
       E foi at onde os cavalos estavam amarrados.
Seguir os Wargals foi mais fcil do que parecia. As cria-
turas no eram inteligentes e se concentravam apenas na
tarefa que tinham recebido: levar os mineiros celtas para o
seu destino final. Eles no temiam nenhum ataque naquela
regio, pois j tinham expulsado todos os habitantes, de
modo que no colocaram espies para vigiar a retaguarda.
Sua cantoria constante, por mais ameaadora que pudesse
parecer no incio, tambm servia para mascarar quaisquer
sons que pudessem ser feitos por seus perseguidores.
        noite, eles simplesmente acampavam onde quer
que estivessem. Os mineiros continuavam acorrentados
uns aos outros, e sentinelas os vigiavam enquanto o resto
do grupo dormia.
       No incio do segundo dia, Will comeou a ter no-
o do rumo que os Wargals estavam tomando. Ele vinha
cavalgando uns 30 metros na dianteira, confiando que
Puxo pressentiria qualquer perigo  sua frente. Agora ti-
nha reduzido um pouco o ritmo, esperando que Horace e
Evanlyn o alcanassem.
        -- Parece que estamos indo para a fenda -- ele
disse bastante surpreso.
        Eles j podiam ver ao longe os penhascos altos que
se erguiam acima da enorme fenda na terra. Cltica era um
pas montanhoso, mas o domnio de Morgarath se levan-
tava centenas de metros acima dele
        -- Eu no gostaria de descer esses penhascos com
cordas e escadas -- Horace disse mostrando-os com um
gesto de cabea.
        -- Mesmo que voc conseguisse, teria que encon-
trar um local plano do outro lado -- Will afirmou. -- E,
aparentemente, eles so muito poucos. A maioria dos pe-
nhascos vai direto para o fundo.
        -- Mesmo assim, Morgarath conseguiu uma vez --
Evanlyn disse olhando para os dois. -- Talvez ele esteja
planejando atacar Araluen do mesmo jeito.
        Pensando no que ela tinha dito, Horace fez seu ca-
valo parar. Will e Evanlyn pararam ao lado dele. O apren-
diz de guerreiro mordeu o lbio por alguns segundos
quando lembrou as lies que os instrutores de sir Rodney
tinham ensinado.
        -- A situao  diferente -- ele afirmou finalmente.
-- A investida contra Cltica foi mais um ataque-surpresa
do que uma invaso. Ele certamente no precisou de mais
do que 500 homens para isso, e eles tiveram uma viagem
fcil. Para atacar Araluen, ele iria precisar de um exrcito e
no conseguiria fazer os homens descerem esses penhas-
cos e atravessassem eles com algumas escadas e pontes de
corda.
       Will observou Horace com interesse. Aquele lado
do amigo era novo para ele. Aparentemente, o aprendiza-
do do amigo nos ltimos sete ou oito meses tinha ido a-
lm das simples habilidades com a espada.
       -- Mas certamente se ele tivesse tido tempo e... --
Will comeou, mas Horace balanou a cabea outra vez,
com mais determinao.
       -- Homens, sim, ou Wargals, neste caso. Com
tempo suficiente, eles conseguiriam. Levaria meses, mas
eles conseguiriam. Embora, quanto mais tempo levasse,
maiores seriam as chances de que as notcias sobre os a-
contecimentos se espalhassem. Mas um exrcito precisa
de equipamento: armas pesadas, carroas de suprimentos,
provises, barracas, armas extras, equipamentos de ferrei-
ro para reparos, cavalos e bois para puxar as carroas. Se-
ria impossvel descer tudo isso nesses penhascos. E,
mesmo que conseguissem, como iriam atravessar para o
outro lado? Simplesmente no  vivel. Sir Karel costu-
mava dizer que...
       Ele percebeu que os outros dois o estavam obser-
vando com certo respeito e corou.
       -- No tinha inteno de falar sem parar -- ele
murmurou e fez o cavalo andar novamente.
       Will estava impressionado com a compreenso do
amigo sobre o assunto.
       -- No foi problema nenhum -- ele disse. -- Tu-
do o que voc falou est certo.
       -- Ainda resta a pergunta: o que ele pretende? --
Evanlyn ajuntou.
       -- Acho que ns vamos descobrir bem depressa --
ele disse impelindo Puxo para a frente para assumir a li-
derana mais uma vez.




       Eles descobriram na noite seguinte.
       Como antes, o primeiro indcio do que estava a-
contecendo veio atravs de um som: o retinir e bater de
martelos atingindo pedras ou madeira. Ento eles ouviram
um som mais agudo  medida que se aproximavam. Era
um estalido constante, mas irregular. Will fez sinal para os
outros pararem e, desmontando, avanou com cuidado ao
longo da estrada at a curva final.
       Encoberto pela capa e se movendo cuidadosamente
de um esconderijo para outro, ele se afastou da estrada e
atravessou o campo at encontrar um ponto de onde pu-
desse ver o prximo trecho da estrada. Quase imediata-
mente, viu o alto de uma imensa estrutura de madeira em
construo: quatro torres de madeira unidas por grossas
cordas e uma estrutura de troncos. Com o corao aper-
tado, Will j sabia o que estava vendo. Mas ele se aproxi-
mou para ter certeza.
       Era como temia. Uma imensa ponte de madeira es-
tava no estgio final de construo. No lado extremo da
fenda, Morgarath tinha descoberto um dos poucos lugares
onde havia uma salincia estreita quase no mesmo nvel
do lado celta. A salincia natural tinha sido cavada e alar-
gada at que houvesse um trecho de cho plano e de bom
tamanho. As quatro torres estavam em p, duas de cada
lado da fenda, unidas por grossos cabos feitos de corda.
Apoiado por elas, havia um caminho de madeira constru-
do at metade, capaz de levar seis homens para o outro
lado sobre as estonteantes profundezas da fenda.
       Vultos reconhecveis como prisioneiros celtas fer-
vilhavam sobre a estrutura, martelando e serrando. O esta-
lido era provocado pelos chicotes usados pelos vigias
Wargals.
       O som dos martelos sobre a pedra vinha da boca
de um tnel que se abria para a salincia, cerca de uns 50
metros ao sul da ponte. O tnel era pouco mais que uma
fenda na parede do penhasco -- apenas um pouco mais
larga que os ombros de um homem. Os prisioneiros celtas
trabalhavam arduamente na entrada, golpeando a pedra
dura, alargando e aumentado a pequena abertura.
       Will olhou para os penhascos escuros que se er-
guiam do outro lado. No havia sinal de cordas ou escadas
que levassem para a salincia. Os Wargals e seus prisio-
neiros certamente a alcanavam pela fenda estreita na ro-
cha.
       O grupo que tinham seguido estava cruzando a
fenda naquele momento. Os ltimos 15 metros da estrada
ainda precisavam ser construdos, e apenas uma passarela
provisria de madeira estava em seu lugar, Ela mal era
larga o bastante para que os celtas fizessem a travessia a-
correntados aos pares como estavam, mas os mineiros de
Cltica estavam acostumados a andar em lugares estra-
nhos e descidas vertiginosas, por isso no houve inciden-
tes.
       Will tinha visto o bastante. Era hora de voltar. Es-
condido pelas rochas, ele andou de costas com dificulda-
de. Ento, quase se dobrando em dois, correu de volta
para onde os dois companheiros o esperavam.
       Quando l chegou, ele se deixou cair, recostando-se
nas pedras. A tenso dos ltimos dois dias estava come-
ando a surtir efeito, juntamente com a presso de estar
no comando. Ele ficou um pouco surpreso ao perceber
que estava fisicamente exausto, pois no tinha ideia de que
a tenso mental pudesse esgotar uma pessoa to intensa-
mente.
       -- Ento, o que est acontecendo? Voc viu algu-
ma coisa? -- Horace quis saber.
       Cansado, Will olhou para ele.
       -- Uma ponte -- contou. -- Eles esto constru-
indo uma ponte enorme.
       Espantado com aquilo, Horace ficou srio.
       -- Por que Morgarath iria querer uma ponte?
       -- Eu disse que  uma ponte enorme. Grande o
bastante para fazer atravessar um exrcito. Ns discutimos
que Morgarath no poderia passar um exrcito e todo o
equipamento pelos penhascos e para o outro lado da fen-
da e, durante todo esse tempo, ele estava construindo uma
ponte para isso.
       --  por isso que ele queria os celtas -- Evanlyn
constatou. Os dois garotos a olharam, e ela continuou.
       -- Eles so exmios construtores e sabem como
fazer tneis. Os Wargals no teriam a capacidade de reali-
zar um empreendimento desses.
       -- Eles tambm esto abrindo um tnel -- Will
informou. -- No outro extremo, esto alargando uma
pequena fenda parecida com a entrada de uma caverna.
       -- Para onde leva? -- Horace perguntou, e Will
deu de ombros.
       -- No sei. Talvez seja importante descobrir. Afi-
nal, o planalto do outro lado ainda est centenas de me-
tros acima deste ponto. Mas deve haver algum acesso en-
tre os dois, pois no h sinal de cordas ou escadas.
       Horace se levantou e comeou a andar de um lado
para outro, analisando essa nova informao. Seu rosto
estava srio e pensativo.
       -- No entendo -- ele disse finalmente.
       -- No  to difcil de entender -- Will retrucou
com alguma aspereza. -- H uma ponte imensa sendo
construda sobre a fenda, grande o bastante para que
Morgarath, e todos os seus Wargals, e suas carroas de
suprimentos, e seus ferreiros, e seus bois passem danan-
do.
       Horace esperou que Will terminasse seu discurso e
ento inclinou a cabea para o lado.
       -- Terminou? -- ele disse com suavidade, e Will,
percebendo que tinha exagerado um pouco, fez um vago
gesto de desculpas. Horace continuou.
       -- O que eu no entendo -- ele disse pronuncian-
do as palavras com cuidado --  por que isso nunca foi
mencionado naqueles planos que vocs acharam.
       -- Planos? -- Evanlyn perguntou olhando para e-
les curiosa. -- Que planos?
       Mas Will, percebendo que Horace tinha tocado
num ponto muito importante, fez um gesto para que ela
esperasse a explicao.
       -- Voc tem razo -- ele disse devagar. -- Os
planos nunca mencionaram uma ponte sobre a fenda.
       -- E no se trata de uma obra pequena.  de se
imaginar que isso seria mencionado em algum lugar --
Horace afirmou.
       Will assentiu. Evanlyn, muito mais curiosa do que
antes, repetiu a pergunta.
       -- Que planos so esses de que vocs falam tanto?
       Percebendo o quanto a conversa dos dois devia ser
frustrante para ela, Horace ficou com pena da garota.
       -- Will e Halt, o mestre de ofcio dele, pegaram
uma cpia dos planos de batalha de Morgarath h algumas
semanas. Havia muitos detalhes sobre como suas foras
iam sair das Montanhas atravs do Desfiladeiro dos Trs
Passos. Havia at a data em que iam fazer isso e como os
mercenrios escandinavos iam ajudar eles. S que no fa-
lava dessa ponte.
       -- Por que no? -- Evanlyn perguntou.
       Mas Will estava comeando a entender o que Mor-
garath tinha em mente, e seu pavor cresceu ainda mais.
       -- A menos que Morgarath quisesse que achsse-
mos esses planos -- ele disse.
       -- Isso  loucura -- Horace disse no mesmo ins-
tante. -- Afinal, um de seus homens morreu na operao.
       -- E isso iria impedir Morgarath? -- Will retrucou
olhando para o amigo. -- Ele no se importa com a vida
de outras pessoas. Vamos pensar. Halt tem um ditado:
Quando no se v o motivo de alguma coisa, veja qual  o
possvel resultado e se pergunte quem pode se beneficiar
dele.
       -- E qual foi o resultado de voc encontrar esses
planos? -- Evanlyn questionou.
       -- O rei Duncan deslocou o exrcito para as Plan-
cies de Uthal para bloquear o Desfiladeiro dos Trs Pas-
sos -- Horace respondeu prontamente.
       Evanlyn assentiu e passou para a segunda parte da
equao.
       -- E quem iria se beneficiar disso?
       Will olhou para ela. Ele notou que a garota tinha
chegado  mesma concluso que ele.
        -- Morgarath. Se aqueles planos eram falsos... --
ele disse muito devagar.
        Evanlyn concordou. Horace no entendeu a con-
cluso com a mesma rapidez.
        -- Falsos? O que voc quer dizer?
        -- Quero dizer que Morgarath queria que achs-
semos aqueles planos. Ele queria que todo o exrcito de
Araluen se reunisse nas Plancies de Uthal. Porque o Des-
filadeiro dos Trs Passos no  o lugar em que o verda-
deiro ataque vai acontecer. O ataque real vai vir daqui: um
ataque-surpresa pelas costas. E nosso exrcito vai ser en-
curralado e destrudo.
        Horace arregalou os olhos horrorizado. Ele conse-
guia imaginar o resultado de um ataque macio pela reta-
guarda. O exrcito de Araluen seria pego por escandina-
vos e Wargals pela frente e por outro exrcito de Wargals
pela retaguarda. Era a receita do desastre: o tipo de desas-
tre que todos os generais temiam.
        -- Ento precisamos contar isso a eles -- ele disse.
-- Agora mesmo!
        -- Temos que contar isso a eles -- Will concordou.
-- Mas tem mais uma coisa que quero ver. Aquele tnel
que esto cavando. No sabemos se est terminado e para
onde vai. Quero dar uma olhada nele hoje  noite.
        Mas Horace discordou do amigo antes mesmo de
este terminar de falar.
        -- Will, ns temos que ir agora. No podemos ficar
aqui s para satisfazer sua curiosidade.
       -- Voc est certo, Horace -- Evanlyn disse e ps
fim  discusso. -- O rei precisa saber disso o mais rpido
possvel. Mas temos que ter certeza de no levar outra in-
formao errada para ele. Podem faltar semanas para que
o tnel de que Will est falando esteja terminado. Ou ele
pode levar para um beco sem sada. Toda essa coisa pode
ser outro estratagema para convencer o exrcito a dividir
foras para proteger a retaguarda. Temos que descobrir o
mximo que pudermos. Se isso significa esperar mais al-
gumas horas, ento acho que devemos ficar.
       Will olhou para a garota com curiosidade. Ela cer-
tamente parecia ter mais autoridade e deciso do que se
esperaria da criada de uma dama. Ele decidiu que a teoria
de Gilan estava correta.
       -- Vai escurecer dentro de uma hora, Horace. Va-
mos fazer a travessia hoje  noite e ver as coisas de perto.
       Horace olhou para os dois companheiros. No es-
tava satisfeito. Seu instinto o mandava partir naquele mo-
mento, o mais rpido possvel, e contar as notcias sobre a
ponte. Mas ele estava em minoria. E ainda acreditava que
os poderes de deduo de Will eram melhores que os dele.
"Sou treinado para agir, no para esse tipo de raciocnio
tortuoso", pensou. E, com relutncia, ele se deixou con-
vencer.
       -- Tudo bem -- disse. -- Vamos dar uma olhada
em tudo  noite. Mas amanh ns partimos.
       Enrolado na capa e se movendo com cuidado, Will
voltou ao seu ponto de observao. Analisou a ponte com
ateno, imaginando que Halt esperaria que ele desenhas-
se uma planta precisa da estrutura.
        Pouco mais de dez minutos depois, Will ouviu o
som forte de uma corneta.
        O susto o paralisou. Por um momento, pensou que
era um alarme e que uma sentinela o tinha visto se mover
entre as rochas. Ento ouviu outras chicotadas e os gritos
roucos dos Wargals e, quando levantou a cabea, viu que
eles estavam tirando os celtas do tnel e levando-os para a
ponte semi-acabada. Enquanto andavam, os prisioneiros
guardavam as ferramentas em sacos. Os Wargals comea-
ram a prend-los a uma corda central.
        Ao olhar para o oeste, Will viu a ltima curva do
sol se escondendo atrs das colinas e se deu conta de que
a cometa simplesmente tinha anunciado o fim de um dia
de trabalho. Agora os prisioneiros estavam sendo devol-
vidos para o lugar onde ficavam presos.
        Houve uma breve discusso, a alguns metros da
entrada do tnel, quando dois prisioneiros celtas pararam
para tentar levantar uma figura cada. Zangados, os War-
gals saltaram para a frente, afastando os mineiros com
chicotadas e obrigando-os a deixar a figura imvel onde
estava
        Ento, um depois do outro, passaram pela entrada
estreita do tnel e desapareceram.
        As sombras da enorme ponte se estendiam com-
pridas sobre as colinas. Will continuou imvel por outros
dez minutos, esperando para ver se algum Wargal iria rea-
parecer no tnel. Mas no houve nenhum barulho, ne-
nhum sinal de ningum voltando. Somente o vulto imvel
deitado na entrada do tnel. Na luz que desaparecia rapi-
damente, Will no conseguia enxerg-lo claramente. Pare-
cia ser o corpo de um mineiro, mas ele no tinha certeza.
        Ento a figura se moveu, e Will percebeu que,
quem quer que fosse, ainda estava vivo.
Andando     com cuidado, Will e Horace avanaram pela
prancha estreita que cobria os ltimos 15 metros da fenda.
Will, com seu excelente preparo para enfrentar alturas,
poderia ter corrido com facilidade sobre ela, sem proble-
mas, mas caminhou devagar em considerao ao seu ami-
go, maior e menos gil.
       Quando eles finalmente chegaram  estrada acaba-
da, Horace soltou um suspiro de alvio. Em seguida, os
dois examinaram a estrutura por alguns momentos. Ela
tinha sido construda com a perfeio pela qual os celtas
eram conhecidos. Como nao, tinham desenvolvido a
arte de abrir tneis e pontes ao longo dos sculos, e aquela
era uma tpica estrutura resistente.
       O cheiro das tbuas de pinho recm-serradas en-
chia o ar frio da noite e, alm disso, havia outro cheiro
doce e aromtico. Por um instante, eles olharam um para
o outro confusos, mas logo Horace reconheceu o aroma.
       -- Piche -- afirmou.
       Eles olharam ao redor e constataram que os gros-
sos cabos de corda e as cordas de apoio estavam cobertos
com uma grossa camada da substncia. Will tocou um de-
les e ficou com a mo grudenta.
        -- Acho que o piche no deixa as cordas apodre-
cerem e arrebentarem -- ele deduziu com cautela, perce-
bendo que os cabos principais tinham sido construdos
com trs cordas grossas tranadas generosamente cobertas
com piche. Alm disso,  medida que o piche endurecia,
ele unia as trs cordas permanentemente.
        -- Nenhum guarda? -- Horace indagou olhando
ao redor. Havia uma nota de desapontamento em sua voz.
        -- Ou eles esto muito confiantes, ou so muito
descuidados -- Will concordou.
        A noite j estava adiantada, mas a Lua ainda no
tinha surgido. Will foi at a margem direita da fenda. Ho-
race abriu o estojo da espada e o seguiu.
        O vulto da entrada do tnel estava deitado do
mesmo jeito que Will o tinha visto pela ltima vez. No
houve mais nenhum sinal de movimento. Os dois garotos
se aproximaram dele com cuidado e se ajoelharam ao seu
lado. Agora viam que se tratava de um mineiro celta. Seu
peito subia e descia, mas mal se movia.
        -- Ele ainda est vivo -- Will sussurrou.
        -- Est por um fio -- Horace retrucou.
        Ele colocou o dedo indicador no pescoo do celta
para sentir o pulso. Ao toque, o homem abriu os olhos
devagar e olhou para os dois sem entender o que estava
acontecendo.
        -- Quem... vocs? -- ele conseguiu gemer.
       Will tirou o cantil do ombro e umedeceu os lbios
do homem com um pouco de gua. A lngua se moveu
avidamente na superfcie mida, e o homem gemeu outra
vez, tentando se apoiar num cotovelo.
       -- Mais.
       Delicadamente, Will fez que ele parasse de se mexer
e lhe deu um pouco mais de gua.
       -- Descanse tranquilo, amigo -- ele disse baixinho.
-- No vamos machucar voc.
       Era bvio que algum o tinha machucado, e muito.
O rosto dele estava manchado de sangue seco que tinha
escorrido de dezenas de cortes de chicote. Sua jaqueta de
couro estava cortada e rasgada, e o peito nu mostrava si-
nais de outras chicotadas, recentes e antigas.
       -- Quem  voc? -- Will perguntou com suavida-
de.
       -- Glendyss -- o homem suspirou parecendo se
surpreender com o som do prprio nome.
       Ele ento tossiu. Uma tosse rouca e spera que fez
seu peito estremecer. Will e Horace trocaram olhares tris-
tes. Perceberam que Glendyss no ia viver muito.
       -- Quando voc veio para c? -- Will perguntou
ao homem e deixou que mais gua escorresse entre seus
lbios secos e ressecados.
       -- Meses... -- Glendyss respondeu numa voz que
eles mal podiam ouvir. -- Estou aqui h muitos meses...
trabalhando no tnel.
       Novamente, os dois garotos se entreolharam. Tal-
vez o homem estivesse dizendo coisas sem sentido.
       -- Meses? -- Will repetiu. -- Mas os ataques dos
Wargals s comearam h um ms, no  mesmo?
       Mas Glendyss estava balanando a cabea. Ele ten-
tou falar, tossiu e se acalmou, juntando as foras que co-
meavam a sumir. Ento falou to baixinho que Will e
Horace tiveram que se aproximar mais para ouvir.
       -- Eles nos capturaram h quase um ano... de to-
dos os lugares. Secretamente... um homem aqui, dois ali...
50 no total. Hoje... a maioria est morta. Eu vou morrer
logo.
       Ele parou, respirando com dificuldade. O esforo
para falar era quase insuportvel para ele. Will e Horace
olharam um para o outro atordoados com a nova infor-
mao.
       -- Como ningum percebeu que isso estava acon-
tecendo? -- Horace perguntou ao amigo. -- Quer dizer,
50 pessoas desaparecem e ningum fala nada?
       -- Ele disse que foram sequestradas de vrias vilas
em Cltica -- Will retrucou. -- Assim, quando se trata do
desaparecimento de um ou dois homens... as pessoas po-
dem ficar sabendo nas prprias vilas, mas ningum sabe
de tudo o que acontece nas outras.
       -- Mesmo assim -- Horace continuou --, por que
fazer isso? E por que agora esto fazendo tudo aberta-
mente?
        -- Talvez a gente tenha uma ideia se dermos uma
olhada por a -- Will respondeu encolhendo ombros.
        Eles hesitaram indecisos, sem saber o que fazer
com o vulto encolhido e ferido. Enquanto esperavam, a
Lua nasceu e se elevou sobre as colinas, enchendo a ponte
e a rampa com uma luz plida e suave. Ela tocou o rosto
de Glendyss e ele abriu os olhos. Fraco, tentou levantar o
brao para evitar a luz e, gentilmente, Will se inclinou so-
bre ele para proteg-lo.
        -- Estou morrendo -- o mineiro disse com repen-
tina clareza e um sentimento de paz.
        Will hesitou e ento concordou com simplicidade.
        -- Sim.
        No adiantaria mentir para ele, tentar alegr-lo a-
firmando que tudo ficaria bem. Ele estava morrendo, e
todos sabiam disso. Seria melhor deix-lo se preparar,
deix-lo enfrentar a morte com calma e dignidade. A mo
se agarrou debilmente na manga de Will, e ele a segurou,
apertando-a com delicadeza, deixando que o celta sentisse
o contato com outra pessoa.
        -- Garotos -- ele disse fracamente. -- No me
deixem morrer aqui... na luz.
        Novamente, Horace e Will trocaram olhares.
        -- Quero a paz fora da luz -- ele continuou baixi-
nho e, de repente, Will compreendeu.
        -- Acho que os celtas gostam da escurido. Afinal,
eles passam a maior parte da vida em tneis e minas. Tal-
vez seja isso o que ele quer.
       -- Glendyss? -- Horace chamou e se inclinou para
a frente. -- Voc quer que a gente leve voc para dentro
do tnel?
       O mineiro virou a cabea na direo de Horace e
assentiu levemente. S o suficiente para que eles enten-
dessem o gesto.
       -- Por favor -- ele sussurrou -- me levem para
fora da luz.
       Horace concordou com um gesto de cabea e es-
corregou os braos sob os ombros e joelhos do celta para
levant-lo. Glendyss era pequeno, e as semanas que tinha
passado em cativeiro obviamente tinham sido uma poca
de fome. Ele era uma carga leve para Horace.
       Quando o aprendiz de guerreiro ergueu o corpo do
celta nos braos, Will fez sinal para que parasse. Ele per-
cebeu que, assim que o homem estivesse na paz do tnel
escuro, soltaria o tnue fio que o prendia  vida. E havia
mais uma pergunta que Will precisava fazer.
       -- Glendyss -- ele disse baixinho. -- Quanto
tempo ns temos?
       Sem compreender, o mineiro olhou para ele can-
sado. Will tentou outra vez.
       -- Quanto tempo temos antes que terminem a
ponte?
       Desta vez, ele viu um brilho de compreenso no
olhar de Glendyss, e o celta pensou por alguns segundos.
       -- Cinco dias -- ele respondeu. -- Talvez quatro.
Mais trabalhadores chegaram hoje... ento, talvez quatro.
       Em seguida, ele fechou os olhos como se o esforo
tivesse sido excessivo. Por um segundo, parecia que o
homem tinha morrido. Mas ento o peito dele subiu num
tremor intenso e ele continuou a respirar.
       -- Vamos levar ele para o tnel -- Will disse.
       Eles passaram com dificuldade pela abertura estrei-
ta. Nos primeiros 10 metros, as paredes do tnel estavam
prximas o suficiente para serem tocadas. Ento comea-
ram a se abrir,  medida que os resultados do trabalho dos
celtas se tornavam evidentes. O lugar era escuro e aperta-
do, iluminado apenas pelas fracas chamas das tochas ins-
taladas em suportes a cada 10 ou 12 metros. Algumas
proporcionavam apenas uma luz intermitente e incons-
tante. Horace olhou ao redor inquieto. Ele no gostava de
alturas e, definitivamente, no gostava de lugares fecha-
dos.
       -- Aqui est a resposta -- Will disse. -- Morgarath
precisava daqueles primeiros 50 mineiros para fazer este
trabalho. Agora que o tnel est quase terminado, precisa
de mais homens para construir a ponte o mais rpido pos-
svel.
       -- Voc tem razo -- Horace concordou. -- A
abertura do tnel levaria meses, mas ningum poderia ver
o que estava acontecendo. Depois de comear a construir
a ponte, o risco de ser descoberto seria muito maior.
       No fundo do tnel, eles encontraram uma pequena
rea arenosa, quase uma gruta, num dos lados, e deitaram
Glendyss nela. Will percebeu que aquilo devia ter sido o
que os dois celtas estavam tentando fazer pelo colega
quando a corneta soou anunciando o fim do dia de traba-
lho.
       -- Eu me pergunto o que os Wargals vo pensar
quando encontrarem ele aqui, amanh -- ele hesitou.
       -- Talvez pensem que se arrastou at aqui sozinho
-- Horace sugeriu dando de ombros.
       Will pensou nisso. Estava indeciso. Mas ento ob-
servou a expresso tranquila no rosto do mineiro que a-
gonizava na luz fraca e no conseguiu tornar a levar o
homem de volta para fora.
       -- S coloque ele um pouco mais para dentro, o
mais fora da vista possvel -- ele pediu.
       Havia um pequeno cotovelo na rocha, e Horace
colocou o mineiro atrs dele com delicadeza. Agora, s
podia ser visto se algum olhasse com ateno, e Will de-
cidiu que estava bom demais. Horace voltou para o tnel
principal, e Will percebeu que, agitado, o amigo ainda o-
lhava em volta.
       -- O que vamos fazer agora? -- Horace pergun-
tou.
       -- Voc pode esperar por mim aqui -- Will res-
pondeu, tomando uma deciso. -- Eu vou ver at onde
vai este tnel.
       Horace no discutiu. O pensamento de entrar no
fundo do tnel escuro e sinuoso no lhe agradava nem um
pouco. Ele encontrou um lugar para se sentar, perto de
uma das tochas mais brilhantes.
      -- S prometa que vai voltar -- ele pediu. -- No
quero ter que ir procurar voc.
O tnel, plano no incio, comeou a descrever uma subi-
da ngreme  medida que Will continuava a andar, dei-
xando Horace para trs. As paredes e o cho mostravam
sinais das enxadas e brocas dos celtas quando rasgaram e
quebraram as pedras para alargar o caminho.
       Will adivinhou que o estreito tnel original no ti-
nha sido nada mais do que uma fenda natural na pedra;
uma simples fenda. E viu que ela tinha sido muito alarga-
da at haver espao para quatro ou cinco homens anda-
rem lado a lado. E mesmo assim ela subia at o corao
das montanhas.
       Um crculo de luz mostrou o fim do tnel. Ele cal-
culou que talvez tivesse andado 300 metros ao todo, e o
fim estava a uns 40 de distncia. A luz que via parecia ser
mais forte do que a simples luz da Lua e, quando saiu
cuidadosamente do tnel, descobriu o motivo.
       Ali as colinas se separavam e formavam um grande
vale de cerca de 200 metros de largura e meio quilmetro
de comprimento. De um lado, a luz da Lua mostrava i-
mensas estruturas de madeira que levavam a trechos mais
elevados do planalto. Depois de observ-las por alguns
momentos, ele percebeu que eram escadas. O cho do va-
le era iluminado por fogueiras de acampamento, e havia
centenas de vultos se movendo na luz trmula e alaranja-
da. Will deduziu que ali devia ser a rea onde o exrcito de
Morgarath iria se reunir. Naquele momento, era onde os
Wargals mantinham os prisioneiros celtas  noite.
       Ele parou, tentando formar uma imagem de toda a
situao. O planalto que formava a maior parte do dom-
nio de Morgarath ainda estava pelo menos 50 metros aci-
ma daquele ponto. Mas os degraus e o declive menos forte
das colinas ao redor facilitariam o acesso ao vale. O vale
em si devia estar aproximadamente 30 metros acima do
nvel em que estava a ponte. O tnel em declive levaria as
tropas at a ponte. Mais uma vez, as palavras de Halt eco-
aram em seu ouvido: nenhum lugar  realmente imposs-
vel de atravessar.
       Ele foi para a esquerda da entrada do tnel e se es-
condeu num amontoado de rochas e pedras enormes, para
avaliar a situao. Havia um alambrado tosco no centro do
vale. Dentro da cerca de madeira, ele viu vrias fogueiras
pequenas, cada uma com um grupo de pessoas sentadas
ou espalhadas ao seu redor. Aquele certamente era o re-
cinto dos prisioneiros.
       Fogueiras maiores fora do recinto marcavam os lu-
gares onde os Wargals estavam acampados. Ele viu as e-
normes formas cambaleantes com clareza contra a luz do
fogo. No entanto, havia uma fogueira perto dele que pare-
cia diferente. Os vultos pareciam mais eretos, e a forma
como ficavam em p e andavam tinha um aspecto mais
humanide. Curioso, ele procurou se aproximar, esguei-
rando-se pela noite quase sem fazer nenhum barulho,
movendo-se rapidamente de um esconderijo para outro
at chegar  beira do crculo de luz oferecido pelo fogo --
um ponto em que sabia que a escurido, por contraste, iria
parecer mais forte para os que estavam sentados ao redor
do fogo.
       Havia um pedao de carne assando lentamente no
fogo, e o cheiro o fez ficar com gua na boca. Ele tinha
viajado por dias comendo raes frias, e a carne enchia o
ar com um aroma delicioso. Will sentiu o estmago roncar
e o medo percorrer seu corpo. Seria o mximo da falta de
sorte ser trado por um estmago barulhento. O medo
resolveu o problema matando seu apetite. Com a fome
mais ou menos sob controle, ele espiou por trs de uma
rocha baixa perto do cho para poder ver melhor os vul-
tos que comiam junto do fogo.
       Um deles se inclinou para a frente para cortar um
pedao de carne, fazendo malabarismos com o pedao de
comida quente e gorduroso na mo depois de apanh-lo.
O movimento fez que a luz do fogo brilhasse diretamente
sobre ele, e Will viu que aqueles no eram Wargals. A cal-
cular por seus coletes rsticos de pele de ovelha, calas de
l amarradas com fitas e pesadas botas de pele de foca,
constatou que eram escandinavos.
       Uma observao mais cuidadosa o fez ver os capa-
cetes com chifres, escudos redondos de madeira e achas
empilhados num dos lados do acampamento. Ele se per-
guntou o que estariam fazendo ali, to longe do oceano.
       O homem que tinha se mexido terminou de comer
a carne e limpou as mos no colete de pele de carneiro.
Ele arrotou e se ajeitou numa posio mais confortvel
perto do fogo.
       -- Vou ficar muito satisfeito quando os homens de
Ovlak chegarem -- ele disse no sotaque rstico e quase
indecifrvel da Escandinvia.
       Will sabia que os escandinavos falavam a mesma
lngua do reino, mas ao ouvi-la agora pela primeira vez ele
quase no a reconheceu.
       Os outros lobos do mar concordaram grunhindo.
Havia quatro deles em volta do fogo. Will foi um pouco
para a frente para ouvi-los melhor e ento ficou paralisa-
do, horrorizado, quando viu o inconfundvel vulto cam-
baleante de um Wargal se movendo diretamente em sua
direo do outro lado do fogo.
       Os escandinavos escutaram quando ele se aproxi-
mou e olharam para cima cautelosos. Com uma forte sen-
sao de alvio, Will percebeu que a criatura no estava
andando at ele, mas sim at a fogueira dos escandinavos.
       -- Opa -- disse um dos escandinavos em voz bai-
xa. -- A vem uma das belezas de Morgarath.
        O Wargal tinha parado do outro lado do fogo. Ele
grunhiu alguma coisa ininteligvel para o grupo de homens
do mar. O que tinha acabado de falar deu de ombros.
        -- Desculpe, bonito. No entendi o que voc dis-
se.
        Em sua voz, havia um toque evidente de hostilida-
de, que o Wargal pareceu perceber. Ele repetiu a frase,
agora zangado. Novamente, o crculo de guerreiros escan-
dinavos deu de ombros.
        O Wargal grunhiu novamente, cada vez mais furi-
oso. Apontou para a carne que pendia sobre o fogo e de-
pois para si mesmo. Em seguida gritou para os escandi-
navos mostrando com gestos que queria comer.
        -- O brutalho feio quer nossa carne -- um dos
escandinavos disse.
        Um baixo rosnado de descontentamento saiu do
grupo.
        -- Ele que cace a prpria carne -- disse o primeiro
homem.
        O Wargal entrou no crculo. Ele tinha parado de
gritar. Simplesmente apontou para a carne e voltou os o-
lhos vermelhos e brilhantes para o homem que tinha fa-
lado. De alguma forma, o silncio era mais ameaador do
que seus gritos.
        -- Cuidado, Erak -- avisou um dos escandinavos.
-- Somos em menor nmero neste momento.
       Erak fez cara feia para o Wargal durante um se-
gundo e ento pareceu entender a sensatez do conselho
do amigo.
       -- V em frente. Pegue -- ele disse com aspereza e
fez um gesto zangado em direo  carne.
       O Wargal se aproximou, pegou o espeto de madeira
do fogo e deu uma grande mordida na carne, arrancando
um bom pedao. Mesmo de onde estava, quase sem ousar
respirar, Will viu a luz feia de triunfo nos olhos vermelhos
do animal. Em seguida, o Wargal se virou abruptamente e
saiu do crculo, obrigando alguns dos escandinavos a se
afastarem depressa para no serem pisoteados. Eles ouvi-
ram seu riso gutural desaparecendo na escurido.
       -- Essas coisas horrveis me do arrepios -- Erak
murmurou. -- No sei por que temos que ficar com eles.
       -- Porque Horth no confia em Morgarath -- um
dos outros retrucou. -- Se no estivermos com eles, esses
malditos homens-urso vo ficar com todo o produto do
roubo para eles, e tudo o que receberemos vai ser a bata-
lha terrvel nas Plancies de Uthal.
       -- E uma marcha dura -- outro acrescentou. -- O
que tambm no seria nada divertido de fazer, mesmo
com os homens de Horth. Dar a volta na Floresta Thorn-
tree para surpreender o inimigo pela retaguarda vai ser
bem difcil, pode ter certeza.
       Will franziu a testa quando ouviu essas palavras.
Evidentemente, Morgarath e Horth, que Will imaginou ser
um lder guerreiro escandinavo, estavam planejando outra
surpresa traioeira para as foras do reino. Ele tentou vi-
sualizar o mapa das terras que cercavam as plancies de
Uthal, mas as lembranas eram vagas. Deveria ter presta-
do mais ateno s aulas de geografia de Halt.
        -- Por que geografia  to importante? -- ele se
lembrou de ter perguntado ao professor.
        -- Porque mapas so importantes se voc quiser
saber onde o seu inimigo est e para onde vai -- tinha si-
do a resposta.
        Aborrecido, Will percebeu naquele momento como
o mestre estava certo. De repente, ao pensar no seu sbio
e capaz professor, Will se sentiu muito s e bastante per-
dido.
        -- Seja como for -- Erak dizia --, as coisas vo ser
diferentes quando os homens de Ovlak chegarem. Embo-
ra parea que eles esto levando tempo demais para isso.
        -- Relaxe -- disse um colega. -- Leva alguns dias
para conduzir 500 homens pelos Penhascos do Sul. Lem-
bre o tempo que ns levamos.
        --  -- disse outro. -- Mas ns estvamos abrin-
do uma trilha. Eles s precisam seguir ela.
        -- Bom, espero que cheguem logo -- Erak disse,
levantou e se espreguiou. -- Bom, eu vou dormir, pesso-
al, assim que fizer minhas necessidades.
        -- Bem, no v fazer perto do fogo -- um dos ou-
tros falou irritado. -- V para trs daquelas pedras ali.
        Aterrorizado, Will se deu conta de que o escandi-
navo tinha apontado as pedras onde ele estava escondido.
E agora Erak, rindo para o outro homem, estava andando
em sua direo. Will precisava ir embora. Ele se moveu
rapidamente de costas por alguns metros e depois, raste-
jando depressa de bruos, usou todo o seu treinamento e
suas habilidades naturais para se confundir com a paisa-
gem.
       Ele tinha se afastado cerca de 20 metros quando
ouviu um barulho de lquido caindo no cho vindo de
perto de onde tinha se escondido. Em seguida ouviu um
suspiro de satisfao e, ao olhar para trs, viu o vulto des-
cabelado de Erak recortado contra o brilho de centenas de
fogueiras no vale.
       Percebendo que o escandinavo estava concentrado
no que fazia, Will deslizou pela escurido e voltou para o
tnel. Andou com cuidado os primeiros metros, permi-
tindo que seus olhos se acostumassem  luz fraca das to-
chas, mas logo comeou a correr, quase sem fazer barulho
no piso arenoso com as botas macias.
Will encontrou Horace esperando por ele no tnel onde
o tinha deixado. O aprendiz de guerreiro estava com a
mo sobre o punho da espada.
       -- Conseguiu descobrir alguma coisa? -- sussurrou
com a voz rouca. Will soltou a respirao ruidosamente,
ao perceber que a estava prendendo h algum tempo.
       -- Sim -- ele disse. -- E s coisas ruins.
       Ele levantou a mo para impedir o amigo de fazer
mais perguntas.
       -- Vamos voltar e atravessar a ponte -- ele pediu.
-- Vou contar tudo do outro lado.
       Ele olhou para o tnel lateral onde tinham deixado
o mineiro celta.
       -- Voc ouviu mais alguma coisa de Glendyss? --
ele quis saber, mas Horace apenas balanou os ombros
com tristeza.
       -- Ele comeou a gemer uma hora atrs e depois
ficou quieto. Acho que est morto. Pelo menos morreu do
jeito que queria -- Horace concluiu seguindo Will pelo
tnel mal iluminado at a ponte.
       Eles atravessaram as tbuas outra vez, at onde
Evanlyn os esperava com os cavalos, bem longe da ponte
e fora de viso. Quando se aproximaram, Will chamou o
nome dela baixinho para no assust-la. Horace tinha dei-
xado a adaga com Evanlyn, e Will pensou que no seria
sensato se aproximar da moa armada sem avisar.
       Enquanto descrevia a cena que tinha visto do outro
lado do tnel, ele rabiscou um mapa apressadamente na
areia.
       -- Ns vamos ter que encontrar um jeito de retar-
dar as foras de Morgarath -- ele disse.
       Os outros dois olharam para ele curiosos. Retar-
d-las? Como podiam dois aprendizes e uma garota retar-
dar 500 escandinavos e vrios milhares de Wargals impla-
cveis?
       -- Pensei que voc tinha dito que devamos levar
as notcias para o rei -- Evanlyn disse.
       -- No temos mais tempo -- Will retrucou sim-
plesmente. -- Vejam.
       Eles se inclinaram para a frente enquanto ele apa-
gava o desenho que tinha feito na areia e rapidamente fa-
zia outro. No tinha certeza de que o diagrama era preci-
so, mas inclua os pontos mais importantes do reino, alm
do Planalto do Sul, governado por Morgarath.
       -- Eles disseram que tm mais escandinavos su-
bindo os penhascos da costa sul para se juntar aos Wargals
que j vimos. Vo atravessar a fenda aqui, onde estamos, e
vo at o norte para atacar os bares pela retaguarda, en-
quanto esperam que Morgarath tente sair do Desfiladeiro
dos Trs Passos.
       -- Sim -- Horace concordou. -- Sabemos disso.
Deduzimos isso assim que vimos a ponte.
       Will olhou para Horace, que ficou em silncio. Ele
percebeu que o aprendiz de arqueiro tinha algo mais a di-
zer.
       -- Mas -- Will continuou, enfatizando a palavra e
parando um momento -- eu tambm ouvi eles dizerem
alguma coisa sobre Horth e seus homens marchando ao
redor da Floresta Thorntree. Isso fica ao norte das Plan-
cies de Uthal.
       -- O que levaria os escandinavos a noroeste do e-
xrcito do rei -- Evanlyn comentou entendendo a ideia
imediatamente. -- Os bares ficariam encurralados entre
os Wargals e os escandinavos que cruzaram a ponte e a
outra fora do norte.
       -- Exatamente -- Will afirmou encontrando o o-
lhar dela. Os dois conseguiam avaliar o quanto a situao
seria perigosa para os bares reunidos l. Esperando um
ataque escandinavo pelos pantanais, a leste, eles seriam
pegos de surpresa no de uma, mas de duas direes dife-
rentes, presos e esmagados entre os braos de uma tenaz.
       -- Ento  melhor avisarmos o rei, com certeza! --
Horace insistiu.
       -- Horace -- Will comeou paciente --, a gente
precisaria de quatro dias para chegar s Plancies.
        -- Mais um motivo para irmos andando. No te-
mos um minuto a perder! -- disse o jovem guerreiro.
        -- E ento -- Evanlyn ajuntou entendendo o que
Will queria dizer -- vai levar pelo menos outros quatro
dias at que outra fora volte e defenda a ponte. Talvez
mais.
        -- So oito dias ao todo -- Will continuou. --
Voc se lembra do que o pobre mineiro disse? A ponte
vai estar pronta em quatro dias. Os Wargals e os escandi-
navos vo ter tempo suficiente para cruzar a fenda, se re-
unir em formao de batalha e atacar o exrcito do rei.
        -- Mas... -- Horace comeou, e Will o interrom-
peu.
        -- Horace, mesmo que a gente consiga avisar o rei
e os bares, eles so em menor nmero e vo ser pegos,
sem condies de recuar, entre duas foras. Os pntanos
estaro atrs deles. Sei que temos de avisar eles, mas tam-
bm podemos fazer algo aqui para equilibrar os nmeros.
        -- Alm disso -- Evanlyn disse, e Horace se virou
para olh-la --, se pudermos fazer alguma coisa para im-
pedir que os Wargals e os escandinavos atravessem aqui, o
rei vai ter vantagem sobre a fora de escandinavos que es-
t no norte.
        -- E acho que no vo estar em menor nmero --
ele disse.
        -- Essa  uma parte da questo -- Evanlyn acres-
centou depois de concordar. -- Mas esses escandinavos
vo esperar reforos para atacar o rei pela retaguarda: re-
foros que nunca vo chegar.
       A expresso de Horace mostrou que ele finalmente
tinha entendido tudo. Ele assentiu com a cabea vrias
vezes, mas ento voltou a franzir a testa.
       -- Mas o que podemos fazer para parar os Wargals
aqui? -- perguntou.
       Will e Evanlyn trocaram um olhar. Ele percebeu
que tinham chegado  mesma concluso. Ambos falaram
ao mesmo tempo.
       -- Queimar a ponte.
A cabea de Blaze pendia baixa enquanto ele trotava len-
tamente nos arredores do acampamento do rei, nas Plan-
cies de Uthal. Gilan oscilava cansado na sela. Ele quase
no tinha dormido nos ltimos trs dias, aproveitando
apenas breves momentos de descanso a cada quatro ho-
ras.
       Dois guardas deram um passo  frente para impedir
seu avano, e o jovem arqueiro remexeu dentro da camisa
em busca do amuleto prateado em forma de folha de car-
valho, a insgnia do arqueiro do reino. Quando o viram, os
guardas recuaram apressados para abrir caminho. Em
tempos como aqueles, ningum retardava um arqueiro...
no, se soubesse o que era bom para si.
       -- Onde est a barraca do Conselho de Guerra? --
Gilan indagou esfregando os olhos cansados.
       Um dos guardas apontou com a lana para uma
barraca maior do que o normal instalada num outeiro que
se erguia sobre o resto do acampamento. Havia mais
guardas ali e um grande nmero de pessoas indo e vindo,
como era de se esperar que acontecesse no centro nervoso
de um exrcito.
       -- Ali, senhor. Naquele pequeno morro.
       Gilan assentiu. Ele tinha chegado at ali muito de-
pressa, terminando a jornada de quatro dias em apenas
trs. Aquelas poucas centenas de metros pareciam quil-
metros. Ele se inclinou para a frente e sussurrou no ouvi-
do de Blaze.
       -- Falta pouco, meu amigo. S mais um pequeno
esforo, por favor.
       Os ouvidos do cavalo exausto se agitaram e ele le-
vantou um pouco a cabea. O incentivo de Gilan o fez
passar para um leve trote e eles atravessaram o acampa-
mento.
       Tinha poeira misturada com a brisa, cheiro de ma-
deira queimada, barulho e confuso: o acampamento era
como qualquer acampamento do exrcito em qualquer
lugar do mundo. Ordens sendo gritadas. O som metlico
e o estrpito de armas sendo consertadas ou afiadas. Risos
vindos das barracas, onde homens relaxavam deitados,
sem tarefas para cumprir, at que seus sargentos os en-
contrassem e lhes dessem novas ordens. Esse pensamento
fez Gilan sorrir fracamente. Sargentos pareciam no su-
portar ver homens sem fazer nada.
       Blaze parou mais uma vez, e Gilan percebeu, com
um choque, que realmente tinha cochilado na sela. Diante
dele, dois outros guardas barraram o caminho at o recin-
to do Conselho de Guerra. Ele olhou para os dois com a
vista turva.
        -- Arqueiro do rei -- grunhiu com a garganta seca.
-- Mensagem para o conselho.
        Os guardas hesitaram. Aquele homem coberto de
poeira, semi-adormecido, sentado num cavalo baio e-
xausto e com a boca espumando talvez fosse um arqueiro.
At onde sabiam, estava vestido como tal. No entanto, os
guardas conheciam de vista quase todos os arqueiros mais
velhos e nunca tinham visto aquele jovem antes. O rapaz
no tinha mostrado nenhuma identificao.
        Mas o fato mais importante que notaram era que
ele carregava uma espada, que definitivamente no era a
arma de um arqueiro, de modo que relutaram em permitir
sua entrada no cuidadosamente vigiado recinto do Con-
selho de Guerra. Irritado, Gilan percebeu que no tinha
deixado a folha de carvalho de prata  mostra fora da ca-
misa. De repente, o esforo de encontr-la novamente fi-
cou muito grande. Ele remexeu cegamente no colarinho.
Ento uma voz conhecida e muito bem-vinda cortou seus
pensamentos.
        -- Gilan! O que aconteceu? Voc est bem?
        Aquela era a voz que tinha representado conforto e
segurana para ele durante todos os cinco anos de seu a-
prendizado. A voz da coragem, da capacidade e da sabe-
doria. A voz que sempre sabia exatamente quando era
preciso agir.
       -- Halt -- ele murmurou, enquanto percebia que
estava oscilando e caindo da sela.
       Halt o pegou antes que casse no cho. Ele olhou
para as duas sentinelas que estavam ao seu lado sem saber
se deviam ou no ajudar.
       -- Deem uma mo! -- ele ordenou, e os dois
guardas saltaram para a frente, deixando cair as lanas
com estrpito para apoiar o jovem arqueiro se-
mi-inconsciente.
       -- Vamos levar voc a algum lugar para descansar
-- Halt disse. -- Voc est pssimo.
       Mas Gilan reuniu suas ltimas reservas de energia e,
empurrando os soldados, ficou firme nos prprios ps.
       -- Notcias importantes -- ele disse para Halt. --
Preciso ver o conselho. Tem uma coisa ruim acontecendo
em Cltica.
       Halt sentiu a mo fria da premonio agarrar seu
corao. Ele olhou ao redor observando o caminho pelo
qual Gilan tinha vindo. Ms notcias de Cltica. E Gilan
aparentemente sozinho.
       -- Onde est Will? -- ele perguntou preocupado.
-- Ele est bem?
       Seu corao se encheu de alegria quando Gilan as-
sentiu com um gesto, mostrando uma sombra do sorriso
habitual.
       -- Ele est bem -- Gilan disse ao arqueiro grisa-
lho. -- Eu vim na frente.
        medida que andavam, eles se aproximavam do
pavilho central. L havia mais guardas de planto, que
saram do caminho ao ver o arqueiro mais velho. Ele era
uma figura conhecida no Conselho de Guerra. Estendeu a
mo para dar apoio ao antigo aprendiz, e os dois entraram
na sombra fresca do pavilho do conselho.
       Um grupo de meia dzia de homens estava reunido
em volta de um mapa de areia, uma grande mesa que
mostrava as principais caractersticas das plancies e das
montanhas modeladas em areia.
       Eles se viraram ao escutar os passos dos re-
cm-chegados, e um deles se aproximou depressa com a
expresso preocupada.
       -- Gilan! -- exclamou.
       Era um homem alto cujos cabelos grisalhos revela-
vam seus 50 e tantos anos. Mas ele ainda se movia com a
rapidez e elegncia de um atleta ou de um guerreiro. Gilan
lhe deu seu sorriso cansado.
       -- Bom-dia, pai -- ele cumprimentou, pois o ho-
mem alto e grisalho no era ningum menos que sir Da-
vid, mestre de guerra do feudo Caraway e comandante de
campo do exrcito do rei. O mestre de guerra olhou rapi-
damente para Halt e viu um breve gesto de cabea que o
tranquilizou. Ele percebeu que Gilan s estava exausto.
Ento, seu senso de dever superou sua reao paternal.
       -- Cumprimente seu rei adequadamente -- pediu
com suavidade, e Gilan olhou para o grupo de homens
cuja ateno estava toda voltada para ele.
        Ele reconheceu Crowley, o comandante do Corpo
de Arqueiros, o baro Arald e dois outros bares mais ve-
lhos do reino: Thorn de Drayden e Fergus de Caraway.
Mas a figura no centro chamou sua ateno. Um homem
alto e loiro com quase 40 anos, barba curta e olhos verdes
penetrantes. Ele tinha ombros largos e era musculoso,
pois Duncan no era um rei que deixava outros lutarem
por ele. Ele tinha praticado o uso da espada e da lana
desde garoto e era considerado um dos cavaleiros mais
capazes de seu prprio reino.
        Gilan tentou se apoiar num dos joelhos, mas suas
articulaes gritaram em protesto e ameaaram travar. A
presso da mo de Halt sob seu brao foi o que o impediu
de cair novamente.
        -- Senhor... -- ele comeou em tom de desculpas,
mas Duncan j tinha se aproximado, estendendo a mo
para firm-lo.
        Gilan ouviu a apresentao de Halt.
        -- Arqueiro Gilan, meu senhor, ligado ao feudo
Meric. Com mensagens de Cltica.
        -- Cltica? -- o rei repetiu cheio de interesse e ana-
lisando Gilan com mais ateno. -- O que est aconte-
cendo l?
        Os outros membros do conselho tinham se afasta-
do do mapa de areia e se reuniram ao redor de Gilan.
        -- Gilan estava levando suas mensagens para o rei
Swyddned, meu senhor -- o baro Arald informou. --
Para invocar o tratado mtuo de defesa e solicitar que
Swyddned enviasse tropas para se juntar a ns...
       -- Elas no vo vir -- Gilan interrompeu.
       Ele percebeu que tinha que contar ao rei suas not-
cias antes que desmaiasse de exausto.
       -- Morgarath encurralou elas na pennsula do su-
doeste.
       Houve um silncio atnito no pavilho do Conse-
lho.
       -- Morgarath? -- o pai de Gilan perguntou incr-
dulo. -- Como? Como ele conseguiu levar qualquer tipo
de exrcito para Cltica?
       Gilan balanou a cabea reprimindo um enorme
desejo de bocejar.
       -- Eles fizeram pequenos grupos descerem os pe-
nhascos at terem tropas suficientes para apanhar os celtas
de surpresa. Como o senhor sabe, Swyddned mantm a-
penas um pequeno exrcito de prontido...
       O baro Arald assentiu com uma expresso zanga-
da.
       -- Eu avisei Swyddned, meu senhor -- ele afir-
mou. -- Mas esses malditos celtas sempre estiveram mais
interessados em cavar do que em proteger o prprio rei-
no.
       Duncan fez um pequeno gesto tranquilizador com
a mo.
        -- No temos tempo para recriminaes, Arald --
ele disse devagar. -- Receio que o que est feito, est fei-
to.
        -- Imagino que Morgarath venha vigiando os celtas
durante anos, esperando que sua avareza superasse o bom
senso -- o baro Thorn disse com amargura.
        Os outros homens concordaram em silncio. Eles
conheciam muito bem a habilidade de Morgarath em
manter uma rede de espies.
        -- Ento Cltica foi derrotada por Morgarath? 
isso o que est nos dizendo? -- Duncan perguntou.
        A resposta de Gilan trouxe alvio a todos.
        -- Os celtas esto ocupando o sudoeste, meu se-
nhor. Eles ainda no foram derrotados. Mas o estranho
nessa situao  que grupos de Wargals tm sequestrado
mineiros celtas.
        -- O qu? -- desta vez foi Crowley que interrom-
peu. -- Que raios de utilidade os mineiros tm para Mor-
garath?
        -- No tenho ideia, senhor -- Gilan respondeu ao
chefe, dando de ombros. -- Mas pensei que era melhor
vir at aqui com as notcias o mais rpido possvel.
        -- Ento voc viu isso acontecer, Gilan? -- Halt
perguntou com uma expresso sombria, refletindo con-
fuso sobre o que o jovem arqueiro tinha acabado de con-
tar.
        -- No exatamente -- Gilan admitiu. -- Vimos as
cidades mineiras vazias e postos de fronteira desertos. Es-
tvamos indo para o interior de Cltica quando encon-
tramos uma jovem garota que nos contou sobre os ata-
ques.
       -- Uma garota? Uma celta? -- o rei perguntou.
       -- No, senhor. Ela  de Araluen. A criada cuja
ama estava visitando a corte de Swyddned. Infelizmente,
eles se depararam com uma tropa de Wargals. Evanlyn foi
a nica a escapar.
       -- Evanlyn? -- Duncan repetiu numa voz que era
apenas um sussurro.
       Os outros se viraram quando ele falou. O rosto do
rei tinha empalidecido, e seus olhos estavam arregalados
pelo terror.
       -- Esse  o nome dela, senhor -- Gilan disse es-
pantado com a reao do rei.
       Mas Duncan no estava ouvindo. Ele tinha se vi-
rado e foi cegamente para uma cadeira de lona colocada
junto de sua pequena mesa de leitura, deixando-se cair na
cadeira com a cabea escondida nas mos. Assustados
com a reao, os membros do Conselho de Guerra se a-
proximaram dele.
       -- Meu senhor -- sir David de Caraway disse --, o
que aconteceu?
       Lentamente, Duncan levantou os olhos para enca-
rar o mestre de guerra.
       -- Evanlyn... -- ele disse com a voz trmula de
emoo. -- Evanlyn era a criada de minha filha.
No havia tempo para colocar o plano em ao naquela
noite. O sol ia nascer dali a menos de uma hora. Num de-
terminado momento, Will tinha sugerido que Horace e
Evanlyn o deixassem para trs cuidando da ponte e fos-
sem levar as notcias a Araluen. Mas Horace tinha recusa-
do.
        -- Se formos agora, no vamos saber se voc teve
xito. Ento, o que vamos dizer ao rei? Que existe uma
ponte ou no? -- ele argumentou com outro exemplo do
slido bom senso que tinha se tornado parte de seu racio-
cnio. -- E, alm disso, destruir uma ponte desse tamanho
pode ser uma tarefa um pouco maior do que voc conse-
gue enfrentar sozinho... at mesmo um arqueiro famoso
como voc.
        Ele sorriu quando disse essas ltimas palavras para
que o amigo soubesse que no queria ofend-lo. Will
concordou com tal opinio, pois, secretamente, estava sa-
tisfeito de ter os dois com ele. Tambm acreditava que
talvez no fosse capaz de realizar a tarefa sozinho.
       Eles tiveram um sono agitado at o amanhecer e
finalmente foram acordados pelos sons dos gritos e chi-
cotadas dos Wargals que levavam os mineiros de volta 
tarefa de terminar a ponte. Durante todo o dia, eles ob-
servaram assustados a passagem se aproximar cada vez
mais do lado da ravina onde estavam escondidos. Com
uma sensao de desnimo, Will se deu conta de que o
clculo feito pelo mineiro agonizante no era confivel.
Talvez os escravos adicionais fossem o motivo, mas era
bvio que a ponte estaria pronta no fim do dia seguinte.
       -- Temos que agir hoje  noite.
       Will sussurrou as palavras na orelha de Evanlyn. Os
dois estavam deitados de bruos sobre as pedras e obser-
vavam o local da construo. Horace estava distante al-
guns metros, cochilando calmamente debaixo do frio sol
da manh. A garota mudou de posio para que sua boca
ficasse mais perto da orelha do jovem arqueiro e sussur-
rou de volta.
       -- Andei pensando... como vamos comear esse
fogo? Aqui no h lenha suficiente nem para uma fogueira
decente.
       A mesma pergunta tinha invadido a mente de Will
durante a noite. Mas a resposta tambm tinha surgido. Ele
sorriu tranquilamente enquanto observava um grupo de
mineiros celtas martelando tbuas de pinho sobre a estru-
tura da ponte para formar a passarela.
       -- H bastante lenha aqui -- ele respondeu. -- Se
voc souber onde procurar.
       Evanlyn olhou para ele confusa e ento seguiu seu
olhar. A expresso preocupada desapareceu de seu rosto,
e ela sorriu devagar.
       Quando a noite caiu, os Wargals reuniram seus es-
cravos cansados e famintos na ponte e os levaram para o
tnel. Will percebeu que no fim da tarde o trabalho de a-
largamento do tnel parecia ter sido completado, Eles es-
peraram mais uma hora at que estivesse totalmente es-
curo. Durante esse tempo, no houve nenhum sinal de
atividade no local. Agora que sabiam onde procurar, po-
diam ver a luz do fogo vindo do vale no outro lado do
tnel que se refletia nas nuvens baixas empurradas pelo
vento.
       -- Espero que no chova -- Horace disse de re-
pente. -- Isso levaria nossa ideia por gua abaixo.
       Will parou de andar e olhou para ele depressa. A-
quele pensamento desagradvel no lhe tinha ocorrido.
       -- No vai chover -- ele disse com firmeza na es-
perana de ter razo.
       Continuou a andar, conduzindo Puxo com delica-
deza para a extremidade inacabada da ponte. O pequeno
cavalo parou ali com as orelhas em p e as narinas estre-
mecendo com os cheiros do ar noturno.
       -- Alerta!
       Will falou com suavidade para o cavalo a palavra de
comando que lhe dizia para avisar caso sentisse a aproxi-
mao do perigo. Puxo balanou a cabea uma vez mos-
trando que tinha entendido. Em seguida, e andando com
cuidado ao cruzar as vigas estreitas acima do precipcio
assustador, Will abriu caminho na direo da estrutura da
ponte onde a passarela tinha sido completada. Horace e
Evanlyn o seguiram com mais cuidado. Mas naquela noite,
para alvio de Horace, a distncia a atravessar antes de
chegar  superfcie firme e segura da ponte terminada era
menor. Ele percebeu que Will tinha razo. No dia seguin-
te, a ponte estaria acabada.
       Will desprendeu o arco e a aljava e os colocou nas
tbuas. Em seguida, tirou a faca do estojo e, caindo de jo-
elhos, comeou a levantar as tbuas mais prximas na
passarela da ponte. Elas eram de pinho macio e tinham
sido serradas grosseiramente, portanto eram perfeitas para
acender um fogo.
       Horace empunhou a adaga e comeou a levantar as
tbuas na fileira seguinte.  medida que eles as soltavam,
Evanlyn as colocava de lado, formando uma pilha.
Quando juntou seis tbuas com 1 metro de comprimento
cada, ela as pegou, correu rapidamente para o extremo
oposto da ponte e as empilhou do outro lado da fenda,
perto de onde os imensos cabos cobertos de piche esta-
vam amarrados a postes de madeira. Ao voltar, Will e
Horace j tinham removido outras seis. Estas foram leva-
das para o outro cabo.
       Will tinha explicado seu plano um pouco antes na-
quele dia. Para garantir que no restasse nenhuma estru-
tura do outro lado, eles precisariam queimar totalmente os
dois cabos e postes naquela extremidade, deixando a pon-
te cair nas profundidades da fenda. Os Wargals talvez pu-
dessem cobrir a fenda com uma pequena ponte de corda
provisria, mas nada forte o bastante para permitir que
tropas numerosas atravessassem em pouco tempo.
        Depois de queimar a ponte, eles iriam a toda velo-
cidade alertar o exrcito do rei sobre a ameaa no sul. Se
um nmero reduzido de Wargals atravessasse a fenda,
poderia ser enfrentado com facilidade pelas tropas do
reino.
        Os dois garotos continuaram a soltar as tbuas.
Evanlyn no parou com suas idas e vindas pela ponte at
que as pilhas junto de cada poste ficaram bem altas. Ape-
sar da noite fria, os dois garotos estavam suando intensa-
mente por causa do esforo. Finalmente, Evanlyn colocou
a mo no ombro de Will quando ele soltou uma tbua e
comeou imediatamente a trabalhar em outra.
        -- Acho que  suficiente -- ela disse simplesmente,
ele parou e enxugou a testa com as costas da mo esquer-
da.
        Ela fez um gesto na direo da outra extremidade
da ponte, onde havia pelo menos vinte tbuas empilhadas
em cada lado da estrada. Ele tentou se livrar da dor na
nuca virando a cabea de um lado para outro e ento se
levantou.
        -- Voc tem razo -- ele concordou. -- Isso deve
ser suficiente para fazer o resto queimar.
        Com um sinal para que os outros o seguissem, Will
pegou o arco e a aljava e foi para o outro lado da ponte.
Ele olhou com ateno para as duas pilhas de madeira por
alguns momentos.
       -- Precisamos acender esse fogo -- ele disse o-
lhando ao redor para ver se havia pequenas rvores ou
arbustos que pudessem fornecer galhos para comear o
fogo.
       Mas ele no viu nada. Horace estendeu a mo pe-
dindo a faca de Will.
       -- Empreste isso por um instante -- ele pediu, e
Will entregou a arma para o amigo.
       Horace testou o equilbrio da faca pesada por um
momento. Ento, pegou uma das tbuas compridas, ficou
de p sobre uma de suas extremidades e, com alguns gol-
pes surpreendentemente rpidos, cortou-a em uma dezena
de tiras finas.
       -- No  a mesma coisa que praticar com a espada
-- ele riu para os outros dois -- mas  bem parecido.
       Enquanto Will e Evanlyn formavam duas pequenas
piras com os finos pedaos de pinho, Horace pegou outra
tbua e trabalhou com mais cuidado, escavando finos ro-
los de pinho para queimarem com as primeiras fascas da
pedra de fogo que usariam para acender a fogueira. Will
olhou uma vez para Evanlyn e, satisfeito em ver que ela
sabia o que estava fazendo, voltou-se para a prpria tarefa,
aceitando os punhados de espirais de pinho que Horace
lhe passou e empilhando-os em volta das tbuas.
       Quando Will passou para o lado de Evanlyn para
fazer a mesma coisa com a fogueira que ela estava prepa-
rando, Horace partiu mais algumas tbuas ao meio e cor-
tou as metades em dois. Nervoso com o barulho, Will o-
lhou para cima.
       -- No faa barulho -- ele pediu ao aprendiz de
guerreiro. -- Voc sabe que esses Wargals no so exata-
mente surdos, e o som pode atravessar o tnel.
       -- Bom, eu j acabei mesmo -- Horace tornou
dando de ombros. Will parou e examinou as duas piras.
Satisfeito por elas terem a combinao perfeita de lenha e
madeira leve para acender o fogo, ele voltou para junto
dos amigos.
       -- Vo indo na frente -- ele disse. -- Vou come-
ar o fogo e me encontro com vocs.
       Horace no precisou de um segundo convite. Ele
no queria ter que atravessar correndo as vigas descober-
tas da ponte com o fogo lambendo os cabos atrs dele.
Queria tempo suficiente para ficar a uma distncia segura.
Evanlyn hesitou por um momento e depois percebeu a
sensatez do conselho de Will.
       Eles atravessaram com cuidado, tentando no olhar
para as profundezas agonizantes abaixo da ponte, pois ha-
via um espao aberto maior, j que algumas das tbuas
que formavam a passarela tinham sido removidas. Quan-
do chegaram em segurana ao outro lado, eles se viraram
e acenaram para Will. Ele era s um vulto agachado e in-
distinto nas sombras ao lado do suporte direito da ponte.
Houve um claro forte quando ele usou sua pedra de fo-
go, logo seguido por outro. E, desta vez, um brilho inten-
so e amarelo se formou na base da pilha de madeira
quando as lascas de pinho pegaram fogo e as chamas
cresceram.
       Will as soprou delicadamente e observou as peque-
nas chamas ansiosas se espalharem, lambendo o pinho
spero, alimentando-se da resina inflamvel que cobria os
veios da madeira, ficando maiores e mais vorazes a cada
segundo. Ele viu os primeiros pedaos mais finos se in-
cendiarem e depois as chamas subiram, cobrindo avida-
mente a balaustrada de corda da ponte e comeando a se
aproximar dos grossos cabos. O piche comeou a chiar.
Gotas derretiam e caam nas chamas, inflamando-se com
um claro azul brilhante.
       Satisfeito em ver o primeiro fogo se espalhando
conforme o esperado, Will correu para o lado oposto e
passou a trabalhar com sua pedra de fogo mais uma vez.
Novamente, Horace e Evanlyn viram os clares brilhantes
se transformarem numa labareda amarela que crescia ra-
pidamente.
       Will, agora uma silhueta ntida contornada pela luz
das duas fogueiras, se levantou e recuou, observando-as
at se certificar de que ambas estavam adequadamente a-
cesas. O poste e o cabo da direita j estavam comeando a
fumegar. Finalmente contente, Will apanhou o arco e a
aljava e atravessou a ponte correndo, quase sem diminuir
o ritmo ao passar as vigas estreitas.
       Ao chegar ao outro lado, ele se virou para olhar
para trs e observar seu trabalho. O cabo da direita estava
queimando ferozmente. Uma rajada de vento repentina
mandou uma chuva de fasca para o alto. A fogueira da
esquerda parecia no estar queimando to bem. Talvez
uma contracorrente do vento tivesse impedido as chamas
de atingir a corda embebida em piche naquele lado. Talvez
a madeira que tinham usado estivesse mida. O fogo de-
baixo do cabo da esquerda lentamente se apagou e se
transformou num monte de brasas vermelhas.
Gilan desviou o olhar do rosto torturado de seu rei. To-
dos no pavilho podiam ver a dor que Duncan sentiu ao
saber que a filha tinha sido morta pelos Wargals de Mor-
garath. Gilan olhou para os outros homens  procura de
algum tipo de apoio e viu que nenhum deles conseguia
enfrentar o olhar do monarca.
       Duncan se levantou da cadeira, andou at a entrada
da barraca e ficou olhando para o sudoeste como se pu-
desse, de alguma forma, ver a filha ao longe.
       -- Cassandra foi visitar Cltica h oito semanas --
ele contou. -- Ela  uma grande amiga da princesa Ma-
delydd. Quando toda essa histria com Morgarath come-
ou, pensei que ela estaria em segurana ali. No vi moti-
vos para traz-la de volta.
       Ele se afastou da porta e olhou nos olhos de Gilan.
       -- Conte. Conte tudo o que sabe...
       -- Meu senhor... -- Gilan balbuciou raciocinando,
Ele sabia que teria que contar o mximo possvel ao rei.
Mas tambm queria evitar um sofrimento desnecessrio
para ele.
        -- A garota nos viu e se aproximou. Ela reconhe-
ceu Will e a mim como arqueiros. Aparentemente, conse-
guiu escapar quando os Wargals atacaram seu grupo. Ela
disse que os outros foram... -- Ele hesitou, pois no con-
seguia continuar.
        -- Continue -- Duncan pediu com a voz firme.
        -- Ela disse que os Wargals mataram eles, meu se-
nhor. Todos eles -- Gilan terminou apressado.
        De alguma forma, sentiu que seria mais fcil se
contasse tudo depressa.
        -- Ela no queria contar detalhes, pois estava e-
xausta, mental e fisicamente.
        -- Pobre garota -- Duncan murmurou. -- Deve
ter sido uma coisa terrvel de ver. Ela  uma boa criada.
Na verdade, era mais uma amiga de Cassandra -- ele a-
crescentou com suavidade.
        Gilan sentiu necessidade de continuar falando com
o rei, de dar a ele todos os detalhes possveis sobre a per-
da da filha.
        -- Primeiro, quase a confundimos com um garoto
-- ele disse lembrando-se do momento em que Evanlyn
se aproximou do acampamento.
        Duncan olhou para cima com a expresso confusa.
        -- Um garoto? -- ele repetiu. -- Com todos aque-
les cabelos ruivos?
        -- Eles estavam bem curtos -- Gilan informou
dando de ombros. -- Provavelmente para disfarar sua
aparncia. As colinas celtas esto cheias de bandidos e la-
dres nesse momento. E tambm de Wargals.
       Ele percebeu que alguma coisa estava errada. Esta-
va muito cansado, ansioso por uma cama, e seu crebro
no funcionava direito. Mas o rei tinha dito alguma coisa
que no encaixava. Alguma coisa que...
       Ele balanou a cabea, tentando refletir, e vacilou
sobre os ps exaustos, satisfeito por ter o brao firme de
Halt para apoi-lo. Ao ver o movimento, Duncan se des-
culpou de imediato.
       -- Arqueiro Gilan -- ele disse se aproximando e
tomando a mo do rapaz --, perdoe-me. Voc est e-
xausto e o mantive aqui por causa de minha tristeza. Por
favor, Halt, providencie comida e cama para Gilan.
       -- Blaze...
       Gilan comeou a dizer, pois se lembrou de seu ca-
valo cansado e coberto de poeira, parado do lado de fora
da barraca.
       -- Est tudo bem -- Halt respondeu. -- Vou cui-
dar de Blaze.
       Halt olhou para o rei mais uma vez e fez um gesto
de cabea na direo de Gilan.
       -- Com sua permisso, majestade.
       Duncan fez sinal para que os dois sassem.
       -- Sim, por favor, Halt. Cuide de seu camarada. Ele
nos prestou um grande servio.
       Quando os dois arqueiros deixaram a barraca,
Duncan se virou para seus conselheiros.
       -- Agora, senhores, vamos ver se podemos com-
preender esse ltimo movimento de Morgarath.
       O baro Thorn olhou rapidamente para os outros,
procurando e conseguindo sua aprovao para ser o por-
ta-voz de todos.
       -- Meu senhor -- ele disse sem jeito --, talvez a
gente deva lhe dar algum tempo para assimilar as ltimas
notcias...
       Os demais conselheiros murmuraram, concordando
com a ideia, mas Duncan balanou a cabea com firmeza.
       -- Eu sou o rei -- ele disse simplesmente. -- E,
para o rei, assuntos particulares vm em ltimo lugar.
Questes do reino vm em primeiro.




       -- Apagou! -- Horace exclamou extremamente
desapontado.
       Os trs olharam na mesma direo, esperando de-
sesperadamente que ele estivesse errado, que seus olhos o
estivessem enganando de alguma maneira. Mas ele tinha
razo. O fogo debaixo do poste da esquerda tinha se
transformado num pequeno amontoado de brasas.
       Em comparao, o outro lado estava bem aceso, e
o fogo subia vigorosamente pelas cordas cobertas de pi-
che at o grosso cabo que sustentava o lado direito da
ponte. De fato, uma das trs cordas que formavam o cabo
se queimou, e o lado direito da ponte rangeu assustado-
ramente.
        -- Talvez um lado seja suficiente -- Evanlyn suge-
riu esperanosa, mas Will balanou a cabea frustrado,
desejando que a segunda fogueira ganhasse nova fora.
        -- O poste da direita est danificado, mas ainda
pode ser usado -- ele ressaltou. -- Se o lado esquerdo re-
sistir, eles ainda podero atravessar para este lado. E, se
fizerem isso, podero consertar toda a ponte antes de avi-
sarmos o rei Duncan.
        Com determinao, ele pendurou o arco sobre o
ombro e comeou a atravessar a ponte outra vez.
        -- Aonde voc vai? -- Horace perguntou olhando
temeroso para a estrutura.
        A ponte tinha ficado bem inclinada para um dos
lados depois que o cabo da direita tinha se queimado.
Depois que Horace fez a pergunta, a estrutura estremeceu
de novo, inclinando-se um pouco mais para o fundo do
abismo.
        Will parou, equilibrado na viga estreita que se es-
tendia de um lado a outro do precipcio.
        -- Vou ter que contar com a sorte -- ele disse. --
Temos que ter certeza de que no vai restar nada que
possam salvar.
        E, dizendo isso, correu para o outro lado. Horace
ficou enjoado s de v-lo se movimentar to depressa por
cima daquele abismo to fundo sem nada alm de uma
viga estreita debaixo dele. Numa impacincia febril, os
outros dois colegas viram Will se agachar perto das brasas.
Ele comeou a aban-las e se inclinou para assoprar, at
que uma pequena lngua de fogo estremeceu na pilha de
madeira no queimada.
       -- Ele conseguiu! -- Evanlyn exclamou, mas o
triunfo em sua voz desapareceu quando a chama se apa-
gou.
       Novamente, Will se inclinou e comeou a soprar as
brasas suavemente. O cabo do lado direito cedeu mais um
pouco, e a ponte vacilou, afundando mais para aquele la-
do.
       -- Vamos! Vamos! -- Horace dizia repetidas vezes
para si mesmo, apertando as mos uma na outra enquanto
observava o amigo.
       Ento Puxo relinchou baixinho.
       Horace e Evanlyn se viraram para olhar o pequeno
cavalo. Eles no teriam reagido se tivesse sido uma de su-
as montarias, mas sabiam que Puxo era treinado para fi-
car em silncio, a menos que...
       A menos que...! Horace olhou para onde Will esta-
va agachado sobre o que restava do fogo. Evidentemente,
ele no tinha ouvido o aviso do animal. Evanlyn puxou o
brao de Horace e apontou.
       -- Olhe! -- ela disse, e o garoto seguiu a ponta do
dedo da garota at a entrada do tnel, onde uma luz co-
meava a aparecer.
       Algum se aproximava! Puxo bateu a pata no cho
e relinchou novamente, um pouco mais alto desta vez,
mas Will, perto do barulho do fogo que queimava o cabo
da direita, no escutou. Evanlyn tomou uma deciso.
       -- Fique aqui! -- ela ordenou a Horace e comeou
a atravessar a viga de madeira.
       Com o corao aos pulos, caminhou com cuidado
enquanto a estrutura enfraquecida da ponte balanava e
estremecia. Debaixo dela, havia a escurido e, bem no
fundo, o brilho prateado do rio que corria velozmente pe-
la base da fenda. Ela balanou, recuperou-se e continuou.
A passarela estava s a 8 metros de distncia. Depois 5. E
depois 3.
       A ponte oscilou outra vez, e a menina ficou parada
por um tenebroso momento, com os braos estendidos
para manter o equilbrio, balanando sobre o terrvel a-
bismo. Atrs dela, ouviu o grito de aviso de Horace. Res-
pirando fundo, disparou para a segurana da passarela de
tbuas, caindo de comprido no cho spero de pinho da
ponte.
       Muito assustada por quase ter cado, ela se levantou
e correu. Quando se aproximou, Will percebeu o movi-
mento e olhou para cima. Sem Flego, ela apontou para a
entrada do tnel.
       -- Eles esto vindo! -- ela gritou.
       Naquele momento, quando o pequeno grupo de
figuras apareceu, os dois perceberam que a luz refletida do
interior do tnel vinha do brilho de vrias tochas acesas.
Elas pararam na entrada, apontando e gritando quando
viram as chamas que se elevavam bem acima da ponte.
Evanlyn contou seis e, por causa do modo de andar vaci-
lante e desajeitado, ela reconheceu os Wargals.
       As criaturas comearam a correr na direo da
ponte. Estavam a mais de 50 metros de distncia, mas co-
briam o trecho rapidamente. E, com certeza, outros deve-
riam estar vindo atrs deles.
       -- Vamos sair daqui! -- ela disse agarrando a
manga da camisa de Will.
       Mas ele se soltou da mo dela com sua expresso
sombria. Ele apanhou o arco e a aljava, pendurou-a no
ombro e verificou se a corda estava bem presa no arco.
       -- Volte! -- ele ordenou. -- Eu vou ficar e manter
eles para trs.
       Quase ao mesmo tempo em que falou, Will ajustou
uma flecha na corda e, praticamente sem mirar, atirou na
direo do lder. A flecha o acertou no peito, e o Wargal
caiu com um grito, ficando depois em silncio.
       Seus companheiros pararam imediatamente ao ver a
flecha. Eles olharam ao redor cautelosos, tentando desco-
brir de onde ela tinha vindo. Sua mente estreita e primitiva
lhes dizia que talvez aquilo fosse uma armadilha. De onde
estavam, no podiam ver o pequeno vulto no fim da pon-
te. E, no momento em que olharam, outras trs flechas
atravessaram assobiando a escurido. As pontas de ao de
duas delas soltaram fascas quando bateram contra as ro-
chas. A terceira atingiu o brao de um dos Wargals que se
encontrava atrs do grupo. Ele gritou de dor e caiu de jo-
elhos.
        Os Wargals hesitaram sem saber o que fazer.
Quando viram a luz e a fumaa provocadas pelo fogo a-
cima da colina que separava a rea do acampamento da
ponte, eles tinham vindo investigar. Agora, arqueiros invi-
sveis os estavam atacando. Tomando uma deciso, e sem
ningum para mand-los avanar, recuaram rapidamente
para o abrigo da entrada do tnel.
        -- Eles esto voltando! -- Evanlyn contou a Will.
Mas ele j tinha visto o movimento e estava novamente de
joelhos, tentando freneticamente reacender o fogo.
        -- Vamos ter que arrumar tudo de novo! -- ele
murmurou. Evanlyn se ajoelhou do lado dele e comeou a
ajeitar as tiras de madeira e os pedaos maiores, formando
uma pira em forma de cone.
        -- Fique de olho nos Wargals, eu cuido do fogo --
ela disse.
        Will hesitou. Afinal, aquele era o fogo que ela tinha
acendido. Ser que tinha feito um bom trabalho? Ento
ele olhou para a entrada do tnel e viu movimento outra
vez. Percebendo que a menina tinha razo, apanhou o ar-
co e foi se esconder atrs de umas rochas prximas, mas
Evanlyn o interrompeu.
        -- A sua faca! -- ela pediu. -- Deixe-a comigo.
        Will no perguntou nada. Tirou a faca do estojo,
deixou-a cair na tbua ao lado da menina e foi at as pe-
dras. Ao sair da ponte, ele a sentiu tremer novamente
quando o cabo da direita cedeu mais um pouco. Silencio-
samente, amaldioou o capricho do vento que tinha au-
mentado uma das fogueiras e apagado a outra.
        Encorajados pela falta de flechas assobiando nos
ltimos minutos, os quatro Wargals restantes saram do
tnel novamente e avanaram cuidadosamente. Sem uma
verdadeira liderana inteligente e com uma falsa sensao
de superioridade, eles ficaram agrupados, tornando-se um
alvo fcil. Will atirou trs vezes, mirando com bastante
cuidado.
        Cada tiro atingiu o alvo. O Wargal sobrevivente
olhou para os camaradas feridos e se arrastou para o es-
conderijo oferecido pelas rochas. Will atirou outra flecha
no granito exatamente acima de sua cabea para encora-
j-lo a ficar onde estava.
        O garoto examinou a aljava. Ainda restavam 16
flechas. No era muito, se os Wargals tinham pedido re-
foros. Ele olhou para Evanlyn. Seus esforos para reavi-
var o fogo pareciam enlouquecedoramente lentos. Ele
queria gritar para que ela se apressasse, mas percebeu que
s iria distra-la e retard-la. Will olhou novamente para o
tnel.
        Mais quatro vultos surgiram correndo e se sepa-
rando para no serem pegos juntos. Will ergueu o arco,
mirou e atirou no que estava mais longe,  direita. Ele
soltou um pequeno grito de desespero quando a flecha
voou para trs da figura que corria e logo desapareceu a-
trs das pedras.
       Agradecendo os meses de treinamento a que Halt o
tinha submetido, Will j havia tirado outra flecha da aljava
e se preparava para atirar mesmo sem olhar para ela. Mas
os outros trs vultos tambm tinham desaparecido.
       Naquele momento, um deles se ergueu e disparou
para a frente. O tiro sem pontaria de Will cortou o ar aci-
ma da cabea do alvo no momento em que ele se escon-
deu. Logo, outro se moveu para a esquerda, mergulhando
num esconderijo antes que Will pudesse atirar. Os inimi-
gos corriam rapidamente, e Will se esforou para respirar
fundo e se acalmar. Seu corao martelava dentro do pei-
to. Ele se lembrou da ltima vez, apenas algumas semanas
antes, em que o medo o fizera errar o alvo. Seu rosto fi-
cou com uma expresso dura quando ele decidiu que isso
no aconteceria de novo.
       -- Fique calmo -- ele falou para si mesmo, ten-
tando ouvir a voz de Halt dizendo essas palavras.
       Outro vulto deu uma breve corrida e, desta vez,
quando a luz do fogo o iluminou melhor, os olhos de Will
confirmaram o que ele tinha comeado a suspeitar.
       Os recm-chegados no eram Wargals. Eram es-
candinavos.
Totalmente exausto, Gilan dormiu como uma pedra por
seis horas na barraca para onde Halt o tinha levado. Du-
rante todo esse tempo, no se mexeu nem uma vez. Sua
mente e seu corpo se fecharam, tirando novas foras do
descanso total.
       Depois dessas seis horas, o seu subconsciente co-
meou a ficar agitado e a funcionar, e ele comeou a so-
nhar. Sonhou com Will, Horace e a garota Evanlyn. Mas o
sonho era turbulento e confuso, e ele viu os trs captura-
dos pelos Wargals, amarrados juntos enquanto os dois la-
dres Bart e Carney olhavam e riam.
       Gilan virou para o lado resmungando enquanto
dormia. Halt, sentado perto dele, consertando as penas de
suas flechas, olhou para o jovem arqueiro, viu que ainda
estava adormecido e voltou  tarefa rotineira. Gilan res-
mungou de novo e depois ficou em silncio.
       No sonho, Gilan viu a criada Evanlyn como o rei a
tinha descrito: com os cabelos compridos e soltos caindo
nas costas, espessos, lustrosos e ruivos.
       E ento ele se sentou totalmente acordado.
        -- Meu Deus! -- ele disse para um espantado Halt.
-- No  ela!
        Halt praguejou quando derrubou a cola grossa e
viscosa que estava usando para prender as penas de ganso
ao cabo das flechas. O movimento repentino de Gilan o
pegara de surpresa. Agora, ele estava limpando o lquido
grudento e, um tanto irritado, se virou para o amigo.
        -- Ser que voc podia avisar quando vai comear
a gritar desse jeito? -- ele perguntou de mau humor.
        Mas Gilan j estava fora da cama, pegando a cala e
a camisa.
        -- Tenho que ver o rei! -- ele disse ansioso.
        Halt se levantou cauteloso, pois estava desconfiado
de que o rapaz estivesse sofrendo uma crise de sonambu-
lismo. O jovem arqueiro passou por ele depressa e dispa-
rou pela noite, enfiando a camisa na cala enquanto anda-
va. Relutantemente, Halt o seguiu.
        Houve uma pequena demora quando chegaram ao
pavilho do rei. A guarda tinha sido trocada vrias horas
antes, e as novas sentinelas no conheciam Gilan. Halt a-
jeitou tudo, mas no antes de Gilan t-lo convencido de
que era vital ver o rei Duncan, mesmo que isso significas-
se acord-lo de um sono merecido.
        Contudo, eles constataram que, apesar de ser muito
tarde, o rei no estava dormindo. Ele e o comandante su-
premo de seu exrcito estavam discutindo possveis razes
para os ataques a Cltica quando Gilan, descalo, despen-
teado e com vrios botes da camisa ainda abertos, rece-
beu permisso para entrar no pavilho. Sir David olhou
para cima e se assustou com a aparncia do filho.
       -- Gilan! Que diabos voc est fazendo aqui? --
ele perguntou, mas Gilan o interrompeu com um gesto da
mo.
       -- Um momento, pai -- ele pediu. Ento conti-
nuou encarando o rei.
       -- Majestade, quando descreveu a criada Evanlyn
hoje cedo, falou de cabelos ruivos?
       Sir David olhou para Halt em busca de uma expli-
cao. O arqueiro mais velho deu de ombros, e sir David
se virou para o filho com uma expresso zangada no ros-
to:
       -- Que diferena isso faz?
       Mas novamente o filho o interrompeu, ainda se di-
rigindo ao rei.
       -- A garota com o nome de Evanlyn  loira, senhor
-- ele disse simplesmente.
       Desta vez, foi o rei Duncan que levantou a mo
pedindo silncio ao seu zangado mestre de guerra.
       -- Loira? -- ele repetiu.
       -- Loira, senhor. Os cabelos estavam bem curtos,
como eu disse, mas eram loiros como os seus. E ela tinha
olhos verdes -- Gilan contou e observou Duncan com
cuidado, porque percebeu a importncia do que estava di-
zendo.
       O rei hesitou um momento e cobriu o rosto com
uma das mos. Ento ele falou com a esperana crescendo
na voz.
       -- E o corpo? Ela era magra? Pequena estatura?
       Gilan assentiu ansioso.
       -- Como eu disse, senhor, por um momento ns a
confundimos com um garoto. Ela deve ter usado a iden-
tidade da criada porque pensou que seria mais seguro se
permanecesse incgnita.
       Agora ele entendia as leves hesitaes nas frases de
Evanlyn e por que ela entendia mais de poltica e estrat-
gia do que era de se esperar de uma criada.
       Lentamente, Halt e sir David comearam a perce-
ber a importncia do que estava sendo dito. O rei olhou
de Gilan para Halt, depois para David e de novo para Gi-
lan.
       -- Minha filha est viva -- ele disse devagar. Hou-
ve um longo silncio que finalmente foi quebrado por sir
David.
       -- Gilan, a que distncia voc ficou dos dois a-
prendizes e da garota?
       -- Possivelmente dois dias a cavalo, pai -- o rapaz
respondeu, depois de hesitar e seguiu o pai at a mesa do
mapa onde indicou o ponto mais distante em que imagi-
nou que Will e os outros pudessem estar naquele mo-
mento.
       Sir David assumiu o controle imediatamente, man-
dando mensageiros acordarem o comandante da cavalaria
para que preparasse uma companhia que deixaria o acam-
pamento naquele exato momento.
       -- Vamos mandar uma companhia dos Quintos
Lanceiros busc-los, senhor -- ele disse ao rei. -- Se par-
tirem daqui uma hora e cavalgarem durante a noite, deve-
ro fazer contato l pelo meio-dia de amanh.
       -- Eu posso guiar eles -- Gilan se ofereceu imedi-
atamente, e o pai concordou com um gesto.
       -- Esperava que dissesse isso.
       Gilan segurou o brao do rei e sorriu com verda-
deiro prazer diante do alvio que viu no rosto do homem.
       -- No posso lhe dizer o quanto estou satisfeito
pelo senhor -- falou.
       O rei olhou para ele um pouco confuso. Muito re-
centemente, estivera chorando a perda da amada filha,
Cassandra. Agora, milagrosamente, ela tinha voltado  vi-
da.
       -- Minha filha est viva -- ele repetiu. -- E est
em segurana.




       Evanlyn se agachou sobre a pilha de madeira ao
lado da cerca da ponte. De tempos em tempos, ouvia o
som surdo do arco de Will quando ele atirava num inimi-
go que se aproximava, mas se obrigava a no olhar para
cima, concentrando-se na tarefa que tinha a realizar. Ela
sabia que tinham uma ltima chance de acender o fogo
adequadamente. Se errasse, isso significaria uma desgraa
para o reino. Assim, ela empilhou e arrumou a madeira
com cuidado, garantindo que havia espao suficiente entre
os pedaos para uma boa ventilao. Agora, ela no tinha
mais raspas de madeira para acender o fogo, mas a alguns
metros de distncia havia uma fonte de fogo perfeita. O
cabo da direita ainda estava ardendo intensamente.
       Satisfeita ao ver a madeira empilhada corretamente,
ela pegou a faca de Will e cortou vrios pedaos de 1 me-
tro de corda coberta de piche -- pedaos finos, no do
cabo grosso propriamente dito, pois teria sido quase im-
possvel cort-los a tempo.
       Evanlyn pegou os pedaos de corda, levantou-se e
disparou pela ponte at o fogo ardente do outro lado. Eles
queimaram com facilidade, ento ela correu de volta para
a pilha de madeira, pendurando as cordas incandescentes
ao redor da base, enfiando-as nos espaos que tinha dei-
xado entre as tbuas. As chamas lambiam seus dedos en-
quanto empurrava a corda para o meio dos pedaos de
madeira. Ela mordeu o lbio ignorando a dor e se certifi-
cou de que o fogo queimava livremente.
       As chamas alimentadas pelo piche fizeram a ma-
deira estalar e a incendiaram. Evanlyn as abanou por al-
guns segundos at que ficassem mais fortes e os pedaos
de madeira mais finos estivessem queimando intensamen-
te. Logo, as tbuas mais grossas tambm comearam a
pegar logo. O corrimo se incendiou em vrios pontos, e
lnguas de fogo, estimuladas pelo piche, envolveram o ca-
bo e depois subiram at onde ele se juntava  estrutura de
madeira do poste.
       Somente ento a garota se permitiu olhar para Will.
Seus olhos estavam ofuscados pelo fogo, e ela o via so-
mente como uma figura embaada atrs de um monte de
rochas, a 5 metros de distncia. Ele se levantou e atirou
uma flecha. Evanlyn olhou para a escurido que os cerca-
va, mas no viu sinal de seus atacantes.
       A ponte deu outro solavanco violento, e a passarela
se inclinou perigosamente quando a segunda das trs cor-
das que formavam o cabo da direita queimou e a estrutura
caiu ainda mais para o lado. Eles no teriam muito tempo
para voltar para onde Horace e Puxo os esperavam. Ela
tinha que avisar Will.
       Com a faca na mo, correu o mais depressa que
pde at onde ele estava agachado, atrs das rochas, pro-
curando sinais de movimento na escurido. Ele olhou ra-
pidamente para Evanlyn quando a garota chegou.
       -- O outro lado est queimando -- ela contou. --
Vamos sair daqui.
       Com uma expresso sombria, ele balanou a cabea
negativamente e apontou com o queixo para um monte de
pedras a cerca de 30 metros de onde estavam.
       -- No posso arriscar -- ele disse. -- Um deles
est atrs daquelas pedras. Se sairmos, ele pode ter tempo
de salvar a ponte.
       Com o canto do olho, ela viu um movimento rpi-
do  esquerda e apontou depressa.
       -- L est um deles!
       Will assentiu.
       -- Estou vendo -- ele respondeu devagar. -- Est
tentando fazer que eu atire nele. Assim que eu fizer isso, o
que est mais perto de ns vai ter uma chance. Tenho que
esperar que ele se mostre para poder atirar.
       Ela olhou horrorizada para o amigo quando enten-
deu a importncia do que ele tinha dito.
       -- Mas isso significa que outros podem se aproxi-
mar da gente -- ela concluiu.
       Will no disse nada. O pnico que tinha comeado
a sentir fora agora substitudo por um tranquilo senti-
mento de coragem. No fundo de seu corao, parte dele
estava satisfeita por no ter decepcionado Halt e por ter
retribudo a confiana que tinha tido nele quando o esco-
lheu como aprendiz.
       Ele olhou para Evanlyn por um longo momento, e
ela percebeu que o rapaz estava disposto a ser capturado
se isso mantivesse o inimigo longe da ponte alguns minu-
tos mais.
       "Capturado ou morto", ela pensou.
       Atrs deles ouviu-se um estrondo forte e, quando
se virou, Evanlyn viu o primeiro cabo finalmente ceder
em meio a uma chuva de chamas e fascas, levando junto a
parte superior do poste. Aquele era o resultado que que-
riam. Eles tinham discutido a ideia de simplesmente cortar
os cabos principais, mas isso teria deixado a estrutura mais
importante da ponte intocada. Os postes tinham que ser
destrudos. Agora, toda a ponte estava inclinada, suspensa
pelo cabo esquerdo, e as chamas j estavam comeando a
devor-lo. Ela sabia que a ponte estaria destruda em mais
alguns minutos. A fenda seria intransponvel outra vez.
        Will tentou dar um sorriso tranquilizador, mas no
foi muito bem-sucedido.
        -- No tem mais muita coisa que voc possa fazer
aqui -- ele disse. -- Atravesse a ponte enquanto ainda
tem tempo.
        Evanlyn hesitou, desejando desesperadamente ir,
mas no queria deixar Will sozinho. Ela se deu conta de
que ele era apenas um garoto, mas estava disposto a se sa-
crificar por ela e por todo o reino.
        -- V! -- ele ordenou virando-se e empurrando-a.
        Evanlyn teve a impresso de ver um brilho de l-
grimas nos olhos dele. Os dela tambm ficaram mareja-
dos, e ela no conseguiu v-lo com clareza. Piscou para
enxergar melhor no momento exato em que uma rocha
pontiaguda saiu da noite iluminada pelo fogo, descreven-
do um movimento em curva.
        -- Will! -- gritou, mas era tarde demais.
        A pedra o atingiu na lateral da cabea. Ele gemeu
surpreso, revirou os olhos e caiu aos ps dela com o cr-
nio j ensopado de sangue. A garota ouviu passos cor-
rendo vindo de vrias direes. Jogou a faca para o lado e
procurou o arco de Will na terra. Ela o encontrou e estava
tentando colocar nele uma flecha quando mos speras a
agarraram, jogaram o arco no cho e prenderam seus bra-
os ao lado do corpo. O escandinavo a segurou num a-
brao forte e pressionou o rosto dela contra a pele de
carneiro spera do colete que cheirava a gordura, fumaa e
suor, quase a sufocando. Ela tentou chut-lo, agitando os
ps e a cabea, mas no conseguiu.
       Ao seu lado, Will estava deitado imvel na poeira.
Evanlyn comeou a soluar. Sentia-se frustrada, furiosa e
triste ouvindo os escandinavos rirem. Ento, outro som
veio e eles pararam. Os braos que a seguravam afrouxa-
ram um pouco, e ela viu do que se tratava.
       Era um gemido forte e agudo vindo da ponte. O
suporte do lado direito tinha desaparecido, e o do lado
esquerdo, j abalado pelo fogo, estava agora sustentando
toda a estrutura. Mesmo se ainda estivesse em perfeitas
condies, no tinha sido feito para suportar aquela carga.
Com um estalido final, o poste se quebrou no meio e,
com cabos e tudo o mais, a ponte caiu lentamente nas
profundezas da fenda, deixando uma trilha brilhante de
fascas na escurido.
Gilan   observou impaciente a companhia de cavaleiros
montar de novo aps uma pausa de quinze minutos. Ele
estava ansioso para partir, mas sabia que tanto os cavalos
quanto os homens precisavam descansar se quisessem
continuar no ritmo acelerado que tinha determinado. J
haviam viajado um dia e meio, e ele calculou que iriam
encontrar o grupo de Will em algum momento do comeo
da tarde.
       Depois de verificar se todos os homens tinham
montado, ele se virou para o capito ao seu lado.
       -- Tudo bem, capito -- ele disse. -- Vamos an-
dando.
       O capito tinha respirado fundo para proferir a or-
dem quando ouviu um chamado da tropa que ia  frente.
       -- Cavaleiro se aproximando!
       Um burburinho de expectativa correu entre os ca-
valeiros. A maioria no sabia qual era a misso. Eles ti-
nham sido tirados da cama ao amanhecer e recebido or-
dem de montar e cavalgar. Gilan estava em p nos estri-
bos, protegendo os olhos com a mo da claridade do
meio-dia, e espiava na direo que o soldado tinha indi-
cado.
        Eles ainda no tinham chegado  fronteira celta, e
ali a regio era aberta, coberta somente de grama e bos-
ques ocasionais. Os olhos de Gilan conseguiram enxergar
uma pequena nuvem de poeira a sudoeste provocada por
uma figura que vinha se aproximando a galope.
        -- Seja l quem for, est com pressa -- o capito
observou.
        E ento o soldado que estava  frente gritou mais
informaes.
        -- Trs cavaleiros! -- ele disse.
        Mas Gilan j podia ver que a informao no era
totalmente correta. Havia trs cavalos, mas somente um
cavaleiro. Uma sensao de desnimo lhe apertou o peito.
        -- Devemos mandar algum interceptar eles? -- o
capito perguntou.
        Em tempos como aqueles, nem sempre era acon-
selhvel permitir que um estranho se aproximasse naquela
velocidade. Mas agora que o cavaleiro estava mais perto
Gilan o reconheceu. Mais exatamente, reconheceu um dos
cavalos: pequeno, desgrenhado, peito largo. Era Puxo, o
cavalo de Will. Mas no era Will que o montava.
        A tropa de comando j tinha se espalhado para pa-
rar o cavaleiro.
        -- Diga a eles para deixar o cavaleiro passar -- Gi-
lan disse em voz baixa ao capito.
       O capito repetiu a ordem em voz bem mais alta, e
os soldados se separaram, deixando um espao para Ho-
race. Ele viu o pequeno grupo de homens ao redor da
bandeira da companhia e se dirigiu at eles, fazendo o pe-
queno cavalo de arqueiro parar na frente dela. Os outros
cavalos, que Gilan agora reconhecia como o de Horace e
o pnei de carga que Evanlyn tinha montado, estavam
seguindo Puxo presos a uma corda.
       -- Eles pegaram Will! -- o garoto gritou com voz
rouca reconhecendo Gilan entre o grupo de soldados. --
Eles pegaram Will e Evanlyn!
       Gilan fechou os olhos brevemente sentindo uma
pontada de dor no corao.
       -- Wargals? -- ele perguntou j sabendo a respos-
ta.
       -- Escandinavos! -- o rapaz respondeu. -- Eles
pegaram os dois na ponte. Eles...
       Gilan teve um sobressalto quando ouviu essa pala-
vra.
       -- Ponte? -- ele indagou ansioso. -- Que ponte?
       Horace respirava com dificuldade por causa do es-
foro. Ele tinha trocado de cavalo, passando de um para
outro, mas sem descansar em nenhum momento. Ento,
percebendo que devia comear pelo incio ele parou para
recuperar o flego.
       -- Sobre a fenda -- ele contou. -- Foi por isso que
Morgarath sequestrou os celtas. Eles estavam construindo
uma ponte enorme para ele atravessar seu exrcito. J es-
tava quase terminada quando chegamos l.
        O capito, ao lado de Gilan, tinha empalidecido.
        -- Voc quer dizer que h uma ponte atravessando
a fenda? -- ele indagou.
        As implicaes desse fato eram terrveis.
        -- No mais -- Horace retrucou com a respirao
mais tranquila e a voz um pouco mais controlada. -- Will
queimou ela. Will e Evanlyn. Mas eles ficaram do outro
lado para manter os escandinavos afastados e...
        -- Escandinavos! -- Gilan interrompeu. -- Que
diabos os escandinavos esto fazendo no planalto?
        -- Eles so um grupo de reconhecimento para uma
fora que est subindo pelos Penhascos do Sul -- Horace
contou e fez um gesto impaciente por causa da interrup-
o. -- Os escandinavos iam juntar foras com os War-
gals, cruzar a ponte e atacar o exrcito pela retaguarda.
        Os soldados da cavalaria trocaram olhares. Todos
imaginavam o quanto esse ataque poderia ser desastroso
para as foras do rei.
        -- Felizmente a ponte no existe mais -- disse um
tenente. Horace lanou seu olhar atormentado para o ofi-
cial, um jovem apenas poucos anos mais velho do que ele.
        -- Mas eles pegaram Will! -- gritou, e seus olhos se
encheram de lgrimas ao lembrar como tinha visto o a-
migo ser derrubado e levado embora.
        -- E a garota -- Gilan acrescentou, mas Horace
no deu importncia a isso.
        -- Sim! Claro que pegaram ela! -- o garoto reafir-
mou. -- E sinto que ela tenha sido apanhada, mas Will 
meu amigo!
        -- Voc sente que ela tenha sido apanhada? Voc
sabe quem... -- o capito interrompeu indignado, pois era
um dos poucos que conhecia a verdadeira natureza de sua
misso.
        Mas Gilan o impediu antes que pudesse falar mais:
        -- J basta, capito! -- replicou com irritao. O
oficial olhou para ele zangado, Gilan se inclinou para a
frente e falou para que s ele ouvisse.
        -- Quanto menos pessoas souberem o nome da
garota agora, melhor -- ele disse, e uma expresso de en-
tendimento surgiu no rosto do capito.
        Se Morgarath soubesse que seus homens tinham a
filha do rei como refm, ele teria uma moeda valiosa com
que barganhar.
        -- Horace, eles podem consertar essa ponte? --
Gilan perguntou virando-se novamente para o jovem.
        O rapaz negou com veemncia. Ele estava arrasado
com a perda do amigo, mas o orgulho pelo feito de Will
era evidente.
        -- De jeito nenhum -- afirmou. -- Ela foi total-
mente destruda. Will garantiu que nada ficasse do outro
lado.  por isso que foi pego. Ele queria ter certeza de que
tinha destrudo ela por completo.
        Ele parou e continuou.
       -- Talvez eles consigam fazer uma pequena ponte
de corda,  claro.
       Isso fez Gilan tomar uma deciso. Ele se virou para
o capito.
       -- Capito, continue com a companhia e se certi-
fique de que nenhum tipo de ponte seja colocado sobre a
fenda. No queremos que nenhuma fora de Morgarath
atravesse, por menor que seja. Faa que Horace lhe mos-
tre o local num mapa. Defenda o lado oeste da fenda at
ser substitudo e envie patrulhas para localizar outros pos-
sveis pontos de travessia. No vai haver muitos -- ele
ajuntou. -- Horace, voc vem comigo falar com o rei.
Agora.
       Ele parou abruptamente ao perceber que Horace
estava esperando uma oportunidade para falar algo, ento
fez um gesto para que o garoto continuasse.
       -- Os escandinavos -- Horace falou. -- Eles no
esto s no planalto. Tambm esto enviando uma fora
para o norte da Floresta Thorntree.
       Houve outra srie de murmrios quando os oficiais
perceberam como seu exrcito tinha estado perto do de-
sastre. Duas foras inesperadas atacando pela retaguarda
teriam deixado os homens do rei em situao muito difcil.
       -- Voc tem certeza disso? -- Gilan perguntou, e
Horace assentiu vrias vezes.
       -- Will ouviu uma conversa do inimigo. As foras
deles no litoral e no pantanal so apenas artifcios. O pla-
no era realizar o verdadeiro ataque por trs.
       -- Ento no temos nenhum momento a perder --
Gilan repetiu. -- Essa fora no noroeste ainda pode re-
presentar um problema se o rei no souber a respeito.
       Ele se virou para o comandante da companhia.
       -- Capito, voc j recebeu suas ordens. Leve seus
homens at a fenda o mais rpido possvel.
       O capito saudou Gilan brevemente e proferiu al-
gumas ordens firmes para seus homens. Eles saram a ga-
lope ao encontro de suas tropas e, depois de uma rpida
conferncia enquanto Horace mostrava o local da ponte
cada num mapa da rea, toda a companhia se ps a ca-
minho dirigindo-se em passo rpido para a fenda.
       -- Vamos -- Gilan disse simplesmente virando-se
para Horace. Cansado, o jovem guerreiro concordou e
montou o prprio cavalo.
       Puxo hesitou, batendo a pata no cho enquanto
via a cavalaria se afastar de volta para onde tinha visto seu
dono pela ltima vez. O cavalo deu alguns passos incertos
atrs da tropa e ento, a um comando de Gilan, relutan-
temente se colocou atrs do alto arqueiro.
A dor de cabea de Will era insuportvel. Ele ouvia um
rudo surdo constante e rtmico que atravessava seu crnio
e disparava clares atrs dos olhos firmemente fechados.
       O garoto se obrigou a abrir os olhos e viu um cole-
te de pele de carneiro e a parte de trs de uma cala de l
amarrada com tiras de couro. O mundo estava de cabea
para baixo, e ele percebeu que estava sendo carregado no
ombro de algum. O rudo surdo era provocado pelos ps
do homem enquanto corria. Will gostaria que ele andasse.
       O aprendiz gemeu alto e o homem parou de correr.
       -- Erak! -- o escandinavo que o carregava gritou.
-- Ele acordou.
       E, dizendo isso, o escandinavo o abaixou at o
cho. Will tentou dar um passo, mas seus joelhos fraque-
jaram, e ele teve que se agachar. Erak, o lder do grupo, se
inclinou e o examinou. Um polegar grosso encostou em
sua plpebra, e Will sentiu o olho ser aberto. O homem
no era cruel, mas tambm no foi muito gentil. Will o
reconheceu como o escandinavo que tinha estado muito
perto de descobri-lo quando ouvia a conversa junto da
fogueira no vale.
        -- Hum -- ele resmungou pensativo. -- Parece
que  uma concusso. Aquele arremesso de pedra foi
muito bom, Nordel -- ele disse para um dos outros.
        O escandinavo com quem ele falou, um gigante de
cabelos loiros arrumados em duas tranas apertadas e en-
gorduradas que ficavam espetadas para o alto como chi-
fres, sorriu com o elogio.
        -- Cresci caando focas e pinguins desse jeito --
ele contou com alguma satisfao.
        Erak soltou a plpebra de Will e se afastou. Ento o
menino sentiu um toque mais suave no rosto e, abrindo os
olhos outra vez, viu-se olhando para o rosto de Evanlyn.
Ela acariciou sua testa gentilmente, tentando limpar o
sangue seco que estava grudado ali.
        -- Voc est bem? -- ela perguntou, e ele fez que
sim e percebeu na mesma hora que no tinha sido uma
boa resposta.
        -- timo -- ele conseguiu dizer lutando contra
uma onda de nusea. -- Eles tambm pegaram voc? --
acrescentou desnecessariamente, e ela assentiu. -- Hora-
ce? -- perguntou devagar, e Evanlyn ps um dedo sobre
os lbios.
        -- Ele fugiu -- ela disse baixinho. -- Eu o vi cor-
rendo quando a ponte caiu.
        -- Ento ns conseguimos? Derrubamos a ponte?
-- Will perguntou suspirando aliviado.
       Agora era a vez de Evanlyn concordar. Ela at sor-
riu ao se lembrar da ponte desabando nas profundezas da
fenda.
       -- Ela se foi. Totalmente.
       Erak ouviu as ltimas palavras e olhou para eles.
       -- E vocs no vo receber agradecimentos de
Morgarath por isso -- falou.
       Will sentiu um calafrio de medo ao ouvir o nome
do Senhor da Chuva e da Noite. Ali no planalto, ele pare-
cia ainda mais ameaador, perigoso e perverso. O escan-
dinavo olhou para o sol.
       -- Vamos fazer uma pausa -- ele disse. -- Talvez
o seu amigo esteja disposto a andar daqui a uma hora.
       Os escandinavos abriram as sacolas e tiraram co-
mida e bebida. Jogaram uma garrafa de gua e um peque-
no po para Will e Evanlyn, e os dois comeram com von-
tade. Evanlyn comeou a dizer alguma coisa, mas Will le-
vantou a mo para que ficasse em silncio. Ele estava ou-
vindo a conversa dos escandinavos.
       -- Ento, o que vamos fazer agora? -- perguntou
o homem chamado Nordel.
       Erak mastigou um pedao de bacalhau seco, engo-
liu-o com um gole da bebida forte que carregava num
cantil de couro e deu de ombros.
       -- Por mim, ns sairamos daqui o mais depressa
possvel -- o outro respondeu. -- S viemos por causa
do prmio, e ele no vai ser grande agora que a ponte no
existe mais.
        -- Morgarath no vai gostar se formos embora --
avisou um membro baixo e forte do grupo.
        Erak simplesmente deu de ombros.
        -- Horak, no estou aqui para ajudar Morgarath a
conquistar Araluen -- ele respondeu. -- Nem voc. Lu-
tamos pelo dinheiro e, quando tem algum para ser ganho,
ns vamos.
        Horak olhou para o cho entre os ps e rabiscou na
poeira com os dedos. Ele no olhou para cima quando
falou outra vez.
        -- E esses dois? -- ele quis saber, e Will ouviu
Evanlyn respirar fundo quando percebeu que o escandi-
navo falava deles.
        -- Vo com a gente -- Erak retrucou e, desta vez,
Horak tirou os olhos do cho.
        -- Que bem eles vo fazer para a gente? Por que
simplesmente no entregamos eles aos Wargals? -- ele
perguntou, e os outros concordaram com murmrios.
        Evidentemente, era uma pergunta que estava na
mente de todos, e eles s esperavam que algum tocasse
no assunto.
        -- Eu vou lhe dizer -- Erak comeou. -- Eu vou
lhe dizer o bem que vo fazer para a gente. Em primeiro
lugar, eles so refns, certo?
        -- Refns! -- resmungou o quarto membro do
grupo, que no tinha falado at aquele momento.
        Erak se virou para encar-lo.
        -- Isso mesmo, Svengal -- ele confirmou. -- So
refns. Eu participei de mais ataques e campanhas que
qualquer um de vocs e no gosto do que est aconte-
cendo com este. Parece que Morgarath est ficando es-
perto demais, todo esse vazamento de planos falsos, e
construo de tneis secretos, e planejamento de ata-
ques-surpresa com Horth e seus homens vindo pela Flo-
resta Thorntree  complicado demais. E, quando se en-
frentam pessoas como os araluenses, nada se pode ser
complicado.
        -- Horth ainda pode atacar pelo lado de Thorntree
-- Svengal disse teimoso, mas Erak balanou a cabea
negativamente.
        -- Ele pode. Mas no vai saber que a ponte no
existe mais, vai? Vai esperar um apoio que nunca chegar.
E tenho a impresso de que Morgarath no est com
pressa de contar isso para ele, pois sabe que Horth iria de-
sistir se descobrisse. Escute o que estou dizendo: essa ba-
talha vai ser resolvida na sorte. Esse  o problema com
planos inteligentes! Se faltar um elemento, toda a coisa
pode desabar.
        Houve um curto silncio. Os outros escandinavos
pensavam sobre o que o colega tinha dito. Alguns con-
cordaram com um gesto, e Erak continuou.
        -- Vou lhes dizer, rapazes, no gosto do rumo que
as coisas esto tomando e digo que devemos aproveitar a
oportunidade de chegar at os navios de Horth pelo pan-
tanal.
        -- Por que no voltar pelo caminho pelo qual vie-
mos? -- Svengal perguntou, mas seu lder balanou a ca-
bea com nfase.
        -- E tentar descer esses penhascos outra vez com
Morgarath atrs de ns? No, obrigado. No acho que ele
trataria desertores com delicadeza. Vamos ficar com ele
at o Desfiladeiro dos Trs Passos e depois, quando esti-
vermos em terreno aberto, vamos para a costa leste.
        Ele fez uma pausa para que todos assimilassem suas
palavras.
        -- E vamos ter esses dois refns no caso de os a-
raluenses tentarem nos parar -- acrescentou.
        -- Mas so crianas! -- Nordel ajuntou irnico. --
Que utilidade tm como refns?
        -- Voc no viu o amuleto em forma de folha de
carvalho que o garoto est usando? -- Erak perguntou e,
instintivamente, a mo de Will foi at o cordo pendurado
no pescoo. -- Esse  o smbolo dos arqueiros. O garoto
 um deles. Talvez algum tipo de aprendiz.
        -- E a menina? -- Svengal perguntou. -- Ela no 
arqueira.
        --  verdade -- Erak concordou. --  s uma
menina. Mas no vou entregar nenhuma garota para os
Wargals. Vocs viram como eles so. Essas criaturas so
piores do que animais. No. Ela vem com a gente.
        Houve outro momento de silncio.
        -- Acho justo -- Horak concordou finalmente.
        Erak olhou para os demais e viu que Horak tinha
falado em nome de todos. Os escandinavos eram guerrei-
ros e homens duros, mas no totalmente desumanos.
        -- Bom -- ele disse. -- Agora vamos pegar a es-
trada outra vez.
        Ele se levantou e andou at Will e Evanlyn, en-
quanto os outros escandinavos guardavam o que tinha
sobrado da breve refeio.
        -- Voc consegue andar? -- ele perguntou para
Will. -- Ou Nordel vai ter que carregar voc de novo?
        Will corou de irritao e se levantou depressa, mas
no mesmo instante desejou ter ficado sentado. O cho os-
cilou e a cabea dele girou. O garoto cambaleou e somen-
te a mo firme de Evanlyn em seu brao evitou que casse.
Mas estava determinado a no mostrar fraqueza na frente
de seus captores. Endireitou o corpo e lanou para Erak
um olhar desafiador.
        -- Vou andar -- ele conseguiu dizer, e o grande
escandinavo o analisou por um momento com um olhar
avaliador.
        -- Sim -- ele disse finalmente. -- Tenho certeza
que vai.
O mestre de guerra David torcia as pontas do bigode ao
olhar para o plano desenhado na mesa de areia.
        -- No sei, Halt -- ele disse em tom de dvida. --
 muito arriscado. Um dos princpios da luta armada 
nunca dividir as foras.
        Halt concordou. Ele sabia que as crticas do cava-
leiro tinham inteno de ser construtivas, no eram sim-
plesmente pensamentos negativos. Sir David tinha a fun-
o de encontrar falhas no plano e compar-las a possveis
vantagens.
        -- Isso  verdade -- o arqueiro respondeu. -- Mas
tambm  verdade que a surpresa  uma arma poderosa.
        O baro Tyler andou ao redor da mesa, analisando
o plano sob outro ponto de vista. Ele apontou a massa
verde que representava a Floresta Thorntree com a adaga.
        -- Voc tem certeza de que Gilan consegue guiar
uma grande fora de cavalaria atravs de Thorntree? Pen-
sei que ningum fosse capaz de atravessar essa floresta --
ele perguntou hesitante, e Halt concordou.
        -- Os arqueiros mapearam e estudaram cada cen-
tmetro do reino durante anos, meu senhor -- ele disse ao
baro. -- Especialmente as partes que as pessoas acham
que so intransponveis. Podemos surpreender essa fora
no norte. E ento Morgarath vai ser apanhado tambm,
quando nenhum escandinavo surgir atrs de ns.
        Tyler continuou a andar em volta da mesa, olhando
atentamente para os desenhos feitos ali e para os marca-
dores colocados no mapa de areia.
        -- Mesmo assim, vamos estar numa grande enras-
cada se os escandinavos derrotarem Halt e a cavalaria a-
qui, no norte. Afinal, vocs vo ter quase a metade de
homens.
        -- Isso  verdade -- Halt concordou. -- Mas ns
vamos pegar eles em terreno aberto, e isso  uma vanta-
gem. E no esquea que vamos levar 200 unidades de ar-
queiros. Elas devem equilibrar um pouco esse nmero.
        Uma unidade de arqueiro consistia em dois ho-
mens: um arqueiro e um lanceiro, apoiando-se mutua-
mente. Contra uma infantaria levemente armada, eles e-
ram uma combinao mortal. Os arqueiros podiam redu-
zir um grande nmero de inimigos a distncia. Quando a
batalha se transformava num combate corpo a corpo, o
lanceiro assumia a luta e permitindo que os arqueiros se
retirassem em segurana.
        -- Mas -- o baro Tyler insistiu -- vamos supor
que os escandinavos consigam vencer e atravessar. Ento
a mesa vai ser virada. Ns vamos enfrentar um inimigo
real no noroeste com a retaguarda exposta para os War-
gals de Morgarath vindos do desfiladeiro.
        Arald conseguiu reprimir um suspiro. Como estra-
tegista, Tyler era conhecidamente cauteloso.
        -- Por outro lado -- ele disse tentando ao mximo
manter a impacincia fora da voz -- se Halt tiver xito,
vai ser o grupo dele que Morgarath avistar vindo do no-
roeste. Vai supor que so os escandinavos nos atacando
daquela direo e vai levar suas foras para as plancies
para nos atacar por trs. E ento ns o pegaremos. De
uma vez por todas.
        A possibilidade pareceu agradar a ele.
        -- Ainda  um risco -- Tyler retrucou teimoso.
        Halt e Arald trocaram um olhar, e o baro deu de
ombros levemente.
        -- Toda luta armada  arriscada, senhor. Do con-
trrio, seria fcil.
        O baro Tyler olhou para ele com uma expresso
zangada, mas Halt o encarou com tranquilidade. Quando
o baro abriu a boca para responder, sir David o impediu
batendo uma luva na palma da mo num gesto decisivo.
        -- Tudo bem, Halt -- ele disse. -- Vou apresentar
seu plano ao rei.
        Ao ouvir a meno ao rei, a expresso de Halt se
suavizou um pouco.
        -- Como sua majestade est encarando as novida-
des? -- ele perguntou, e sir David deu de ombros infeliz.
       --  claro que pessoalmente ele est arrasado. Foi
um golpe muito cruel ver as esperanas renascerem para
logo depois serem derrubadas novamente. Mas ele encon-
tra um jeito de deixar a vida pessoal de lado e continuar a
desempenhar suas funes de rei. Diz que vai se lamentar
mais tarde, quando tudo isso acabar.
       -- Talvez no haja motivos para lamentaes --
Arald ajuntou, e David sorriu para ele tristemente.
       -- Eu falei isso para ele, mas ele disse que prefere
no alimentar falsas esperanas outra vez.
       Houve um silncio esquisito na barraca. Tyler,
Fergus e sir David sentiam muita tristeza pelo rei. Duncan
era um monarca popular e justo. Halt e o baro Arald, por
sua vez, sentiam muito a perda de Will. Num tempo in-
crivelmente curto, o garoto tinha se tornado parte inte-
grante do Castelo Redmont. Finalmente, foi sir David
quem quebrou o silncio.
       -- Senhores, talvez vocs queiram comear a pre-
parar suas ordens. Vou levar este plano ao rei.
       E, quando ele entrou nas sees internas do pavi-
lho, os bares e Halt deixaram a grande barraca. Arald,
Fergus e Tyler se afastaram rapidamente para preparar
ordens de movimento para o exrcito. Halt viu um vulto
desanimado com a capa verde e cinzenta esperando no
posto da sentinela e desceu a pequena colina para falar
com seu antigo aprendiz.
       -- Quero partir e atravessar a fenda atrs deles --
Gilan disse. Halt sabia como o rapaz sofria com a perda
de Will. Gilan se recriminava por t-lo deixado sozinho
nas colinas de Cltica. No importava quantas vezes Halt
e os outros arqueiros lhe tivessem dito que aquela tinha
sido a medida acertada, ele se recusava a acreditar nisso.
Agora, Halt sabia que iria doer mais se seu pedido fosse
recusado.
        No entanto, como arqueiros, seu primeiro dever era
para com o reino. Ele fez que no e respondeu rispida-
mente.
        -- Recusado. Precisamos de voc aqui. Vamos le-
var uma fora atravs de Thorntree para impedir a passa-
gem dos homens de Horth. V at a barraca de Crowley e
pegue os mapas que mostram as trilhas secretas para a-
quela parte do pas.
        -- Mas... -- Gilan comeou depois de hesitar um
pouco.
        Seu rosto estava tenso, mas algo no olhar de Halt o
fez parar quando o arqueiro mais velho se inclinou para a
frente.
        -- Gilan, ser que passou pela sua cabea que no
quero arrancar pedra atrs de pedra daquele planalto at
encontrar Will? Voc e eu fizemos um juramento quando
aceitamos estas folhas de carvalho de prata, e agora temos
que cumprir o que prometemos.
        Gilan baixou o olhar e concordou. Seu ombros fi-
caram cados quando ele cedeu.
        -- Tudo bem -- ele disse em voz baixa, e Halt
pensou ter visto um brilho de lgrimas em seus olhos.
      Ele se virou depressa antes que Gilan percebesse
que os dele tambm estavam midos.
      -- Pegue os mapas -- ele disse rapidamente.
Os quatro      escandinavos e seus prisioneiros haviam ca-
minhado com dificuldade pelo planalto deserto e varrido
pelo vento at a noite chegar. Erak ordenou que parassem
somente vrias horas depois de escurecer, e Will e Evan-
lyn se deixaram cair no cho pedregoso agradecidos. A
dor de cabea de Will tinha diminudo um pouco durante
o dia, mas o ferimento ainda latejava. O sangue seco onde
a pedra pontiaguda o tinha atingido coava terrivelmente,
mas ele sabia que, se coasse o ferimento, abriria e torna-
ria a sangrar.
        Pelo menos Erak no os tinha mantido amarrados
ou impedido seus movimentos de nenhuma forma. Como
o lder dos escandinavos tinha dito, no havia lugar para
onde os prisioneiros pudessem fugir.
        -- Este lugar est cheio de Wargals -- ele tinha di-
to asperamente. -- Vocs podem se arriscar a encontrar
com eles, se preferirem.
        Assim, eles ficaram no meio do grupo, passando
por bandos de Wargals o dia todo e indo cada vez mais
para o nordeste, na direo do Desfiladeiro dos Trs Pas-
sos. Naquele momento, os quatro escandinavos soltaram
as pesadas sacolas no cho, e Nordel comeou a juntar
lenha para o fogo. Svengal jogou uma grande panela de
cobre aos ps de Evanlyn e fez sinal na direo de um ri-
acho que borbulhava entre pedras prximas.
       -- V pegar gua -- ele disse de mau humor.
       A garota hesitou por um momento, ento deu de
ombros, pegou a panela e se levantou gemendo suave-
mente quando seus msculos e juntas cansados foram o-
brigados mais uma vez a suportar seu peso.
       -- Venha, Will -- ela disse como quem no quer
nada. -- Venha me ajudar.
       Erak estava remexendo na sacola aberta e virou a
cabea de repente:
       -- No! -- ele disse rispidamente, e todo o grupo
se virou para olh-lo.
       Erak apontou o dedo grosso para Evanlyn.
       -- No me importo que voc saia por a -- ele
disse -- porque sei que vai voltar. Mas o arqueiro pode
resolver fugir, apesar de tudo.
       Will, que tinha pensado em fazer exatamente isso,
tentou parecer surpreso.
       -- No sou um arqueiro -- ele disse. -- Sou s um
aprendiz.
       -- Talvez seja verdade -- Erak respondeu rindo
com desdm. -- Mas voc derrubou aqueles Wargals na
ponte to bem quanto qualquer arqueiro. Fique onde eu
possa vigiar.
        Will deu de ombros, sorriu fracamente para Evan-
lyn e se sentou de novo, suspirando ao se recostar numa
rocha. Ele sabia que logo ela ficaria dura, encaroada e
desconfortvel. Mas, naquele exato momento, era uma
bno.
        Os escandinavos se puseram a montar acampa-
mento. No demorou muito para que tivessem acendido
um bom fogo; quando Evanlyn voltou com o pote cheio
de gua, Erak e Svengal pegaram provises secas que co-
locaram na panela para fazer um cozido. A refeio era
simples e um tanto inspida, mas era quente e encheu o
estmago. Pesaroso, Will se lembrou da comida que saa
da cozinha do mestre Chubb. Com tristeza, ele se deu
conta de que agora esses pensamentos e os momentos
passados na floresta com Halt eram somente lembranas.
Imagens vinham  sua mente sem ser convidadas: Puxo,
Gilan e Horace. O Castelo Redmont, visto sob os ltimos
raios do sol poente, com suas paredes de pedras duras
como ferro que emitiam um brilho vermelho plido como
se tivessem uma luz interior. Lgrimas se formaram em
seus olhos e arderam ao serem derramadas. Sem que nin-
gum visse, ele tentou enxug-las com as costas da mo.
De repente, a refeio ficou com menos gosto que antes.
        Evanlyn pareceu perceber aquela tristeza cada vez
maior. Will sentiu a mo quente e pequena da garota co-
brir a sua e soube que ela estava olhando para ele. Mas o
aprendiz no conseguiu encarar aqueles olhos verdes, pois
as lgrimas estavam prestes a cair.
        -- Vai ficar tudo bem -- ela sussurrou.
        Will tentou falar, mas no conseguiu proferir as pa-
lavras. Ento, ele fixou o olhar na superfcie arranhada da
tigela de madeira em que os escandinavos tinham lhe dado
comida.
        Eles estavam acampados a alguns metros da estra-
da, no alto de uma pequena elevao. Erak tinha dito que
gostava de ver qualquer pessoa que quisesse se aproximar.
Nesse momento, virando uma curva da estrada a vrias
centenas de metros de distncia, vinha um grande grupo
de cavaleiros seguidos por uma tropa de Wargals que cor-
riam para acompanhar o trote dos cavalos. O som da
cantoria das criaturas chegou at eles trazido pela brisa,
outra vez, e Will sentiu um calafrio na nuca.
        Erak se virou rigidamente para os dois, fazendo um
gesto para que se escondessem entre as pedras atrs do
acampamento.
        -- Depressa, vocs dois! Atrs das pedras, se do
valor  vida! Aquele  o prprio Morgarath no cavalo
branco! Nordel, Horak, venham para baixo da luz enco-
brir eles.
        Will e Evanlyn no precisaram de um segundo
convite. Eles se esgueiraram abaixados at o esconderijo
proporcionado pelas pedras. Seguindo as ordens de Erak,
os dois escandinavos se levantaram e ficaram junto da luz
da fogueira, desviando a ateno dos cavaleiros que se
aproximavam das duas pequenas figuras que se encontra-
vam na semi-escurido.
       A cantoria, misturada com o bater dos cascos dos
cavalos e o tilintar dos escudos e das armas, ficou mais
prxima quando Will se deitou de bruos, com um dos
braos cobrindo Evanlyn. Como j tinha feito antes, ele
puxou o capuz da capa sobre a cabea para esconder o
rosto nas sombras profundas. Havia uma pequena fresta
entre duas rochas e, sabendo que estava correndo um ris-
co terrvel, mas incapaz de resistir, ele espiou atravs dela.
       A viso estava restrita a alguns metros. Erak estava
do outro lado da fogueira, de frente para os cavaleiros que
se aproximavam. Will percebeu que, ao fazer isso, ele ti-
nha colocado o brilho da luz do fogo entre os re-
cm-chegados e o ponto em que ele e Evanlyn estavam
escondidos. Se algum dos Wargals olhasse em sua direo,
olharia diretamente para o fogo brilhante. Era uma lio
de ttica que ele guardou para uso futuro.
       O barulho de cavalos e homens parou. A cantoria
dos Wargals morreu abruptamente. Houve um silncio de
um ou dois segundos. Ento, uma voz se fez ouvir. Uma
voz baixa que sibilava como uma cobra.
       -- Capito Erak, para onde est indo?
       Will se esforou para ver quem falava. No havia
dvida de que aquela voz fria e perversa pertencia a Mor-
garath. Ela soava como se estivesse envolta em gelo e -
dio. Tinha o som de unhas raspando em ladrilhos. O san-
gue gelava quando ela se fazia ouvir. Os pelos da nuca de
Will se eriaram e, debaixo de sua mo, ele sentiu Evanlyn
estremecer.
       Mas, se a voz exercia o mesmo efeito em Erak, ele
no demonstrava.
       -- Meu ttulo correto  "jarl", lorde Morgarath --
ele disse com calma --, no "capito".
       -- Ento preciso tentar me lembrar disso, no caso
de eu ter algum interesse em saber -- Morgarath disse
com a voz fria. -- Agora... capito -- ele continuou enfa-
tizando o ttulo --, eu repito: para onde est indo?
       Houve um rudo de arreios e, pela fresta nas pedras,
Will viu um cavalo branco avanar. No um cavalo branco
de pelos brilhantes como o que seria montado por um ga-
lante cavaleiro, mas um cavalo claro com um pelo sem
brilho e sem vida. Ele era enorme, de um branco sujo e
com olhos selvagens que no paravam de se movimentar.
O aprendiz se inclinou um pouco para o lado e conseguiu
enxergar uma mo coberta por uma luva preta que segu-
rava as rdeas levemente. Mas isso foi tudo o que viu do
cavaleiro.
       -- Pensamos que iramos unir nossas foras no
Desfiladeiro dos Trs Passos, senhor -- Erak explicou. --
Suponho que o senhor ainda continuar com o ataque,
mesmo que a ponte tenha cado.
       Morgarath praguejou terrivelmente  meno da
ponte. Sentindo sua fria, o cavalo branco deu alguns
passos para o lado, e assim Will pde ver quem o monta-
va.
       Imensamente alto, mas magro, ele estava todo ves-
tido de preto. Inclinou-se na sela para falar com os escan-
dinavos, e os ombros curvos e a capa preta o faziam pa-
recer um abutre.
       O rosto era fino, e o nariz parecia um bico. A pele
do rosto era branca e plida como o cavalo. Os cabelos
compridos loiros esbranquiados e j rareando estavam
arrumados de modo a emoldurar o contorno do couro
cabeludo. Por contraste, os olhos eram lagos negros. Ele
no usava barba, e sua boca era uma linha vermelha que
cortava a palidez do rosto.
       O Senhor da Chuva e da Noite pareceu sentir a
presena de Will. Ele olhou para cima e para alm de Erak
e seus trs companheiros, procurando algo na escurido
atrs deles. O garoto ficou paralisado, mal ousando respi-
rar enquanto os olhos negros o procuravam. Mas a luz do
fogo derrotou Morgarath e ele voltou a ateno para Erak.
       -- Sim -- ele respondeu. -- O ataque vai aconte-
cer. Agora que Duncan est com as foras distribudas no
que considera uma posio defensiva forte, ele vai permi-
tir que cheguemos at as plancies antes de atacar.
       -- Momento em que Horth vai apanhar ele pelas
costas -- Erak completou com uma risadinha, e Morga-
rath olhou para ele com a cabea levemente inclinada es-
tudando-o.
       Novamente, a pose parecida com a de um pssaro
lembrou a Will um abutre.
       -- Exatamente -- ele concordou. -- Seria prefer-
vel que houvesse duas foras que atacassem pelas laterais,
como eu tinha planejado originalmente, mas uma deve ser
suficiente.
       -- Tambm penso assim, senhor -- Erak concor-
dou, e houve um longo momento de silncio.
       Obviamente, Morgarath no tinha interesse em sa-
ber se Erak concordava ou no com ele.
       -- Tudo seria mais fcil se seus companheiros no
tivessem nos abandonado -- Morgarath disse por fim. --
Disseram para mim que seu compatriota Ovlak navegou
de volta para a Escandinvia com seus homens. Eu tinha
planejado que eles subissem os Penhascos do Sul para nos
fortalecer.
       -- Ovlak  um mercenrio -- Erak disse, dando de
ombros, recusando-se a assumir a culpa por algo que es-
tava fora de seu alcance. -- No se pode confiar em mer-
cenrios. Eles lutam s pelo dinheiro.
       -- E voc... no? -- Morgarath perguntou sem
emoo, com uma nota de escrnio na voz.
       Erak endireitou os ombros.
       -- Eu honro qualquer tarefa que assumo -- ele
disse rgido. Morgarath olhou para ele durante um longo e
silencioso momento. O escandinavo o encarou e, final-
mente, foi o outro quem desviou o olhar.
       -- Chirath me disse que voc fez um prisioneiro na
ponte... um guerreiro poderoso, ele disse. Eu no vejo ele.
       Novamente, Morgarath tentou enxergar na escuri-
do do outro lado da luz. Erak soltou uma risada spera.
       -- Se Chirath era o lder de seus Wargals, ele tam-
bm no viu o prisioneiro -- o escandinavo respondeu
irnico. -- Ele passou a maior parte do tempo na ponte
escondido atrs de uma pedra e se desviando das flechas.
       -- E o prisioneiro? -- Morgarath repetiu.
       -- Morto -- Erak respondeu. -- Ns matamos ele
e jogamos no abismo.
       -- Um fato que me desagrada profundamente --
Morgarath retrucou, e Will sentiu um arrepio percorrer
sua pele. -- Eu teria preferido fazer ele sofrer por interfe-
rir nos meus planos. Voc deveria ter trazido ele vivo para
mim.
       -- Bem, ns preferiramos que ele no tivesse ati-
rado flechas em volta de nossas orelhas. Ele sabia atirar,
isso  verdade. A nica forma de pegar ele foi acabando
com sua vida.
       Houve outro silncio enquanto Morgarath pensava
na resposta. Aparentemente, ela no o satisfazia.
       -- Que isso sirva de conselho para o futuro. No
aprovei o que fez.
       Desta vez, foi Erak que deixou o silncio se pro-
longar. Ele deu de ombros levemente, como se o despra-
zer de Morgarath no o interessasse. Por fim, o Senhor da
Chuva e da Noite pegou as rdeas e as sacudiu, obrigando
o cavalo a se virar, afastando-se da fogueira com selvage-
ria.
       -- Espero ver voc no Desfiladeiro dos Trs Pas-
sos, capito -- ele disse.
       Ento, como se tivesse pensado melhor, fez o ca-
valo voltar.
       -- E, capito, nem pense em desertar. Voc vai lu-
tar conosco at o fim.
       -- Eu j disse, senhor, vou honrar o acordo que fi-
zemos.
       Desta vez, Morgarath sorriu, apenas um movimen-
to leve dos lbios no rosto branco e sem vida.
       -- Pois faa isso, capito -- ele disse devagar.
       Em seguida, agitou as rdeas, seu cavalo se virou e
comeou a galopar. Os Wargals o seguiram e a cantoria
recomeou, enchendo a noite. Will percebeu que, atrs das
pedras, ele tinha prendido a respirao por muito tempo.
Soltou o ar dos pulmes e ouviu outro suspiro de alvio
dos escandinavos.
       -- Meu Deus das Batalhas -- Erak comentou. --
Esse homem realmente me assusta.
       -- Parece que ele j morreu e foi para o inferno --
Svengal disse. Erak andou em volta da fogueira e parou
onde Will e Evanlyn ainda estavam agachados, atrs das
rochas.
       -- Vocs ouviram isso? -- ele perguntou, e Will
fez que sim. Evanlyn continuou agachada, de rosto para
baixo, atrs das pedras.
       Erak a cutucou com a ponta do p.
       -- E voc, mocinha -- ele disse. -- Voc tambm
ouviu?
       Evanlyn olhou para ele com lgrimas de terror
marcando a poeira em seu rosto. Sem palavras, ela assen-
tiu. Erak olhou na direo para onde Morgarath e seus
Wargals tinham ido.
       -- Ento se lembrem disso se estiverem planejando
fugir -- ele tornou. -- Isso  tudo o que espera vocs se
se afastarem de ns.
As Plancies de Uthal formavam um enorme espao         a-
berto de campinas onduladas e cobertas de grama verde e
abundante. Havia poucas rvores, embora montes e coli-
nas baixas ocasionais servissem para quebrar a monotonia.
As plancies comeavam a se erguer aos poucos, forman-
do um pequeno morro a uma pequena distncia de onde o
exrcito de Araluen estava posicionado.
       Mais perto dos pntanos, onde os Wargals estavam
se reunindo, passava um riacho sinuoso. Normalmente
apenas um fio de gua, ele tinha encorpado por causa das
chuvas recentes de primavera e deixara o cho alm de
onde estavam os Wargals macio e pantanoso, impedindo
qualquer ataque da cavalaria pesada por parte de Araluen.
       O baro Fergus de Caraway protegeu os olhos con-
tra o sol forte do meio-dia e examinou as plancies com
cuidado, at a entrada do desfiladeiro dos Trs Passos.
       -- Eles so muitos -- disse em voz baixa.
       -- E tem mais chegando -- Arald de Redmont a-
juntou, ajeitando a espada de folha larga na bainha.
       Os dois bares estavam conduzindo seus cavalos
de batalha lentamente  frente do exrcito formado por
Duncan. Arald acreditava que fazia bem aos homens ver
seus lderes relaxados e conversando casualmente en-
quanto observavam os inimigos surgindo do desfiladeiro
estreito na montanha e se espalhando nas plancies. Eles
ouviam vagamente a cantoria ameaadora e ritmada dos
Wargals enquanto corriam para suas posies.
       -- Esse maldito barulho  mesmo irritante -- Fer-
gus resmungou, e Arald concordou.
       Aparentemente casual, lanou um olhar para os
homens atrs deles. O exrcito estava a postos, mas o
mestre de guerra David tinha mandado todos ficarem em
posio de descanso. Consequentemente, a cavalaria esta-
va desmontada, e a infantaria e os arqueiros estavam sen-
tados na inclinao coberta de grama.
       -- No h sentido em cans-los com a posio de
sentido no sol -- David tinha dito e recebido a concor-
dncia dos outros.
       Pelo mesmo motivo, ele tinha ordenado aos vrios
mestres de cozinha que fornecessem frutas e bebidas ge-
ladas  vontade aos homens. Os ajudantes vestidos de
branco se movimentavam entre os integrantes do exrcito,
carregando cestos e recipientes de gua. Arald olhou para
eles e sorriu diante da aparncia imponente de mestre
Chubb, chef do Castelo Redmont, supervisionando um
grupo de infelizes aprendizes que ofereciam mas e ps-
segos aos homens. Como sempre, sua colher se levantava
e abaixava com frequncia assustadora na cabea de qual-
quer aprendiz que ele achasse estar se movendo devagar
demais.
       -- D uma clava a esse seu mestre de cozinha e ele
vai conseguir derrotar o exrcito de Morgarath sozinho --
Fergus comentou fazendo Arald sorrir pensativo.
       Os homens em volta de Chubb e seus aprendizes,
distrados pelas caretas do gordo cozinheiro, no presta-
vam ateno  cantoria que atravessava as plancies. Em
outras reas, Arald podia ver sinais de inquietao e mos-
tras de que os homens estavam ficando cada vez mais in-
comodados na posio de descanso.
       Ao olhar  sua volta, Arald viu um capito de in-
fantaria sentado com sua companhia. Suas armaduras re-
duzidas, capas xadrez e espadas de folha larga mostravam
que pertenciam a um dos feudos do norte. Ele fez sinal
para que o homem se aproximasse e se inclinou na sela
para cumpriment-lo.
       -- Bom-dia, Capito -- ele disse com tranquilida-
de.
       -- Bom-dia, senhor -- o oficial respondeu com um
forte sotaque do norte que tornava suas palavras quase
incompreensveis.
       -- Diga-me, capito, o senhor tem tocadores de
gaita entre os seus homens? -- o baro perguntou sorrin-
do.
       -- Ah, sim, senhor -- o oficial respondeu imedia-
tamente muito srio. -- McDuig e McForn esto conos-
co. Eles vm sempre quando vamos para a guerra.
       -- Ento, o senhor pode pedir a eles que toquem
uma ou duas msicas para ns? -- o baro sugeriu. --
Certamente ser um som mais agradvel do que esses
grunhidos montonos que vm de longe.
       Ele inclinou a cabea na direo dos Wargals e logo
um sorriso se espalhou em seu rosto. O capito concor-
dou de imediato.
       -- Ah, sim, senhor. Vou providenciar. No h nada
como uns toques de gaita para fazer o sangue de um ho-
mem correr mais depressa nas veias!
       Cumprimentando rapidamente o baro, ele se afas-
tou na direo de seus homens, gritando enquanto corria.
       -- McDuig! McForn! Respirem fundo e peguem
suas gaitas, homens! Vamos ouvir um pouco de msica!
       Enquanto os dois bares continuavam a percorrer
as linhas, eles ouviram os primeiros acordes das gai-
tas-de-foles enchendo o ar. Fergus estremeceu, e Arald
sorriu para ele.
       -- Nada como alguns toques de gaita para fazer o
sangue de um homem correr mais depressa nas veias! --
repetiu.
       -- No meu caso, isso faz meus dentes baterem --
seu companheiro declarou e disfaradamente cutucou o
cavalo com o calcanhar para afast-lo um pouco do som
selvagem das gaitas.
       Mas, quando olhou para os homens atrs deles,
percebeu que a ideia de Arald tinha funcionado. As gaitas
estavam conseguindo abafar a cantoria montona, e os
dois msicos, marchando e contra-manchando na frente
do exrcito, atraam a ateno de todos os homens perto
deles.
       -- Boa ideia -- ele disse para Arald. -- No posso
deixar de me perguntar se essa  igualmente boa -- ele
acrescentou, fazendo um gesto para o outro lado da plan-
cie, onde os Wargals estavam surgindo do desfiladeiro e
assumindo suas posies.
       -- O meu instinto diz que vamos acabar com eles
antes que tenham a chance de entrar em formao.
       Arald deu de ombros. Essa questo tinha sido aca-
loradamente discutida pelo Conselho de Guerra nos lti-
mos dias.
       -- Se os atacarmos quando sarem, vamos sim-
plesmente cont-los -- ele disse. -- Se quisermos destruir
o poder de Morgarath de uma vez por todas, temos que
deixar que ele traga suas foras para terreno aberto.
       -- E esperar que Halt tenha sido bem-sucedido em
parar o exrcito de Horth -- Fergus completou. -- Estou
ficando com dor no pescoo de tanto olhar sobre o om-
bro para me certificar de que no h ningum atrs de
ns.
       -- Halt nunca nos decepcionou antes -- Arald
disse com tranquilidade.
       -- Eu sei disso -- Fergus concordou infeliz. -- Ele
 um homem notvel. Mas h tantas coisas que podem ter
dado errado. Ele pode no ter encontrado o exrcito de
Horth. Ainda pode estar tentando atravessar Thorntree.
Ou, ainda pior, Horth pode ter derrotado seus arqueiros e
a cavalaria.
       -- No h nada que possamos fazer sobre isso,
alm de esperar -- Arald ressaltou.
       -- E ficar de olho no noroeste, esperando no ver
achas e capacetes com chifres atravessando aquelas coli-
nas.
       -- A est um pensamento reconfortante -- Arald
disse tentando brincar.
       No entanto, no conseguiu resistir  tentao de se
virar na sela e espiar ansiosamente em direo s colinas
do norte.




       Erak tinha esperado at que as ltimas poucas cen-
tenas de Wargals estivessem descendo o Desfiladeiro dos
Trs Passos para as plancies e ento obrigou seu pequeno
grupo a entrar no meio das criaturas apressadas. Houve
alguns rosnados e caras feias quando os escandinavos a-
briram caminho aos empurres entre o fluxo vivo que se-
guia as trilhas estreitas e sinuosas do desfiladeiro, mas os
guerreiros do mar; pesadamente armados, rosnaram de
volta e manejaram suas achas com tamanha facilidade que
os zangados Wargals logo recuaram e os deixaram em paz.
       Evanlyn e Will estavam no centro do grupo cerca-
dos pelos corpulentos escandinavos. A capa de arqueiro
de Will, facilmente reconhecvel, tinha sido escondida em
uma das sacolas e tanto ele quanto Evanlyn usavam casa-
cos de pele de carneiro grandes demais. Os cabelos curtos
de Evanlyn estavam cobertos por um capuz de l. At a-
quele momento, nenhum dos Wargals tinha prestado a-
teno neles, supondo que eram criados ou escravos do
pequeno grupo de guerreiros do mar.
       -- Fiquem de boca fechada e com os olhos no
cho! -- Erak tinha dito a eles quando atravessaram a
multido de Wargals apressados.
       As trilhas estreitas do desfiladeiro ecoavam a canto-
ria montona que os Wargals usavam para marcar a ca-
dncia. O som se espalhava e flutuava ao redor deles. O
plano de Erak era avanar para o leste to logo tivesse sa-
do do desfiladeiro, aparentemente com o propsito de
ocupar uma posio no flanco direito do exrcito dos
Wargals. Assim que a oportunidade aparecesse, os escan-
dinavos se afastariam e fugiriam para a selva alagadia dos
pntanos, viajando pelos charcos e ilhas cobertas de grama
at as praias em que a frota de Horth estava ancorada.
       Eles avanaram com dificuldade, girando e virando
de acordo com as curvas do desfiladeiro. A trilha estreita
descia atravs das montanhas por pelo menos 5 quilme-
tros, e Will entendeu por que ela sempre tinha sido uma
barreira de ambos os lados. Os homens de Morgarath no
podiam passar em grandes nmeros a menos que Duncan
ficasse para trs e permitisse. Da mesma forma, o exrcito
do rei no podia entrar no desfiladeiro para atacar Morga-
rath no planalto.
       Paredes negras de rochas lisas, midas e brilhantes
se elevavam acima deles de ambos os lados. O desfiladeiro
via a luz do sol por menos de uma hora todos os dias,
perto do meio-dia. A qualquer outra hora, era frio, mido
e envolto em sombras. Isso tudo ajudava a esconder a
presena dos dois jovens membros de olhares curiosos.
       Will sentiu o cho debaixo dos seus ps comear a
ficar plano e percebeu que eles deviam estar no final do
desfiladeiro, quase no nvel da plancie. Preso no meio da
multido agitada e apressada, no havia como enxergar o
cho adiante dele. Eles viraram a ltima curva, e um raio
de sol mergulhou no desfiladeiro, obrigando o garoto a
proteger os olhos com a mo. Eles tinham chegado  en-
trada.
       -- V para a direita! -- Erak gritou empurrando-o.
       Os quatro escandinavos mudaram de direo, a-
brindo caminho entre a multido at chegarem ao lado
direito do desfiladeiro. Houve grunhidos e resmungos
zangados por parte dos Wargals, pois vrios deles foram
atirados para a frente e quase caram antes de recuperar o
equilbrio.
       A luz do sol os atingiu como uma barreira fsica
quando saram da escurido do desfiladeiro e, por um
momento, Will e Evanlyn hesitaram. Erak os empurrou
novamente, mais ansioso agora que ouvia uma voz conhe-
cida gritando comandos para os Wargals.
       Morgarath estava ali, dirigindo as operaes.
       -- Maldito seja! -- Erak resmungou. -- Eu espe-
rava que ele estivesse com a vanguarda do exrcito. Con-
tinuem andando, vocs dois!
       Ele empurrou Will e Evanlyn para que andassem
um pouco mais depressa. Will olhou para trs. Acima das
cabeas dos Wargals, conseguiu ver a figura alta e magra
do Senhor da Chuva e da Noite, agora usando roupa e
armadura totalmente pretas, ainda sentado em seu cavalo
branco e gritando ordens para os violentos e sonoros
Wargals.
       Aos poucos, eles estavam se posicionando em for-
maes ordenadas e se juntando ao exrcito principal.
Quando Will olhou para trs, o rosto plido se virou para
o grupo de escandinavos apressados, e Morgarath fez o
cavalo avanar na direo deles, sem dar importncia ao
fato de que estava pisoteando os prprios homens para
chegar l.
       -- Capito Erak! -- ele chamou.
       A voz no era alta, mas se fez ouvir, fina e cortante,
atravs da cantoria dos Wargals.
       -- Continuem a andar! -- Erak ordenou em voz
baixa. -- Continuem a se mexer.
       -- Parem!
        A raiva fria da voz instantaneamente parou e silen-
ciou os Wargals, que ficaram paralisados. Os escandinavos
fizeram o mesmo com relutncia, e Erak se virou para
encarar Morgarath.
        O Senhor da Chuva e da Noite conduziu o cavalo
pela multido, empurrando Wargals ou fazendo que cas-
sem para abrir caminho para ele. Lentamente, seus olhos
encontraram os de Erak, e ele desmontou. Mesmo em p,
erguia-se acima do forte lder escandinavo.
        -- E para onde voc e seus homens esto indo ho-
je, capito? -- ele indagou com uma voz suave.
        Erak fez sinal para a direita.
        -- Eu e meus homens costumamos lutar na ala di-
reita -- ele explicou o mais casualmente possvel. -- Mas,
se isso no estiver bom, vou para onde necessitar de mim.
        --  mesmo? -- Morgarath retrucou com sarcas-
mo. -- Ser que vai? Mas como o senhor  gentil. Voc...
-- ele se interrompeu ao olhar para as duas figuras meno-
res que os outros escandinavos tentavam esconder sem
sucesso.
        -- Quem so eles? -- Morgarath perguntou, e Erak
deu de ombros.
        -- Celtas -- o escandinavo disse rapidamente. --
Ns prendemos eles em Cltica e estou planejando vender
para o oberjarl Ragnak como escravos.
        -- Cltica  minha, capito. Escravos de Cltica
tambm so meus. Eles no esto aqui para voc levar e
vender eles para o seu rei brbaro.
        Os escandinavos que cercavam Will e Evanlyn se
mexeram zangados com essas palavras. Morgarath voltou
os olhos frios para eles e ento observou os milhares de
Wargals que os cercavam: cada qual pronto para obedecer
a qualquer ordem sem perguntas. A mensagem estava cla-
ra.
        Erak tentou iludir Morgarath.
        -- Nosso acordo diz que deveramos lutar pelo
prmio, e isso inclui escravos -- ele insistiu, mas Morga-
rath o interrompeu.
        -- Se vocs lutassem! -- ele gritou furioso. -- No
se ficassem assistindo  minha ponte ser destruda.
        -- Era seu homem, Chirath, que estava no co-
mando na ponte -- Erak disparou de volta. -- Foi ele que
decidiu no deixar nenhum guarda de vigia. Ns fomos os
nicos que tentaram salvar a ponte enquanto ele estava
escondido atrs das pedras.
        O olhar de Morgarath se fixou no de Erak mais
uma vez e sua voz caiu para um tom quase inaudvel.
        -- Ningum fala comigo nesse tom, capito Erak
-- ele disparou. -- Pea desculpas imediatamente. E de-
pois...
        Ele parou no meio da sentena. Parecia possuir
sentidos perifricos anormais. Embora estivesse olhando
para Erak sem piscar, aparentemente tinha percebido al-
guma coisa num dos lados. Os olhos negros se viraram e
ficaram presos em Will. Um dedo branco e ossudo estava
levantado, apontado para a garganta do garoto.
       -- O que  isso?
       Erak olhou e sentiu um frio na boca do estmago.
       Um brilho plido de bronze estava visvel na aber-
tura da gola da camisa de Will. Logo, Erak se sentiu em-
purrado para um lado quando Morgarath se moveu, rpi-
do como uma serpente, e agarrou a corrente em volta do
pescoo do rapaz.
       Horrorizado com a fria implacvel que viu naque-
les olhos apagados, Will cambaleou para trs. Ao seu lado,
ele ouviu Evanlyn respirar fundo quando Morgarath o-
lhou para a pequena folha de bronze em sua mo.
       -- Um arqueiro! -- ele berrou. -- Ele  um ar-
queiro! Aqui est seu smbolo!
       -- Ele  um menino... -- Erak comeou, mas a f-
ria de Morgarath se voltou contra ele, e o lder sombrio
estapeou o rosto do escandinavo com as costas da mo.
       -- Ele no  um menino! Ele  um arqueiro!
       Quando o colega foi estapeado, os outros trs es-
candinavos se afastaram, com as armas prontas. Morgara-
th nem mesmo teve que falar. Virou os olhos cintilantes
na direo dos Wargals e 20 deles se aproximaram gru-
nhindo, com bastes e lanas preparados.
       Erak fez um sinal para que seus homens se acal-
massem. A marca vermelha do tapa de Morgarath brilhava
em seu rosto.
       -- Voc sabia -- Morgarath acusou. -- Voc sabia
-- ento ele compreendeu. --  ele! Flechas, voc disse!
Os meus Wargals estavam se escondendo de flechas en-
quanto a ponte queimava! Arma de arqueiro! Esse  o
porco que destruiu minha ponte!
       A voz se transformou num grito esganiado.
       A garganta de Will estava seca, e o pavor fazia seu
corao bater forte. Ele conhecia o lendrio dio de Mor-
garath pelos arqueiros: todos os arqueiros conheciam. I-
ronicamente, o prprio Halt detonara esse dio quando
liderou o ataque-surpresa ao exrcito de Morgarath em
Hackman Heath, dezesseis anos antes.
       Erak ficou parado diante do lorde Negro sem falar
nada.
       Will sentiu uma mo pequena e quente se enroscar
na dele: Evanlyn. Por um momento, ficou admirado com
a coragem da garota de se unir a ele daquela forma diante
da fria e do dio implacvel de Morgarath.
       Ento, outro cavalo abriu caminho  fora entre a
multido. Na sela, vinha um dos tenentes de Morgarath,
um dos Wargals que tinha conhecimentos elementares da
comunicao com os humanos.
       -- Meu senhor -- ele chamou no tom estranho e
sem emoo dos Wargals. -- Avano do inimigo.
       O Senhor da Chuva e da Noite tomou uma deciso.
Ele saltou para a sela de seu cavalo, com o olhar furioso
agora preso em Will, no em Erak.
       -- Ns vamos terminar isso mais tarde -- ele avi-
sou virando-se ento para um sargento entre os que ti-
nham cercado os escandinavos. -- Mantenha esses prisi-
oneiros aqui at eu voltar. Sob pena de perder sua vida.
       O Wargal saudou seu chefe com um punho levan-
tado no lado esquerdo do peito e grunhiu um comando
aos seus homens. Eles cercaram o grupo dos escandina-
vos. Os quatro lobos do mar agora formavam um peque-
no crculo e olhavam para fora, mantendo Will e Evanlyn
no centro. Prontos para o ataque, eles seguravam as ar-
mas. A situao estava equilibrada e obviamente eles esta-
vam preparados para lutar at a morte.
       -- Vamos resolver isso mais tarde, Erak -- Mor-
garath repetiu. -- Tente escapar e meus homens vo cor-
tar vocs em pedaos.
       Virando o cavalo, ele galopou entre a multido ou-
tra vez, espalhando soldados em seu caminho, pisoteando
os que eram lentos demais para sair dele. A voz fina e na-
salada continuou gritando ordens para suas foras at de-
saparecer.
O primeiro choque entre os dois exrcitos no foi deci-
sivo. A linha dispersa do rei, consistindo em infantaria le-
ve acompanhada por arqueiros, avanou pelo flanco es-
querdo de Morgarath numa manobra de reconhecimento,
recuando rapidamente quando um batalho de infantaria
pesada se formou e avanou para enfrent-las.
        Os homens levemente armados fugiram precipita-
damente para a segurana das prprias linhas, adiante dos
Wargals que avanavam lentamente. Ento, enquanto uma
companhia de cavalaria pesada trotava para a frente, na
direo do flanco esquerdo do batalho de Wargals, estes
refizeram a formao, passando das colunas de quatro fi-
leiras para um quadrado de infantaria mais lento e defen-
sivo, e recuaram para as prprias linhas.
        Durante as prximas horas, esse continuou sendo o
padro da batalha: pequenas foras faziam reconheci-
mento das defesas do inimigo; foras maiores ofereciam
oposio, e o primeiro ataque perdia fora. Arald, Fergus
e Tyler montavam seus cavalos ao lado do rei num pe-
queno morro, no centro do exrcito real. O mestre de
guerra David acompanhava um pequeno grupo de cava-
leiros que fazia uma das muitas incurses na direo do
exrcito de Wargals.
       -- Todas essas idas e vindas esto me aborrecendo
-- Arald disse amargo.
       O rei sorriu para ele. Tinha uma das mais impor-
tantes qualidades de um bom comandante: uma pacincia
quase ilimitada.
       -- Morgarath est esperando -- ele disse simples-
mente. -- Est esperando que o exrcito de Horth apare-
a s nossas costas. Tenho certeza de que ento ele vai a-
tacar.
       -- Vamos partir para o ataque -- Fergus grunhiu,
mas Duncan fez que no, apontando para o solo imedia-
tamente na frente da posio de Morgarath.
       -- A terra ali est mole e pantanosa -- ele afirmou.
-- Isso vai reduzir a eficincia de nossa melhor arma, a
cavalaria. Vamos esperar at que Morgarath venha at ns.
Da, poderemos combat-lo num terreno mais apropriado.
       Houve um bater de cascos apressados vindo da re-
taguarda. O grupo real se virou e viu um mensageiro
conduzindo o cavalo para a ltima subida do morro. Ele
puxou as rdeas, olhou em volta e viu a cabea loira do
rei, ento impeliu o cavalo novamente, finalmente fazen-
do-o parar junto deles. Sua capa verde, a malha da arma-
dura leve e a espada de lmina fina mostravam que era um
batedor.
       -- Majestade -- ele disse sem flego, -- uma
mensagem de sir Vincent.
       Vincent era o lder do Corpo de Mensageiros, um
grupo de soldados que agia como olhos e ouvidos do rei
durante um conflito, levando mensagens e ordens para
todas as partes do campo de batalha. Duncan fez um ges-
to com a cabea indicando que o homem deveria conti-
nuar e apresentar a mensagem.
       O cavaleiro engoliu a saliva vrias vezes e olhou an-
siosamente para o rei e os trs bares. No mesmo instan-
te, Arald soube que as notcias no eram boas.
       -- Senhor -- o homem comeou hesitante. -- Os
respeitos de sir Vincent, senhor, e... parece que h escan-
dinavos atrs de ns.
       Houve exclamaes espantadas de vrios dos ofici-
ais jovens que rodeavam o grupo de comando. Fergus se
virou para eles com a testa franzida numa expresso sria.
       -- Fiquem quietos! -- ele vociferou e, num instan-
te, o barulho desapareceu.
       Os ajudantes pareceram envergonhados por sua
falta de disciplina.
       -- Exatamente onde esto esses escandinavos? E
quantos so? -- Duncan perguntou com calma ao men-
sageiro.
       Seus modos tranquilos pareceram contagiar o ra-
paz. E ele respondeu com muito mais confiana.
       -- O primeiro grupo pode ser visto no cume mais
baixo a noroeste, majestade. At agora s podemos ver
cerca de cem. Sir Vincent sugere que a melhor posio
para vocs observarem a situao seria da pequena colina
ao fundo,  nossa esquerda.
       O rei concordou e se virou para um dos oficiais
mais jovens.
       -- Ranald, talvez voc possa ir avisar sir David
dessa nova situao. Diga a ele que estamos mudando o
posto de comando para a colina que sir Vincent sugeriu.
       -- Sim, meu senhor! -- o jovem cavaleiro respon-
deu. Ele virou o cavalo e saiu a galope. O rei ento se vi-
rou para os companheiros.
       -- Amigos, vamos dar uma olhada nesses escandi-
navos.




       O baro Arald estudou o pequeno grupo de ho-
mens na colina atrs deles. Mesmo quela distncia, era
possvel distinguir os capacetes com chifres e os enormes
escudos redondos que os guerreiros do mar carregavam.
Um pequeno grupo tinha avanado para perto da colina, e
era fcil v-lo.
       Igualmente bvia foi a escolha da tpica formao
em ponta de flecha. Ele calculou que vrias centenas de
inimigos estavam agora visveis e que havia muitos outros
mais escondidos do outro lado das colinas. Sentiu um
grande peso de tristeza nos ombros. O fato de os escan-
dinavos estarem ali significava apenas uma coisa: Halt ti-
nha fracassado. E, conhecendo Halt como conhecia, sabia
que isso provavelmente significava que o velho arqueiro
tinha morrido na tentativa. Ele sabia que Halt nunca se
renderia, no quando a necessidade de impedir os escan-
dinavos de chegar  retaguarda do exrcito era to impor-
tante.
        Duncan disse o que pensava a todos os seus com-
panheiros.
        -- So mesmo os escandinavos.
        Ele olhou para o alto da colina.
        -- Vamos ter que lutar na defensiva, meus senho-
res -- ele continuou. -- Sugiro que comecemos a reunir
nossos homens num crculo em volta desta colina.  um
ponto to bom quanto outro qualquer para lutar dos dois
lados.
        Todos sabiam que era apenas uma questo de
tempo antes que Morgarath avanasse e os esmagasse en-
tre as duas mandbulas da armadilha que tinha preparado.
        -- Cavaleiro se aproximando! -- gritou um dos
soldados, enquanto apontava com o dedo.
        Todos se viraram para olhar o ponto que o rapaz
indicou. De um bosque  direita de um morro, um cava-
leiro solitrio ficou visvel de repente. Vrios escandinavos
o perseguiam, jogando lanas e bastes atrs dele. Mas ele
cavalgava colado ao pescoo do cavalo, com a capa cin-
za-esverdeada cintilando no vento, e logo deixou o inimi-
go para trs.
       --  Gilan -- o baro Arald murmurou reconhe-
cendo o cavalo baio.
       Ele procurou em vo um segundo arqueiro atrs de
Gilan, esperando, mesmo sabendo ser improvvel, que
Halt tivesse sobrevivido de alguma forma. Mas no viu
ningum mais. Os ombros do baro se curvaram um
pouco ao se dar conta de que Gilan parecia ser o nico
sobrevivente da fora que tinha partido com tanta ousadia
para a Floresta Thorntree.
       Gilan j estava em terreno plano e ainda galopava a
toda a velocidade. Ele viu os estandartes reais balanando
na colina e conduziu Blaze naquela direo. Em poucos
minutos e coberto de poeira, puxou as rdeas ao lado dos
outros homens, com uma das mangas da tnica rasgada e
uma atadura manchada de sangue ao redor da cabea.
       -- Senhor! -- ele disse sem flego, esquecendo o
protocolo para se dirigir  realeza. -- Halt diz que o se-
nhor pode...
       Ele no conseguiu falar mais, pois pelo menos qua-
tro pessoas o interromperam. A voz do baro Fergus,
contudo, era a mais alta.
       -- Halt? Ele est vivo?
       -- Ah, sim, senhor! Vivo e em plena atividade --
ele respondeu sorrindo.
       -- Mas os escandinavos... -- o rei Duncan come-
ou e mostrou as linhas de homens ao longe.
       O sorriso de Gilan aumentou ainda mais.
       -- Derrotados, senhor. Ns os pegamos totalmen-
te de surpresa e os fizemos em pedaos. Esses homens
so nossos arqueiros usando os capacetes e escudos to-
mados do inimigo. Foi ideia de Halt...
       -- Com que objetivo? -- Arald perguntou aspera-
mente, e Gilan se virou para ele com um gesto de descul-
pas para o rei.
       -- Para enganar Morgarath, senhor -- ele explicou.
-- Ele est esperando que os escandinavos ataquem pela
retaguarda, e  o que vai acontecer.  por isso que eles at
fingiram tentar me parar agora. Nossa cavalaria est exa-
tamente atrs do morro. Halt prope avanar com os ar-
queiros, obrigando vocs a se virarem para a retaguarda.
Ento, com alguma sorte, enquanto Morgarath ataca com
seus Wargals, os arqueiros e o seu exrcito principal de-
vem abrir um caminho no centro, permitindo que a cava-
laria oculta passe e atinja Morgarath quando estiver em
terreno aberto.
       -- Meu Deus,  uma tima ideia! -- Duncan elo-
giou com entusiasmo. --  provvel que levantemos tanta
poeira e criemos tanta confuso que ele no vai ver a ca-
valaria de Halt at que ela esteja bem na frente dele.
       -- Ento, meu senhor, podemos distribuir a cava-
laria pesada de qualquer um dos lados para atingir os
Wargals pelos flancos.
       Quem falava agora era sir David. Ele tinha chegado
despercebido enquanto Gilan explicava o plano de Halt.
       O rei Duncan hesitou por um segundo, passando a
mo pela barba curta, e depois concordou com um gesto
determinado.
       -- Vamos em frente! -- ele disse. -- Senhores, 
melhor irem falar com seus comandantes imediatamente.
Fergus, Arald, levem uma diviso da cavalaria pesada para
a esquerda e outra para a direita e fiquem preparados. T-
yler, comande a infantaria no centro. Certifique-se de que
eles saibam que esse  um falso ataque. E diga para grita-
rem e baterem as espadas nos escudos quando os "escan-
dinavos" se aproximarem. Vamos fazer parecer uma ba-
talha de verdade. Deixe-os preparados para se separar e ir
para os lados ao terceiro som da corneta.
       -- Ao terceiro som da corneta. Sim, meu senhor --
Tyler afirmou. Ele cutucou seu cavalo de batalha com os
estribos e se afastou a galope para assumir o comando da
infantaria. Duncan olhou para os outros comandantes.
       -- Vamos em frente, senhores. No temos muito
tempo.
       Um dos ajudantes chamou.
       -- Senhor! Os escandinavos esto descendo a coli-
na!
       Alguns segundos depois, outro homem repetiu o
grito.
       -- E os Wargals esto comeando a avanar!
       Duncan deu um sorriso sombrio para seus coman-
dantes:
      -- Acho que chegou o momento de fazer uma pe-
quena surpresa para Morgarath.
De sua posio de comando no centro de seu exrcito,
Morgarath observava a aparente confuso nas foras do
rei. Cavalos galopavam de um lado para outro, homens
giravam no lugar em que estavam, berros e gritos paira-
vam pela plancie e chegaram at o exrcito da Chuva e da
Noite.
        Morgarath estava de p nos estribos. De longe, ele
via movimento no morro ao norte do exrcito do reino.
Homens entravam em formao e avanavam. Ele se es-
forou para enxergar melhor. Aquela era a direo de on-
de esperava que Horth aparecesse, mas a poeira levantada
por toda a movimentao dificultava ver os detalhes.
        Embora grande parte das foras de Morgarath con-
sistisse em Wargals, cujos corpos e mentes tinham sido
escravizados de acordo com sua vontade, o Senhor da
Chuva e da Noite estava cercado por uma pequena roda
seleta de homens que tinham tido a permisso de conser-
var seus poderes de pensamento e deciso. Renegados,
criminosos e prias, eles vinham de todos os lados do pas.
O mal sempre atrai o mal, e o crculo interno de Morga-
rath era, de todas as formas, impiedoso, perverso e de-
pravado. Todos eram guerreiros capazes e quase todos
eram assassinos frios.
       Naquele momento, um deles cavalgou para junto
de Morgarath.
       -- Meu senhor! -- ele gritou com um sorriso largo
no rosto. -- Os brbaros esto atrs das foras de Dun-
can! E esto atacando agora!
       Morgarath devolveu o sorriso para o jovem rapaz.
Seus olhos eram conhecidos pela perspiccia.
       -- Tem certeza? -- ele perguntou com a voz fina e
montona. O tenente vestido de preto fez que sim com
segurana.
       -- Vejo seus ridculos capacetes com chifres e os
escudos redondos, senhor. Nenhum outro guerreiro os
usa.
       Isso era verdade. Embora algumas das foras do
reino usassem escudos redondos, os dos escandinavos era
imensos e feitos de madeira reforada com metal. Eles ti-
nham mais de 1 metro de dimetro e apenas os enormes
escandinavos, com msculos fortes de tanto remar seus
navios nos mares gelados, poderiam carregar escudos to
pesados numa batalha por tempo indeterminado.
       -- Olhe, meu senhor! -- continuou o jovem ofici-
al. -- O inimigo est se virando para enfrentar eles.
       E assim parecia ser. As fileiras da frente do exrcito
voltadas para eles agora estavam se movimentando con-
fusas e se virando. Os gritos e o barulho ficavam cada vez
mais altos. Morgarath olhou para a direita e viu a pequena
colina onde o estandarte do rei marcava o posto de co-
mando do inimigo. Vultos montados e virados para o
norte e surgiam no alto.
       Ele sorriu mais uma vez. Mesmo sem as foras que
cruzariam a ponte que atravessaria a fenda, seu plano seria
bem-sucedido. Ele tinha encurralado as foras de Duncan
entre o martelo dos escandinavos e a bigorna dos Wargals.
       -- Avance -- ele disse em voz baixa.
       Ento, como o mensageiro a seu lado no ouviu as
palavras, ele se virou com o rosto inexpressivo e chicote-
ou o homem no rosto com o cabo do chicote de montaria
de ao coberto de couro.
       -- D ordem para avanar -- ele repetiu no mes-
mo tom de voz anterior.
       O Wargal, ignorando a dor do corte feito pelo chi-
cote e o sangue que escorria da testa para o olho, levou a
corneta para os lbios e tocou uma escala ascendente de
quatro notas.
       Ao longo das linhas do exrcito de Wargals, co-
mandantes de companhia deram um passo  frente, um a
cada 100 metros. Eles ergueram as espadas curvas e ento-
aram os primeiros sons da cadncia dos Wargals. Como
uma mquina irracional, todo o exrcito comeou imedia-
tamente a cantoria, desta vez num ritmo bem lento, e a-
vanou para a frente.
        Morgarath deixou que as primeiras dezenas de fi-
leiras passassem por ele e ento, com seus ajudantes, im-
peliu os cavalos para a frente e acompanhou o exrcito.
        O Senhor da Chuva e da Noite sentiu a respirao
acelerar e o corao bater mais rpido. Esse era o mo-
mento que tinha planejado e esperado nos ltimos quinze
anos. No alto de suas montanhas varridas pelo vento e
pela chuva, ele tinha aumentado sua fora de Wargals at
que formassem um exrcito que nenhuma infantaria po-
deria derrotar. Como no eram donos de suas mentes,
quase no sentiam medo. Eles eram inexorveis. Sofreri-
am perdas que nenhuma outra tropa suportaria e continu-
ariam a avanar.
        Eles tinham apenas um ponto fraco: enfrentar a
cavalaria. As montanhas altas no eram lugar para cavalos,
e ele tinha sido incapaz de condicionar suas mentes a en-
frentar soldados montados. Morgarath sabia que perderia
muitas tropas para a cavalaria de Duncan, mas no se im-
portava com isso. Num confronto normal, a cavalaria do
rei seria um fator decisivo em sua batalha. Agora, porm,
divididos entre os Wargals e os escandinavos, seus ho-
mens seriam insuficientes para par-lo. Ele aceitava sem
escrpulos o fato de que a cavalaria de Duncan iria causar
grandes perdas entre suas tropas. No dava a mnima im-
portncia ao seu exrcito, somente aos prprios desejos e
planos.
        A poeira se levantava dos milhares de ps que cor-
riam de um lado para outro. A cantoria o cercava, um
ritmo primitivo de dio e maldade implacvel. Ele come-
ou a rir. Suavemente no incio, depois cada vez mais alto
e descontroladamente. Aquele era o seu dia. Aquele era o
seu momento. Aquele era o seu destino.
       Cruel, perverso e totalmente implacvel, ele era o
Senhor da Chuva e da Noite. Tambm era, sem dvida
alguma, insano.
       -- Mais depressa! -- ele gritou desembainhando a
enorme espada de folha larga e agitando-a em largos cr-
culos sobre a cabea.
       Os Wargals no precisavam ouvir nenhuma palavra.
Eles estavam ligados a ele num elo mental inquebrvel. A
cadncia do canto aumentou e o exrcito negro comeou
a se mover cada vez mais depressa.
       Mais  frente, tudo era confuso. O inimigo, que
primeiro se virara para enfrentar os escandinavos, agora
via a nova ameaa se aproximando na retaguarda. O exr-
cito do rei hesitou e, por algum motivo inexplicvel, rea-
giu aos trs toques de cometa se afastando para os lados,
abrindo um espao no corao de suas linhas. Morgarath
gritou triunfante. Ele levaria seu exrcito para esse espao,
separando as alas da direita e da esquerda. Quando a linha
de frente de um exrcito era quebrada, ela perdia toda a
coeso e o controle, e o caminho para a derrota j estava
parcialmente percorrido. Agora, em pnico, o inimigo o
estava presenteando com a oportunidade perfeita para
golpe-lo no fundo de seu corao. At tinha deixado o
caminho aberto para o centro de comando: o pequeno
grupo de cavaleiros parados debaixo do estandarte real na
colina.
        -- Para a direita! -- Morgarath berrou e apontou a
espada na direo da guia que enfeitava o estandarte do
rei Duncan.
        Como antes, os Wargals ouviram suas palavras e
seu pensamento. O exrcito virou ligeiramente, dirigin-
do-se para o espao. E agora, acima da cantoria, Morga-
rath ouviu um som retumbante e montono. Um som i-
nesperado.
        O bater de cascos de cavalo.
        A dvida repentina em sua mente imediatamente se
comunicou com as mentes dos integrantes de seu exrcito.
Houve uma vacilao momentnea no avano e ento,
amaldioando os Wargals, ele os impeliu para a frente no-
vamente. Mas o barulho dos cascos de cavalo continuava
e, examinando as nuvens de poeira levantadas pelo exr-
cito do inimigo, ele viu a movimentao e sentiu uma re-
pentina e incontrolvel onda de medo. Ento o exrcito
de Wargals hesitou novamente.
        E, desta vez, antes que pudesse mentalmente man-
d-los avanar, a cortina de poeira pareceu se dissipar, e
ele viu a cavalaria investindo a menos de 100 metros da
linha de frente de seu exrcito.
        No havia tempo para formar o tipo de quadrado
defensivo que seria a nica esperana contra um ataque da
cavalaria. Os soldados vestidos de armaduras invadiram
com violncia a extensa linha de frente dos Wargals, des-
truram a formao e entraram no centro do exrcito de
Morgarath. E, quanto mais penetravam, maior ficava o
espao, pois a cavalaria se espalhava e separava os War-
gals, exatamente como Morgarath tinha planejado fazer
com o inimigo.
       Morgarath ouviu um longo toque de cometa ao
longe. De p nos estribos, ele olhou para a direita e para a
esquerda e viu, vindo de cada ala do exrcito de Duncan,
mais elementos da cavalaria se aproximando por seus
flancos e derrubando suas formaes. Vagamente, ele se
deu conta de que tinha exposto seu exrcito  pior situa-
o possvel que poderia ter imaginado: ser apanhado em
terreno aberto com a fora total da cavalaria de Duncan.
       Os Wargals enfrentavam a nica fora que poderia
provocar medo em seus coraes. Morgarath sentiu a fa-
sca da derrota nas suas sombrias ondas mentais. Com o
pensamento, ele tentou obrig-los a continuar, mas a bar-
reira do medo estava por demais arraigada neles. Gritando
furioso, ele os fez recuar. Ento, virou seu cavalo e, com
os ajudantes que restavam, galopou de volta entre seu e-
xrcito, abrindo caminho com a espada.
       No Desfiladeiro dos Trs Passos, formou-se um
grande emaranhado quando milhares de soldados da reta-
guarda tentaram forar passagem pela estreita abertura
entre as rochas. No haveria escapatria para ele ali, mas
fugir era o ltimo pensamento em sua mente. Seu nico
desejo era se vingar das pessoas que fizeram seus planos
carem por terra. Ele reuniu as tropas restantes num semi-
crculo defensivo, com as costas voltadas para as rochas
lisas que barravam o caminho para o alto do planalto.
        Frustrado e furioso, ele tentou entender o que tinha
acabado de acontecer. O ataque dos escandinavos tinha
dado em nada, como se nunca tivesse acontecido. Os sol-
dados que avanaram morro abaixo usavam capacetes e
escudos escandinavos, mas tinha sido um estratagema pa-
ra faz-lo avanar. O fato de eles estarem usando capace-
tes e escudos significava que, em algum lugar, as foras de
Horth tinham sido derrotadas. Isso s poderia ter sido
conseguido se algum tivesse guiado uma fora para in-
tercept-las atravs do impenetrvel labirinto da Floresta
Thorntree. Algum?
        No fundo de sua mente, Morgarath sabia quem era
essa pessoa. No sabia como nem por qu. Mas sabia que
tinha de ser um arqueiro... e somente um deles poderia ter
feito isso.
        Halt.
        Um dio amargo e sombrio nasceu em seu corao.
Por causa de Halt, seu sonho estava se desmanchando na
frente de seus olhos. Por causa de Halt, metade de seus
soldados Wargals estava cada na poeira do campo de ba-
talha.
        Sabia que o dia estava perdido. Mas ele se vingaria
de Halt. E estava comeando a ver como conseguiria atin-
gir seu objetivo. Ele se virou para um de seus capites.
        -- Prepare uma bandeira de trgua -- ele disse
O principal exrcito do reino avanava lentamente pelo
campo de batalha em desordem. Os fortes ataques reali-
zados pela cavalaria vindo de trs lados tinham lhe dado
uma vitria decisiva no espao de alguns poucos minutos.
       Na segunda linha do grupo de comando, Horace
cavalgava ao lado de sir Rodney. O mestre de guerra tinha
escolhido Horace como eu ajudante, cavalgando ao seu
lado direito, em reconhecimento aos seus servios ao rei-
no. Era uma honra rara para quem participava de sua pri-
meira batalha, mas sir Rodney era da opinio que o rapaz
tinha mais que merecido.
       Horace viu o campo de batalha com um misto de
emoes. Por um lado, estava vagamente desapontado
pelo fato de que, at ali, no tinha sido chamado para lu-
tar. Por outro, sentia um grande alvio. A realidade da ba-
talha nada tinha a ver com os sonhos glamourosos que
tinha tido quando menino. Ele tinha imaginado uma ba-
talha como uma srie de aes cuidadosamente coorde-
nadas, quase coreografadas, envolvendo guerreiros habi-
lidosos executando atos de coragem. Era desnecessrio
dizer que nesses sonhos o guerreiro mais notvel e cora-
joso no campo tinha sido o prprio Horace.
        Em vez disso, ele viu com certo horror os golpes,
as estocadas e derramamento de sangue, a poeira e os gri-
tos diante dele. Homens, Wargals e cavalos tinham mor-
rido, e seus corpos estavam agora espalhados na poeira
das Plancies de Uthal como um monte de bonecas de
trapo. Foi tudo muito rpido, violento e confuso. Ele o-
lhou para sir Rodney. O rosto sombrio do mestre de
guerra lhe disse que era sempre daquele jeito.
        A garganta de Horace estava seca, e ele tentou ali-
vi-la engolindo um pouco de saliva. Uma pontada de d-
vida o atingiu. Ele se perguntou, caso fosse chamado para
lutar, se iria simplesmente ficar paralisado de medo. Pela
primeira vez na vida, tinha se dado conta de que as pesso-
as realmente morriam nas guerras. E que ele poderia ser
uma dessas pessoas. Tentou engolir novamente, mas no
foi mais bem-sucedido do que na primeira vez.




       Morgarath e seus soldados remanescentes estavam
numa formao defensiva na base dos penhascos. O cho
macio mantinha a cavalaria afastada, e no havia escolha a
no ser avanar com a infantaria e terminar o servio nu-
ma luta corpo a corpo.
       Qualquer comandante normal de foras inimigas j
teria admitido o resultado inevitvel e se rendido para
poupar as vidas das tropas restantes. Mas aquele era Mor-
garath, e todos sabiam que no haveria negociao. Os
guerreiros se endureceram para a difcil tarefa que os es-
perava. Seria uma luta sangrenta e sem sentido, mas no
havia outra alternativa. De uma vez por todas, o poder de
Morgarath devia ser derrubado.
       -- No entanto -- Duncan disse sombrio quando
sua linha de frente parou a apenas algumas centenas de
metros do meio crculo defensivo dos Wargals --, vamos
lhe oferecer a oportunidade de se render.
       Ele respirou fundo, pronto para mandar o corne-
teiro dar o sinal para uma conferncia, quando houve uma
movimentao na linha de frente do exrcito dos Wargals.
       -- Senhor! -- Gilan disse de repente. -- Eles esto
com uma bandeira de trgua.
       Os lderes do reino olharam com surpresa a ban-
deira branca ser desfraldada e carregada por um soldado
desmontado. Ele se aproximou e parou no terreno entre
as duas foras. Do fundo das fileiras dos Wargals, veio um
toque de corneta, cinco notas ascendentes: o sinal univer-
sal que solicitava uma conferncia. O rei Duncan fez um
pequeno gesto de surpresa, hesitou e deu um sinal para o
prprio corneteiro.
       -- Acho que  melhor ouvir o que ele tem a dizer
-- murmurou. -- D a resposta.
       O corneteiro umedeceu os lbios e tocou a aceita-
o em resposta: as mesmas notas na ordem inversa.
        -- Deve ser algum tipo de truque -- Halt disse
preocupado. -- Morgarath vai enviar um mensageiro para
falar enquanto foge. Ele vai...
        O arqueiro parou de falar quando as fileiras de
Wargals se separaram mais uma vez e uma figura se apro-
ximou em um cavalo. Imensamente alto e magro, usando
uma armadura preta e um capacete preto de bico de ps-
saro, era sem dvida alguma o prprio Morgarath. A mo
direita de Halt foi instintivamente para a aljava pendurada
em suas costas e, num segundo, uma flecha pesada, pr-
pria para perfurar armaduras, foi colocada na corda do
arco.
        O rei Duncan viu o movimento.
        -- Halt -- ele disse asperamente. -- Concordei
com uma trgua. No me faa quebrar minha palavra,
nem mesmo para Morgarath.
        O sinal da cometa era uma promessa de segurana
e, relutantemente, Halt devolveu a flecha  aljava. Duncan
fez um rpido contato visual com o baro Arald, dando
sinal para que ele ficasse de olho no arqueiro. Halt deu de
ombros. Se decidisse atirar uma flecha no corao de
Morgarath, nem o baro, nem qualquer outro homem se-
ria rpido o bastante para impedi-lo.
        Lentamente, a figura semelhante a um abutre se
aproximou no cavalo branco com o Wargal que levava o
estandarte  sua frente. Um baixo murmrio se ergueu em
meio ao exrcito do reino quando os guerreiros viram,
pela primeira vez, o homem que durante os ltimos quin-
ze anos tinha sido uma constante ameaa para suas vidas e
seu bem estar, Morgarath parou a uns 30 metros da linha
de frente e viu o grupo do rei no local onde tinha parado
para encontr-lo. Seus olhos se estreitaram quando olhou
para a pequena figura encolhida numa capa cinzenta sobre
um pnei desgrenhado.
        -- Duncan! -- ele chamou com a voz fina atraves-
sando o repentino silncio. -- Reclamo meus direitos!
        -- Voc no tem direitos, Morgarath -- o rei res-
pondeu. -- Voc  um rebelde, um traidor e um assassi-
no. Renda-se agora, e seus homens sero poupados. Esse
 o nico direito que vou lhe conceder.
        -- Exijo o direito de disputar um combate direto
com voc! -- Morgarath gritou de volta ignorando as pa-
lavras do rei. -- Ou voc  covarde demais para aceitar
um desafio, Duncan? -- ele continuou com insolncia. --
Vai deixar que mais alguns milhares de seus homens mor-
ram enquanto se esconde atrs deles? Ou vai deixar que o
destino decida a questo aqui?
        Duncan foi pego de surpresa. Morgarath esperou
sorrindo calmamente para si mesmo. Ele podia adivinhar
os pensamentos que passavam pelas mentes do rei e de
seus conselheiros. Ele tinha oferecido um curso de ao
que poderia poupar a vida de milhares de seus soldados.
        Arald moveu seu cavalo para perto do rei.
        -- Ele no tem direito aos privilgios de um cava-
leiro. Ele merece a forca. Nada mais -- disse zangado.
        Alguns dos outros murmuraram concordando.
       -- No entanto... -- Halt disse em voz baixa, e to-
dos se viraram para encar-lo. -- Isso poderia resolver o
problema que enfrentamos. Os Wargals esto mental-
mente presos  vontade de Morgarath. Agora que no
podemos usar a cavalaria, eles iro continuar a lutar en-
quanto ele desejar. E vo matar milhares de nossos ho-
mens nesse processo. Mas, se Morgarath fosse morto num
combate direto...
       -- Os Wargals ficariam sem comando -- Tyler in-
terrompeu compreendendo o raciocnio. --  provvel
que simplesmente parem de lutar.
       -- No temos certeza disso... -- Duncan ponderou
preocupado.
       -- Certamente, senhor, vale a pena tentar -- inter-
rompeu sir David de Caraway, -- Acho que Morgarath foi
esperto. Sabe que no podemos desistir  oportunidade de
pr fim a isso com um combate homem a homem. Ele
jogou os dados hoje e perdeu. Mas  obvio que planeja
desafi-lo e mat-lo como um ato final de vingana.
       -- O que quer dizer? -- Duncan perguntou.
       -- Como mestre de guerra real, posso responder a
qualquer desafio feito ao senhor, meu rei.
       Houve um breve murmrio quando ele disse isso.
Morgarath poderia ser um oponente perigoso, mas sir
David era o mais habilidoso cavaleiro do reino. Como o
filho, ele tinha treinado com o renomado mestre espada-
chim MacNeil, e sua capacidade no combate homem a
homem era lendria.
       -- Morgarath est usando as regras da classe dos
cavaleiros para ter uma chance de mat-lo, senhor -- ele
falou ansioso. -- Evidentemente, esqueceu o fato de que,
como rei, o senhor pode ser representado por um cam-
peo. D-lhe o direito de desafi-lo. E ento permita que
eu aceite.
       Duncan considerou a ideia. Ele olhou para os con-
selheiros e viu que todos concordavam. Abruptamente,
tomou uma deciso.
       -- Tudo bem -- disse finalmente. -- Aceito seu
direito ao desafio. Mas ningum diz nada sobre a aceita-
o. Somente eu, est claro?
       O conselho concordou. Uma vez aceito o desafio,
no se podia voltar atrs. Duncan ficou de p nos estribos
e se dirigiu  ameaadora figura negra.
       -- Morgarath -- Duncan chamou --, embora a-
creditemos que voc tenha perdido qualquer direito que
pudesse ter tido como cavaleiro, v em frente e faa seu
desafio. Como voc disse, vamos deixar o destino decidir
essa questo.
       Morgarath permitiu que um sorriso se espalhasse
por seu rosto e no tentou mais escond-lo daqueles que o
observavam. Sentiu uma rpida onda de triunfo no peito e
ento um dio frio o dominou quando olhou diretamente
para a figura pequena de aspecto insignificante atrs do
rei.
       -- Ento, como  meu direito perante Deus -- ele
disse com cuidado certificando-se de usar as palavras exa-
tas e antigas para propor um desafio -- e diante de todos
aqui presentes, fao meu desafio, para provar que minha
causa  correta e justa, para... -- ele no conseguiu deixar
de hesitar e saborear o momento por um segundo --
Halt, o arqueiro.
       Seguiu-se um silncio perplexo. Ento, quando
Halt impeliu Abelard para a frente para responder, o
"no!" penetrante de Duncan o fez parar. Seus olhos ti-
nham um brilho intenso.
       -- Vou correr o risco, meu senhor -- ele disse
sombrio, mas Duncan estendeu o brao para impedi-lo de
prosseguir.
       -- Halt no  um cavaleiro. Voc no pode desafi-
-lo -- ele disse depressa.
       Morgarath deu de ombros.
       -- Na verdade, Duncan, posso desafiar qualquer
um. E qualquer um pode me desafiar. Como cavaleiro,
no tenho que aceitar qualquer desafio, a menos que seja
feito por outro cavaleiro. Mas posso escolher quem quero
desafiar.
       -- Halt est proibido de aceitar! -- Duncan retru-
cou zangado.
       -- Ento vai fugir e se esconder, Halt? -- ele
zombou rindo. -- Como todos os arqueiros. Eu contei
que um de seus jovens arqueiros  nosso prisioneiro?
       Ele sabia que o Corpo de Arqueiros era um grupo
muito unido e esperava enfurecer Halt com a notcia de
que tinha capturado um de seus alunos.
       -- To pequeno que quase o jogamos fora. Mas
decidi manter e torturar ele. Assim haver menos um es-
pio sorrateiro no futuro.
       Halt sentiu o sangue fugir de seu rosto. Havia ape-
nas uma pessoa de quem Morgarath podia estar falando.
Furioso, ele impeliu Abelard para a frente.
       -- Voc est com Will? -- ele perguntou em voz
baixa, mas penetrante.
       Morgarath sentiu o mesmo choque de triunfo no-
vamente. Aquilo era ainda melhor do que esperava! Era
bvio que o menino arqueiro era querido por Halt. Uma
sbita sensao de alegria tomou conta dele. Seria ele a-
prendiz do prprio Halt? De repente, de alguma forma,
ele soube que essa era a verdade.
       -- Sim, Will est conosco -- ele respondeu. --
Mas no por muito tempo,  claro.
       Halt sentiu uma intensa onda de fria e dio pela
figura semelhante a um abutre que estava  sua frente.
Mos se estenderam a fim de par-lo, mas ele fez o cavalo
avanar e encarou Morgarath.
       -- Ento, Morgarath, sim, eu...
       -- Halt! Ordeno que pare! -- Duncan gritou inter-
rompendo-o. Mas ento todos os olhos foram atrados
para um movimento repentino na segunda fileira do exr-
cito. Uma figura montada se aproximou e cobriu a curta
distncia at Morgarath num segundo. O Senhor da Chu-
va e da Noite tentou pegar a espada, mas percebeu que a
arma do recm-chegado estava embainhada. Em vez dis-
so, seu brao direito se movimentou para trs, e ele jogou
a luva no rosto magro de Morgarath.
       -- Morgarath! -- gritou com a jovem voz aguda.
-- Eu o desafio a um combate homem a homem!
       Ento, virando o cavalo e se afastando alguns pas-
sos, Horace esperou a resposta de Morgarath.
Will e Evanlyn nunca souberam o que provocou a onda
de incerteza nos Wargals. Na verdade, tudo aconteceu no
momento em que Morgarath percebeu que tinha sido en-
ganado. A repentina agitao de medo que passou por sua
mente foi transmitida instantaneamente para todos os seus
escravos mentais.
       Os dois prisioneiros e os quatro escandinavos no-
taram a inquietao e hesitao nos 20 e tantos Wargals
que tinham ficado para vigi-los. Percebendo uma opor-
tunidade, Erak rapidamente olhou para seus homens. At
aquele momento, eles no tinham sido desarmados. A di-
ferena de 4 contra 20 era muito grande, mesmo para os
escandinavos, e os Wargals s tinham recebido ordens de
det-los, no de desarm-los.
       -- Alguma coisa est acontecendo -- o lder dos
escandinavos murmurou. -- Fiquem preparados. Todos
vocs.
       Disfaradamente, o pequeno grupo se certificou de
que suas armas estavam livres e prontas para a ao. En-
to o momento de incerteza se transformou num medo
real e palpvel entre os Wargals. Morgarath tinha acabado
de sinalizar uma retirada geral, e os que estavam na reta-
guarda no se sentiram diferentes das tropas da linha de
frente, para quem a ordem era destinada. Mais da metade
dos Wargals que os vigiavam simplesmente correu. Um
sargento, contudo, reteve um vestgio de raciocnio inde-
pendente e grunhiu um aviso para suas divises, oito no
total. Enquanto seus companheiros lutavam e brigavam
para abrir caminho na apertada entrada para o Desfiladei-
ro dos Trs Passos, as oito tropas vestidas de preto man-
tiveram sua posio.
       Mas eles estavam distrados e nervosos, e Erak de-
cidiu que a oportunidade no ficaria melhor do que estava
naquele momento.
       -- Agora, rapazes! -- ele gritou e atirou seu ma-
chado de duas lminas na direo do sargento.
       O Wargal tentou levantar a lana de ferro para se
defender, mas foi lento demais. A pesada arma atravessou
sua armadura e ele caiu.
       Enquanto Erak procurava outro oponente, seus
homens caam sobre o resto da tropa de Wargals. Eles
escolheram o momento em que outro comando mental
foi enviado por Morgarath, para que seus homens recuas-
sem e entrassem numa posio defensiva. As ordens con-
fusas em suas mentes os tornaram alvos fceis para os es-
candinavos, os Wargals caram um depois do outro. Os
demais que ali estavam, preocupados em escapar para o
Desfiladeiro dos Trs Passos, no deram ateno ao con-
flito breve e sangrento.
        Erak olhou ao redor com alguma satisfao e lim-
pou a lmina do machado num pano que tinha tirado de
um dos Wargals mortos.
        -- Assim est melhor -- ele disse animado. -- Fa-
zia tempo que eu queria fazer isso.
        Mas os Wargals no tinham deixado de causar da-
nos. Nordel cambaleou e caiu lentamente no cho, apoia-
do num joelho. Sangue vivo manchava o canto de sua
boca, e ele, sem saber o que fazer, olhou para o lder. Erak
se aproximou dele e se ajoelhou ao seu lado.
        -- Nordel! -- ele gritou. -- Onde voc foi ferido?
        Mas Nordel mal podia falar. Ele estava segurando o
lado direito do corpo, onde o colete de pele de carneiro j
estava bastante manchado de sangue. A espada pesada que
ele preferia usar como arma tinha cado de sua mo. Com
os olhos arregalados de medo, tentou peg-la, mas estava
longe demais. Rapidamente, Horak apanhou a arma e a
colocou na mo dele. Nordel agradeceu com um gesto e
lentamente se deixou cair sentado. O medo tinha deixado
seu olhar. Will sabia que os escandinavos acreditavam que
um homem tinha que morrer com a arma na mo para
que sua alma no vagasse atormentada por toda a eterni-
dade. Agora que segurava a espada com firmeza, Nordel
no tinha medo de morrer. Fraco, ele fez um gesto para
que se afastassem.
       -- Vo! -- ele disse, quando finalmente conseguiu
falar. -- Estou... acabado... Vo para os navios.
       -- Ele tem razo -- Erak concordou depressa e se
levantou. -- No tem nada que a gente possa fazer.
       Os outros concordaram. Ento, Erak primeiro a-
garrou Will, depois Evanlyn e os empurrou para a frente.
       -- Vamos, vocs dois -- ele disse com grosseria.
-- A menos que queiram ficar aqui at Morgarath voltar.
       E, movendo-se juntos num slido e pequeno gru-
po, os cinco abriram caminho pela multido confusa de
Wargals que tentavam avanar em direes opostas.




       Morgarath foi atingido pelo impacto da pesada luva
de couro em sua face. Furioso, ele se virou para encarar o
desafiante que tinha arruinado seu plano. Ento deixou o
leve sorriso se espalhar novamente pelo rosto.
       Ele se deu conta de que o desafiante no era mais
do que um garoto. Grande e musculoso, certamente, mas
o rosto jovem debaixo do simples capacete cnico no
podia ter mais que 16 anos.
       Antes que os membros perplexos do conselho pu-
dessem reagir, ele respondeu rapidamente.
       -- Aceito o desafio!
       Ele falou um segundo antes do grito furioso de
Duncan.
       -- No! Eu probo!
       Percebendo que era tarde demais, apelou para
Morgarath.
       -- Por Deus, Morgarath, como voc pode ver, ele 
apenas um garoto. Um aprendiz. Voc no pode aceitar
esse desafio!
       -- Ao contrrio -- Morgarath replicou. -- Como
acabei de ressaltar, tenho esse direito. E, como voc sabe,
uma vez feito e aceito o desafio, no se pode voltar atrs.
       Ele estava certo. As normas rgidas dos embates
entre cavaleiros, que todos tinham jurado seguir solene-
mente, ordenavam exatamente isso. Morgarath sorria a-
gora para o garoto ao seu lado. Acabaria com ele depressa.
E a morte rpida do menino serviria para deixar Halt ain-
da mais enfurecido.
       Enquanto isso, Halt observava o Senhor da Chuva
e da Noite com os olhos semicerrados.
       -- Morgarath, voc  um homem morto -- ele
murmurou. Halt sentiu uma mo firme no brao e encon-
trou o olhar sombrio de sir David quando se virou. O
mestre de guerra tinha desembainhado a espada e a levava
apoiada no ombro direito.
       -- O garoto vai ter que se arriscar, Halt -- ele dis-
se.
       -- Arriscar? Risco  tudo o que ele tem! -- Halt
replicou.
       -- Seja o que Deus quiser -- sir David respondeu
com tristeza. -- Voc no pode interferir nesse combate.
Vou impedir voc mesmo que s pense em tentar. No me
obrigue a isso. Somos amigos h muito tempo.
        Ele observou o olhar zangado de Halt por alguns
segundos e ento, aborrecido, o arqueiro concordou. Ele
sabia que o cavaleiro no estava brincando. O cdigo de
honra dos cavaleiros significava tudo para sir David.
        Essa cena no passou despercebida para Morgarath.
Ele tinha certeza de que, no momento em que o garoto
casse, Halt aceitaria o desafio original com ou sem a per-
misso do rei. E ento, finalmente, ele conheceria a satis-
fao de matar seu antigo e odiado inimigo antes que o
seu mundo desabasse ao seu redor.
        Ele se virou para encarar Horace.
        -- Que armas, garoto? -- ele perguntou num tom
ofensivo. -- Como prefere lutar?
        O rosto de Horace estava branco e tenso de medo.
Por um momento, a sua voz ficou presa na garganta. No
tinha certeza do que tinha se passado com ele quando a-
vanou a galope e apresentou seu desafio. Certamente no
tinha sido algo planejado. Aparentemente, uma raiva in-
tensa tinha tomado conta dele e, quando se deu conta, es-
tava diante de todo o exrcito, jogando a luva no rosto
confuso de Morgarath. Ento pensou na ameaa que o
inimigo tinha feito a Will, em como tinha sido obrigado a
deixar o amigo na ponte e, finalmente, conseguiu falar.
        -- Com o que temos aqui -- ele disse.
        Os dois carregavam espadas. Alm disso, o longo
escudo em forma de pipa de Morgarath estava pendurado
em sua sela, e Horace levava o seu escudo redondo preso
s costas. Mas a espada de Morgarath era de folha larga,
quase 30 centmetros mais comprida do que a espada co-
mum de cavalaria que Horace usava. Morgarath se virou
para falar novamente com Duncan.
       -- O filhote quer lutar com as armas que temos.
Suponho que voc vai ficar atento s regras de conduta,
no  mesmo? -- ele perguntou.
       -- Voc vai lutar sem ser perturbado -- Duncan
concordou num tom amargo.
       Aquelas eram as regras do combate homem a ho-
mem. Morgarath concordou e se curvou de modo zom-
beteiro para o rei.
       -- Apenas se certifique de que Halt, esse assassino,
entenda isso -- ele avisou, continuando seu plano de
provocar uma fria fria no arqueiro. -- Eu sei que ele
conhece pouco as regras dos cavaleiros.
       -- Morgarath -- Duncan disse com frieza --, no
finja que o que est fazendo tem algo a ver com o verda-
deiro cdigo de cavaleiros. Eu lhe peo mais uma vez,
poupe a vida do garoto.
       -- Poup-lo, majestade? -- Morgarath indagou a-
parentando surpresa. -- Ele  um garoto enorme, grande
para a idade. Talvez fosse melhor pedir a ele para me
poupar.
       -- Se voc insiste em cometer assassinato, a esco-
lha  sua, Morgarath. Mas nos livre de seu sarcasmo --
Duncan pediu.
       Novamente, Morgarath se curvou zombeteiro e
casualmente disse para Horace:
       -- Est pronto, garoto?
       Horace engoliu em seco e concordou.
       -- Sim -- ele disse.
       Foi Gilan quem viu o que ia acontecer e gritou um
aviso no momento exato. A imensa espada de folha larga
tinha sado da bainha como uma cobra, com velocidade
inacreditvel, e Morgarath a agitou  esquerda do garoto.
Avisado pelo grito, Horace rolou para o lado, e a lmina
passou assobiando a centmetros de sua cabea.
       No mesmo movimento, Morgarath tinha batido as
esporas em seu cavalo branco desbotado e se afastava a
galope, apanhando o escudo e ajustando-o ao brao es-
querdo. Seu riso zombeteiro chegou at Horace enquanto
o garoto se recuperava.
       -- Ento, vamos comear! -- ele riu, e Horace
sentiu a garganta seca ao se dar conta de que estava arris-
cando a vida.
Morgarath estava fazendo que o cavalo descrevesse um
grande crculo para ganhar espao. Horace sabia que ele
logo voltaria e o atacaria usando o impulso do movimento
e a fora da espada para tentar derrub-lo da sela.
       Guiando o animal com os joelhos, ele se virou para
a direo oposta, sacudiu o escudo com um movimento
forte para que sasse das costas e deslizou o brao es-
querdo pelas tiras. Ele olhou por cima do ombro e viu
Morgarath a 80 metros de distncia impelindo o cavalo a
toda velocidade. Horace bateu os calcanhares nas costelas
de seu cavalo e correu para enfrentar a figura vestida de
preto.
       O barulho provocado pelos cascos dos dois cavalos
se confundiu quando os cavaleiros trovejaram na direo
um do outro. Sabendo que seu oponente tinha a vantagem
da distncia, Horace decidiu deixar que ele desferisse o
primeiro golpe para depois tentar contra-atacar. Eles j
estavam bem perto um do outro quando, de repente,
Morgarath se levantou nos estribos e, de toda a sua altura,
desferiu um golpe acima do ombro do garoto. Horace,
que esperava o movimento, levantou o escudo.
       A fora do golpe de Morgarath foi arrasadora. A
espada tinha o comprimento do dono, a fora de seu bra-
o e o impulso do cavalo a galope. Coordenando perfei-
tamente os movimentos, ele tinha canalizado todas essas
foras e as tinha concentrado na espada quando a abaixou
sobre Horace. Nunca em sua vida o garoto tinha sentido
uma fora to destrutiva. Os que assistiam ao duelo se
encolheram quando a espada bateu no escudo e provocou
um rudo metlico. Eles viram Horace oscilar sob o golpe
violento e quase ser derrubado da sela.
       A ideia de desferir um contra-ataque tinha desapa-
recido. Tudo o que podia fazer era se ajeitar na sela outra
vez enquanto seu cavalo disparava, para longe, danando
para o lado enquanto a montaria de Morgarath, treinada
para batalhas, atacava com os cascos traseiros.
       O brao esquerdo de Horace, que segurava o es-
cudo, estava completamente adormecido pela terrvel for-
a do golpe. Ele o sacudiu repetidas vezes enquanto ca-
valgava para longe, movendo o brao em pequenos crcu-
los para tentar recuperar a sensibilidade. Nesse momento,
sentiu uma dor fraca que pareceu se estender por todo o
membro. Agora sabia o que era o verdadeiro medo. Ele
no conhecia nenhuma forma de conter a fora esmaga-
dora dos golpes de espada de Morgarath. Percebeu que
todo o seu treinamento, toda a sua prtica, no eram nada
comparados aos anos e anos de experincia do oponente.
        Horace se virou para encarar Morgarath e deu im-
pulso ao cavalo outra vez. Na primeira passagem, eles ti-
nham se encontrado escudo a escudo. Desta vez, ele viu
que o adversrio estava se preparando para passar do seu
lado direito, lado em que segurava a espada, e compreen-
deu que o prximo choque no iria recair em seu escudo.
Ele teria que se defender com a espada. Sua boca estava
seca quando galopou para a frente, tentando desespera-
damente se lembrar do que Gilan lhe tinha ensinado.
        Mas Gilan nunca o tinha preparado para enfrentar
uma fora to descomunal. Ele sabia que no podia se ar-
riscar a segurar a espada levemente e aumentar a presso
no momento do impacto. Os ns de seus dedos ficaram
brancos sobre o punho da arma. De repente, Morgarath
estava em cima dele, e a imensa espada de folha larga se
agitou num arco cintilante sobre sua cabea. Bem a tem-
po, Horace levantou a espada para se defender.
        O choque violento e o grito agudo do ao batendo
no ao fez os nervos dos espectadores estremecer. No-
vamente, Horace oscilou na sela por causa da fora do
golpe. Seu brao direito estava dormente da ponta dos
dedos at o cotovelo. Ele sabia que teria que interromper
esse ciclo de golpes violentos, mas no sabia como.
        O garoto ouviu cascos de cavalo atrs dele e, ao se
virar, se deu conta de que Morgarath no tinha se afastado
para ganhar terreno para outro ataque. Em vez disso, ti-
nha virado o cavalo quase imediatamente, sacrificando a
fora extra ganha no impulso em troca de um ataque r-
pido. A espada de folha larga se agitou novamente.
       Horace fez o cavalo se erguer nas patas traseiras,
fazendo-o girar no lugar em que estava, e recebeu a espa-
da de Morgarath no escudo outra vez. Desta vez, a fora
do golpe foi um pouco menos arrasadora, mas no muito.
Horace desferiu dois golpes no senhor negro, de frente e 
esquerda. Era mais fcil brandir sua espada menor e mais
leve do que a poderosa espada de folha larga, mas seu
brao direito ainda estava entorpecido pela defesa e seus
golpes eram muito fracos. Morgarath os desviava com fa-
cilidade, quase com desdm, e voltou a atacar Horace, a-
gora por cima do ombro, de p nos estribos para dar um
impulso adicional.
       O escudo de Horace recebeu a fora do golpe da
espada novamente. O pedao circular de ao quase foi
dobrado em dois pelos golpes pesados que recebeu. Mais
alguns iguais a esses e ele ficaria praticamente inutilizado.
Lutando para continuar montado, o garoto conduziu o
cavalo para longe de Morgarath.
       Sua respirao estava ofegante, e o suor cobria seu
rosto. Ele sabia que era o suor do medo e do esforo.
Horace sacudiu a cabea desesperado para aclarar a vista.
Morgarath novamente estava cavalgando em sua direo.
O menino alterou seu rumo no ltimo instante, puxando a
cabea de sua montaria para a esquerda, fazendo-a atra-
vessar o caminho do cavalo de Morgarath, tentando esca-
par  enorme espada. Morgarath viu o movimento e mu-
dou para uma cortada  esquerda, atingindo a borda do
escudo do rapaz.
        A espada de folha larga fez um corte profundo no
ao do escudo e ficou presa ali. Aproveitando o momento,
Horace se levantou nos estribos e deu uma cortada por
cima do ombro em Morgarath. O escudo preto subiu a-
penas uma frao de segundo tarde demais, e o golpe de
Horace atingiu levemente o capacete preto em forma de
bico de pssaro. O choque fez vibrar todo o seu brao,
mas a sensao foi boa. Ele desferiu outro golpe enquanto
Morgarath se torcia e levantava para remover a espada.
        Desta vez, Morgarath levou um golpe no escudo e,
pela primeira vez, Horace conseguiu conferir bastante
fora  pancada, e o Senhor da Chuva e da Noite grunhiu
quando foi sacudido em sua sela. Seu escudo no caiu por
pouco.
        Ento, Horace usou a parte mais curta da espada
para dar uma estocada no espao que se abriu entre o es-
cudo e o corpo e levou a ponta at as costelas de Morga-
rath. Por um momento, os espectadores viram uma breve
chama de esperana. Mas a armadura negra suportou a
investida, que tinha sido dada de uma posio inadequada
e sem fora. Mesmo assim, ela machucou Morgarath, fra-
turando uma costela atrs da armadura de malha, fazen-
do-o praguejar de dor e torcer o corpo quando sua espada
foi atingida mais uma vez.
        E, ento, o desastre!
       Enfraquecido pelos fortes golpes dados por Mor-
garath, o escudo de Horace simplesmente cedeu. A imen-
sa espada desceu, finalmente livre, e rasgou as tiras de
couro que o prendiam ao brao do garoto. O escudo a-
massado e disforme se soltou e voou pelo ar. Horace va-
cilou na sela outra vez, tentando desesperadamente man-
ter o equilbrio. Perto demais para usar toda a fora de sua
lmina, Morgarath bateu o punho duplo da espada na la-
teral do capacete do menino, e os espectadores gemeram
desanimados quando Horace caiu da sela.
       Seu p ficou preso no estribo, e ele foi arrastado
por cerca de 20 metros atrs do apavorado cavalo que ga-
lopava velozmente. Curiosamente, esse fato provavel-
mente salvou sua vida, pois ele foi levado para fora do al-
cance da espada assassina. Quando finalmente o garoto
conseguiu se libertar, rolou na poeira, ainda segurando a
espada na mo direita.
       Cambaleando, levantou-se com os olhos cheios de
suor e poeira.
       Vagamente, viu Morgarath disparando em sua di-
reo. Segurando a espada com as duas mos, ele bloque-
ou o golpe da enorme arma do inimigo, mas foi jogado de
joelhos no cho, tamanha foi sua fora. O golpe do casco
do cavalo o atingiu nas costelas, e ele tornou a cair no
cho enquanto Morgarath se afastava a galope.
       O silncio tinha cado sobre os espectadores. Os
Wargals no se importavam com o espetculo, mas o e-
xrcito do reino assistia  competio desigual num terror
silencioso. Todos sabiam que o fim era inevitvel.
       Lentamente, dolorosamente, Horace se levantou
mais uma vez. Morgarath virou o cavalo e se preparou
para outro ataque. Horace observou-o se aproximar sa-
bendo que aquela competio s podia ter um resultado.
Uma ideia desesperada estava se formando em sua mente
enquanto o cavalo de batalha desbotado trovejava em sua
direo, dirigindo-se para a sua direita, deixando espao
para Morgarath atac-lo com a espada. O rapaz no sabia
se sua armadura poderia proteg-lo caso colocasse em
prtica o que tinha em mente. Ele poderia morrer. Ento,
sombriamente, riu para si mesmo. Ele ia ser morto de
qualquer forma.
       Preparado, Horace esperou tenso. O cavalo j es-
tava quase em cima dele, desviando-se para a direita para
dar espao de ataque a Morgarath. Nos ltimos metros,
Horace virou para a direita e deliberadamente se atirou
debaixo dos cascos dianteiros do cavalo.
       Um forte grito sem palavras surgiu dos espectado-
res quando, por um momento, a cena foi obscurecida por
uma nuvem de poeira. Horace sentiu um casco atingi-lo
nas costas, entre as omoplatas, e ento viu um breve cla-
ro vermelho quando outro bateu em seu capacete, arre-
bentando a tira e arrancando-o da cabea. Depois ele foi
atingido mais outras incontveis vezes, e o mundo se
transformou numa confuso de dor, poeira e, principal-
mente, barulho.
       Despreparado para essa ao suicida, o cavalo ten-
tou desesperadamente evit-la. Suas patas dianteiras se
cruzaram. O animal tropeou e caiu na poeira, depois deu
um salto mortal que formou um emaranhado de patas e
corpo. Morgarath, que conseguiu tirar os ps dos estribos
no momento certo, foi jogado por cima do pescoo do
animal e caiu no cho com violncia, deixando a espada de
folha larga escapar de sua mo.
       Gritando com fria e medo, o cavalo branco lutou
para se levantar. Ele chutou a figura que o tinha feito cair
e se afastou trotando. Horace grunhiu de dor e tentou se
levantar. Ele ficou de joelhos e, vagamente, ouviu os vivas
do exrcito.
       Ento os vivas morreram aos poucos quando a fi-
gura imvel vestida de preto, cada a alguns metros de
distncia, tambm comeou a se mexer.
       Morgarath estava sem flego, nada mais. Ele respi-
rou bem fundo, levantou-se, olhou para os lados. Viu a
espada de folha larga meio enterrada na poeira e foi pe-
g-la. O corao de Horace se apertou no peito quando a
figura alta, agora emoldurada pelo sol baixo da tarde, co-
meou a avanar sobre ele com um passo largo de cada
vez. Desesperado, o rapaz pegou a espada e se levantou
com dificuldade. Morgarath tinha se livrado do escudo
triangular preto. Segurando a espada com as duas mos,
avanou. Horace, sentindo dor em todo o corpo, ficou
firme para esper-lo.
       Novamente se ouviu o choque irritante de ao con-
tra ao. Morgarath desferiu um golpe aps outro na espa-
da de Horace. Apavorado, o aprendiz de guerreiro se des-
viava e os bloqueava. Mas, a cada pancada violenta, seus
braos perdiam a fora. Ele comeou a recuar, e Morga-
rath avanava, derrubando as defesas do garoto com um
golpe violento atrs do outro.
       E ento, quando Horace deixou a ponta da espada
baixar, incapaz de encontrar foras para mant-la erguida,
a enorme arma de folha larga de Morgarath desceu asso-
biando mais uma vez e atingiu a espada menor, partindo a
lmina em dois.
       Ele recuou um passo com um sorriso cruel no ros-
to, enquanto Horace olhava atordoado para a lmina que-
brada na mo direita.
       -- Acho que estamos quase no fim -- Morgarath
disse em um tom de voz suave e inexpressivo.
       Horace ainda olhava para a espada intil. Quase
inconscientemente, a mo esquerda procurou a adaga e a
desembainhou. Morgarath viu o movimento e riu.
       -- No acho que isso v lhe fazer muito bem --
ele zombou. Ento, deliberadamente, levantou e ajeitou a
grande espada para o ltimo golpe, que iria cortar Horace
na cintura.
       Foi Gilan quem percebeu o que ia acontecer um
segundo antes do golpe.
       -- Oh, meu Deus, ele vai... -- ele disse devagar e
sentiu uma ridcula ponta de esperana.
       Cortando o ar, a espada de folha larga comeou a
descrever um arco descendente. E Horace, jogando tudo
num ltimo esforo, deu um passo  frente, cruzando as
duas lminas que segurava, a adaga apoiando a espada
quebrada.
       As duas lminas receberam o impacto do golpe
poderoso de Morgarath. Mas o rapaz tinha se aproximado
do homem mais alto, o que reduziu a potncia da longa
lmina e a fora do golpe. A espada de Morgarath bateu
com um som metlico no X formado pelas duas lminas.
       Os joelhos de Horace se dobraram, mas ele ficou
firme e, por um momento, os dois oponentes ficaram
peito a peito. Horace viu a fria perplexa na expresso do
louco enquanto se perguntava como tinham chegado -
quela situao. Ento a fria se transformou em surpresa,
pois Morgarath sentiu uma agonia profunda e ardente a-
travessar seu corpo quando Horace fez a adaga escorregar
e, com toda a fora que lhe restava, atravessar a malha de
ferro de Morgarath, penetrando seu corao.
       Lentamente, o Senhor da Chuva e da Noite desa-
bou no cho. Um silncio assustado tomou conta dos es-
pectadores por vrios segundos. E logo os vivas comea-
ram.
O   que tinha sido, alguns minutos antes, um campo de
batalha, agora tinha se transformado em confuso. O e-
xrcito Wargal, livre instantaneamente do controle mental
de Morgarath, vagueava sem rumo, esperando que alguma
fora lhe dissesse o que fazer em seguida. Toda a agressi-
vidade os tinha deixado, e a maioria simplesmente largou
as armas e partiu. Outros se sentaram e cantaram em voz
baixa para si mesmos. Sem a orientao de Morgarath,
pareciam crianas pequenas.
       O grupo que tentava escapar pelo Desfiladeiro dos
Trs Passos agora estava parado em silncio e imvel, es-
perando pacientemente que os da frente abrissem cami-
nho.
       Duncan examinava a cena atordoado.
       -- Vamos precisar de um exrcito de ces pastores
para reunir essa turma -- ele disse ao baro Arald e fez o
conselheiro sorrir.
       --  melhor do que tudo o que tivemos que en-
frentar, meu senhor -- ele disse, e Duncan teve que con-
cordar.
       O pequeno crculo de tenentes de Morgarath era
uma questo diferente. Alguns foram capturados, mas ou-
tros tinham fugido para a regio deserta dos pntanos.
Crowley, o comandante do Corpo de Arqueiros, ficou de-
sanimado quando se deu conta de que ele e seus homens
iriam passar vrios dias, longos e duros, sobre a sela. Ele
teria que organizar uma fora-tarefa e enviar arqueiros pa-
ra caar os tenentes de Morgarath e traz-los de volta para
enfrentar a justia do rei. " sempre assim", ele pensou
aborrecido. Enquanto todos os outros podiam sentar e
relaxar, o trabalho dos arqueiros continuava sem parar.
       Horace, cheio de hematomas, marcas e sangue, ti-
nha sido levado para a barraca do rei para ser tratado. Ele
estava muito ferido depois do salto louco para debaixo
dos cascos do cavalo de batalha. Tinha vrios ossos que-
brados, e uma orelha sangrava. Mas, para surpresa de to-
dos, nenhum dos ferimentos era fatal, e o curandeiro do
rei, que o tinha examinado imediatamente, estava confi-
ante de que ele iria se recuperar totalmente.
       Sir Rodney tinha corrido at o campo quando os
ajudantes se preparavam para levar o garoto. Parado junto
do aprendiz, ele tremia de raiva.
       -- Que diabos voc pensou que estava fazendo? --
ele rugiu fazendo Horace se encolher. -- Quem lhe disse
para desafiar Morgarath? Voc no passa de um aprendiz,
garoto, e muito desobediente, por sinal!
       Horace se perguntou se os gritos iam continuar por
muito tempo. E ele quase desejou voltar a enfrentar Mor-
garath. Estava atordoado, doente e tonto, e o rosto ver-
melho e zangado de sir Rodney surgia e desaparecia na sua
frente. As palavras do mestre de guerra pareciam saltar de
um lado para outro de seu crebro, e ele no tinha certeza
de por que o homem gritava tanto. Talvez Morgarath ain-
da estivesse vivo e, ao pensar nessa possibilidade, ele ten-
tou se levantar.
       No mesmo instante, a expresso de Rodney mudou
e ele pareceu preocupado. Gentilmente, impediu o apren-
diz ferido de se levantar, inclinando-se e apertando a mo
do garoto com firmeza.
       -- Descanse, garoto -- ele recomendou. -- Voc
fez muita coisa hoje. Voc se saiu muito bem.




        Enquanto isso, Halt abria caminho entre os inde-
fesos Wargals. Eles se afastavam para o lado sem nenhu-
ma resistncia ou ressentimento enquanto ele procurava
desesperadamente Will.
        Mas no havia sinal do garoto nem da filha do rei.
Depois de ouvir os insultos de Morgarath, o rei e os ou-
tros tinham se dado conta de que, se Will ainda estava vi-
vo, havia uma chance de que Cassandra, que era o verda-
deiro nome de Evanlyn, tambm tivesse sobrevivido. O
fato de Morgarath no ter mencionado a moa indicava
que sua identidade ainda era segredo. Halt imaginou que
esse fora o motivo pelo qual ela tinha assumido a identi-
dade da criada. Ao fazer isso, tinha evitado que Morgarath
soubesse o poder que tinha nas mos.
       Impaciente, ele empurrou outro grupo de Wargals
silenciosos e parou ao ouvir um choro fraco.
       Um escandinavo, quase morto, estava sentado, re-
costado no tronco de uma rvore. Ele tinha escorregado
para o cho. Suas pernas estavam estendidas na poeira e
sua cabea caa fracamente para o lado. Uma grande
mancha de sangue marcava um lado do colete de pele de
carneiro. Uma pesada espada estava ao seu lado, a mo
fraca demais para continuar a segur-la.
       Ele fez uma dbil tentativa de peg-la e pediu ajuda
a Halt com o olhar. Nordel, cada vez mais fraco, tinha
soltado a arma sem querer. Debilitado, quase cego e sa-
bendo estar perto da morte, ele no conseguia ach-la.
Halt se ajoelhou ao seu lado. Ele percebeu que o homem
no representava perigo, pois estava muito mal para tentar
qualquer truque. Halt pegou a espada e a colocou no colo
do homem, pondo as mos dele no punho revestido de
couro.
       -- Obrigado... amigo... -- Nordel disse ofegando
fracamente. Halt respondeu com um gesto triste. Ele ad-
mirava os escandinavos como guerreiros e o aborrecia ver
um deles naquela situao, to fraco que no conseguia
segurar a arma. O arqueiro sabia o que isso significava pa-
ra os guerreiros do mar. Ele se levantou devagar e come-
ou a se virar, mas parou.
       Horace tinha dito que Will e Evanlyn tinham sido
levados por um pequeno grupo de escandinavos. Talvez
aquele homem soubesse alguma coisa. Ele se ajoelhou
novamente, ps a mo no rosto do homem e o virou para
si.
       -- O menino -- ele disse ansioso, pois sabia que
tinha apenas alguns minutos. -- Onde ele est?
       Nordel franziu a testa. As palavras despertaram
uma lembrana em sua mente, mas tudo o que tinha a-
contecido parecia muito distante e sem importncia.
       -- Menino... ? -- ele repetiu com a voz rouca.
       Halt no conseguiu se conter e sacudiu o homem
agonizante.
       -- Will! -- ele disse com o rosto a somente alguns
centmetros de distncia do do homem. -- Um arqueiro.
Um garoto. Onde ele est?
       Uma breve luz de compreenso brilhou nos olhos
de Nordel quando ele se lembrou do menino. Ele tinha
admirado sua coragem. Admirado a forma como os tinha
mantido a distncia na ponte. Sem perceber, pronunciou
as duas ltimas palavras.
       -- Na ponte... -- ele sussurrou, e Halt o sacudiu de
novo.
       -- Sim! O menino na ponte! Onde ele est?
       Nordel olhou para ele. Havia uma coisa que tinha
que lembrar. Ele sabia que era importante para esse es-
tranho de expresso zangada e queria ajudar. Afinal, o es-
tranho o tinha ajudado a encontrar sua espada. Ele se
lembrou do que era.
        -- ...foi embora -- conseguiu dizer finalmente.
        Ele gostaria que o estranho no o sacudisse. No
sentia nenhuma dor, pois no conseguia sentir mais nada.
Mas o gesto o acordava do sono quente e suave em que
estava mergulhando. O rosto barbado estava bem longe
dele agora, no fim de um tnel. A voz ecoava at ele atra-
vs do tnel.
        -- Embora para onde?
        Ele ouviu o eco. Ele gostava do eco. Fazia lembrar
o... algum fato da infncia.
        -- Onde-onde-onde? -- o eco repetiu e ento o
homem lembrou.
        -- Os pntanos -- ele disse. -- Pelos pntanos at
os navios.
        Ele sorriu quando disse isso. Queria ajudar o es-
tranho e tinha conseguido. E, desta vez, quando a maciez
morna tomou conta dele, o estranho no o sacudiu. Ele
ficou satisfeito com isso.
        Halt se levantou e se afastou do corpo de Nordel.
        -- Obrigado, amigo -- ele disse apenas.
        Correu para onde tinha deixado Abelard pastando
calmamente e saltou sobre a sela.
        Os pntanos eram um labirinto de capim alto, ter-
renos alagadios e passagens sinuosas de gua lmpida.
Para a maioria das pessoas, eles eram intransponveis. Um
passo em falso poderia fazer que uma pessoa afundasse
rapidamente num dos atoleiros pegajosos de areia move-
dia escondidos por todos os lados. Uma vez nos brejos
obscuros, era fcil se perder totalmente e vaguear at ser
dominado pela exausto ou ser encontrado pelas veneno-
sas cobras-d'gua.
       Pessoas sensatas evitavam os pntanos. Apenas
dois grupos conheciam as trilhas secretas que os atraves-
savam: os arqueiros e os escandinavos, que vinham per-
correndo a costa h mais tempo do que Halt podia se
lembrar.
       Mesmo sendo Abelard um cavalo de andar seguro,
como todos os animais dos arqueiros, quando Halt entrou
nas profundezas do labirinto de capim alto e terreno ala-
gadio, ele desmontou. Os sinais de trilhas seguras eram
mnimos e passavam facilmente despercebidos, e ele pre-
cisava estar perto do cho para segui-los. Ele no tinha
caminhado muito quando comeou a ver indcios de que
um grupo tinha passado por ali. Halt se animou. Certa-
mente eram os escandinavos, com Will e Evanlyn.
       Ele apressou o passo e logo pagou o preo por agir
assim, perdendo um sinal importante na trilha e acabando
mergulhado at o peito numa grossa massa de lama sem
fundo. Felizmente, ainda segurava as rdeas de Abelard
com firmeza e, a um comando seu, o cavalo robusto o ar-
rastou para fora do perigo.
       Aquela era outra boa razo para continuar levando
o cavalo atrs de si.
        Ele voltou para a trilha, determinou sua posio e
recomeou a andar. Apesar de muito agitado pela impaci-
ncia, obrigou-se a avanar com cuidado. As marcas dei-
xadas pelo grupo que tinha passado  sua frente estavam
se tornando cada vez mais visveis. Ele sabia que estava
alcanando os escandinavos. A questo era se chegaria at
eles a tempo.
        Mosquitos e moscas do pntano zumbiam e gemi-
am em volta dele. Sem o menor sinal de brisa, o pntano
estava abafado e quente, e Halt suava em abundncia. Su-
as roupas estavam molhadas e encharcadas com aquela
lama malcheirosa, e ele tinha perdido uma bota quando
Abelard o puxou para fora do poo. Mesmo assim, conti-
nuou mancando, aproximando-se mais de seu objetivo a
cada passo.
        Ao mesmo tempo, sabia que estava chegando ao
fim do pantanal. E isso significava que se aproximava da
praia em que estavam ancorados os navios dos escandi-
navos. Ele tinha que encontrar Will antes que o grupo al-
canasse a praia. Depois que o garoto estivesse num dos
navios, estaria perdido para sempre, pois seria levado para
o outro lado do Mar das Tormentas Brancas, para a terra
fria coberta de neve dos escandinavos, onde seria vendido
como escravo e levaria uma vida de trabalho pesado e in-
terminvel.
        Acima do cheiro podre dos pntanos, ele sentiu o
perfume fresco de sal no ar. Estava perto do mar! Halt
redobrou os esforos, esquecendo-se totalmente da caute-
la enquanto dava tudo de si para alcanar os escandinavos
antes que chegassem  gua.
       O capim j estava rareando, e o cho debaixo de
seus ps ficava mais firme a cada passo. Ele comeou a
correr com o cavalo trotando atrs dele e finalmente che-
gou  praia varrida pelo vento.
       Uma pequena elevao formada por dunas na sua
frente bloqueava a vista para o mar. Ele saltou na sela ra-
pidamente e fez Abelard galopar. Eles atravessaram as
dunas, o arqueiro inclinado para a frente, colado ao pes-
coo do cavalo, impelindo-o a aumentar a velocidade.
       Havia um navio ancorado longe da praia. Na beira
da gua, um grupo de pessoas estava embarcando num
pequeno bote e, mesmo aquela distncia, Halt reconheceu
a pequena figura no meio como o seu aprendiz.
       -- Will! -- ele gritou, mas o vento do mar levou as
palavras para longe.
       Com as mos e os joelhos, ele fez que Abelard a-
vanasse.
       Foi o bater dos cascos que alertou os escandinavos.
Erak, com gua at a cintura e empurrando com Horak o
barco para o fundo da gua, olhou sobre o ombro e viu a
figura vestida de cinza e verde cavalgando em sua direo.
       -- Pelas barbas de Netuno! -- ele gritou. -- Va-
mos depressa!
       Will, sentado ao lado de Evanlyn no centro do bo-
te, se virou quando o escandinavo falou e viu Halt a me-
nos de 200 metros de distncia. Ele se levantou tentando
manter o equilbrio precariamente no barco instvel.
       -- Halt! -- ele berrou e, no mesmo instante, Sven-
gal o atingiu com as costas da mo, fazendo-o cair no
fundo da pequena embarcao.
       -- Fique abaixado! -- ele ordenou quando Erak e
Horak voltaram para o barco, e os remadores fizeram que
atravessasse a primeira linha de ondas.
       O vento, que os tinha impedido de ouvir o chama-
do de Halt, levou o grito fraco do garoto at os ouvidos
do arqueiro. Abelard tambm o escutou e se esforou ao
mximo, retesando os msculos do corpo e galopando a
toda velocidade. Halt no estava segurando as rdeas, pois
posicionava uma flecha na corda do arco.
       A pleno galope, ele mirou e atirou.
       O remador da proa soltou um grunhido de surpresa
e caiu de lado sobre a amurada do barco quando a pesada
flecha de Halt o atingiu e atravessou seu brao. O barco
comeou a girar, e Erak disparou para a frente, empur-
rando o homem para o lado e assumindo o remo.
       -- Remem com toda a fora! -- ordenou. -- Se ele
chegar perto demais, estaremos todos mortos.
       Agora Halt guiava Abelard com os joelhos, fazen-
do-o entrar no mar e impelindo-o para a frente para tentar
alcanar o bote. Ele atirou novamente, mas a distncia era
grande e o alvo estava se levantando e abaixando ao sabor
das ondas. Alm disso, Halt no podia atirar perto do
centro da embarcao, pois tinha receio de atingir Will ou
Evanlyn. Sua melhor chance seria se aproximar o bastante
para atirar com facilidade e atingir um remador de cada
vez.
       Halt atirou novamente, e a flecha entrou no fundo
das tbuas do bote, a poucos centmetros da mo de Ho-
rak, na popa. Ele puxou a mo com um movimento vio-
lento, como se tivesse sido queimado, e gritou de surpre-
sa. Ento se encolheu quando outra flecha passou assobi-
ando e caiu na gua atrs do barco a menos de 30 cent-
metros de distncia.
       Mas agora o bote estava se afastando, pois Abelard,
com o peito mergulhado nas ondas, no podia mais man-
ter a mesma velocidade. O cavalo se esforava valente-
mente dentro da gua, mas o barco flutuava perto do na-
vio, e Abelard ainda estava a 100 metros de distncia. Halt
impeliu o cavalo a se aproximar mais alguns metros e pa-
rou derrotado quando viu as pessoas sendo iadas do bo-
te.
       Os dois passageiros menores foram conduzidos
para o leme, perto da popa. A tripulao de escandinavos
cercava os lados do navio, parada na balaustrada, soltando
gritos de desafio para a pequena figura quase escondida
pelas ondas agitadas e cinzentas.
       No navio, Erak gritou para eles e se escondeu atrs
da slida amurada.
       -- Abaixem-se, seus idiotas!  um arqueiro!
       Ele tinha visto Halt preparar o arco e suas mos se
moverem a uma velocidade incrvel. As nove flechas que
lhe restavam estavam voando no ar antes que a primeira
atingisse o alvo.
       No espao de dois segundos, trs dos escandinavos
parados na balaustrada caram sob a tempestade de fle-
chas. Dois deles estavam gemendo de dor, o outro estava
assustadoramente quieto. O resto da tripulao se jogou
no convs quando as flechas passaram sibilando e caram
com um barulho forte ao seu redor.
       Com cuidado, Erak levantou a cabea acima da
amurada, certificando-se de que Halt no tinha mais fle-
chas.
       -- Ponham-se a caminho -- ele ordenou e pegou o
remo de direo.
       Will, temporariamente esquecido pelos escandina-
vos, se aproximou da balaustrada. Eram apenas algumas
centenas de metros e ningum estava prestando ateno
nele. Sabia que podia nadar aquela distncia e comeou a
estender a mo para o parapeito. Mas ento hesitou pen-
sando em Evanlyn. No podia abandon-la. No instante
em que refletia sobre o assunto, a enorme mo de Horak
se fechou sobre a gola de sua jaqueta e ele perdeu a opor-
tunidade.
       Quando o navio comeou a ganhar velocidade, Will
olhou para a figura montada ao longe, atacada pelas on-
das. Halt estava to perto e, ao mesmo tempo, totalmente
fora do alcance. Seus olhos se encheram de lgrimas e,
muito distante, ele ouviu a voz de Halt.
       -- Will! Fique vivo! No desista! Vou encontrar
voc aonde quer que eles levem voc!
       Sufocado pelas lgrimas, o garoto levantou o brao
num gesto de adeus para o amigo e mentor.
       -- Halt! -- ele gemeu, mas sabia que o arqueiro
no poderia ouvi-lo. Mais uma vez, ele escutou a voz do
mestre acima dos sons do vento e do mar.
       -- Vou achar voc, Will!
       Ento o vento encheu a enorme vela quadrada do
navio que se afastou da praia, movendo-se cada vez mais
depressa na direo nordeste.
       Durante um longo tempo depois que a embarcao
tinha desaparecido atrs do horizonte, a figura encharcada
permaneceu sentada em seu cavalo mergulhado nas ondas
at o peito, olhando para o vazio.
       Seus lbios ainda se moviam numa promessa silen-
ciosa que s ele podia ouvir.
Digitalizao: Lene
  Reviso: Yuna
